Menina de 6 anos morre em testes genéticos na China: veja o que se sabe até agora

O tratamento experimental tinha como objetivo combater uma doença genética rara que provocava atraso no desenvolvimento cognitivo da criança.

Carlos Rocha
Carlos Rocha
Nascido em 1988, em Guarulhos (SP), Carlos Rocha é filho de paraibanos e vive em João Pessoa desde o início dos anos 2000. Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Paraibana, ingressou posteriormente no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).Atua no jornalismo digital desde 2013, com passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba. Na TH+ SBT Tambaú, trabalhou nas áreas de Marketing, Reportagem e Produção de Conteúdo Multimídia.Sua atuação é voltada principalmente para política, cidades e temas de interesse público, sempre com foco na apuração rigorosa e na produção de conteúdo de qualidade. Além do jornalismo, é apaixonado por leitura, cinema, séries e cultura pop.

Uma menina de seis anos morreu em março de 2025, cerca de uma semana após receber uma terapia genética experimental na China. O caso veio a público agora e está sendo investigado pela Universidade Jiao Tong de Xangai, depois de uma apuração da revista Science em parceria com o Retraction Watch apontar que a morte não teria sido informada em um estudo científico relacionado ao tratamento.

A criança, identificada pelo pseudônimo “Mei”, teria recebido uma infusão na região da coluna com bilhões de vírus geneticamente modificados, desenvolvidos para alcançar o cérebro e transportar material genético às células nervosas.

O tratamento experimental tinha como objetivo combater uma doença genética rara que provocava atraso no desenvolvimento cognitivo da criança. Segundo os pais, a menina teria apresentado uma reação imunológica após o procedimento e morreu aproximadamente uma semana depois.

Pesquisador é alvo de investigação

O principal pesquisador envolvido no estudo é o neurocientista Zilong Qiu, da Universidade Jiao Tong de Xangai. Ele publicou um trabalho na revista científica Nature relacionado à terapia genética utilizada em pesquisas com animais, mas, segundo a apuração da Science e do Retraction Watch, não informou no estudo a morte da criança.

Até o momento, Qiu não havia se manifestado publicamente sobre as denúncias.

Após a publicação da investigação, a Escola de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai informou que criou um grupo de trabalho para realizar uma investigação sobre o caso.

A instituição declarou ainda que se opõe à realização de pesquisas médicas que violem princípios de ética científica e afirmou que medidas serão adotadas de acordo com as conclusões da apuração.

Especialistas apontaram possíveis problemas

Um grupo formado por sete especialistas das áreas de genética, virologia e bioética analisou o estudo relacionado à pesquisa publicada na Nature.

Segundo a apuração citada no material, os especialistas demonstraram preocupação com a forma como os riscos do tratamento experimental teriam sido apresentados aos pais da menina. Também foram levantados questionamentos sobre sinais identificados em pesquisas anteriores com animais e sobre a continuidade do tratamento diante da possibilidade considerada baixa de sucesso.

Os pais da criança teriam financiado o experimento com mais de US$ 800 mil, segundo a Science. Documentos oficiais e relatos apresentados pela família também indicariam que o hospital permitiu a realização do tratamento com base em uma disposição regulatória que, segundo a apuração, não exigiria aprovação dos órgãos reguladores nacionais.

Após a morte da menina, o hospital teria recebido uma multa de uma autoridade de saúde local, ainda de acordo com a investigação. O pesquisador, por sua vez, não teria sofrido uma sanção pública relacionada ao caso até o momento.

Como funciona a terapia genética?

A terapia genética utiliza técnicas destinadas a modificar o material genético de células para tratar determinadas doenças. Dependendo da estratégia utilizada, o procedimento pode buscar adicionar, remover ou alterar informações presentes no DNA.

Uma das tecnologias mais conhecidas nessa área é o CRISPR-Cas9, frequentemente descrito como uma espécie de “tesoura molecular” por permitir alterações direcionadas no material genético. A tecnologia foi reconhecida com o Prêmio Nobel de Química de 2020.

No caso investigado na China, a proposta era utilizar uma terapia para alterar células nervosas e permitir que o organismo da menina produzisse uma proteína considerada essencial para combater os efeitos da doença genética.

Caso reacende debate sobre ética na edição genética

A morte da criança ocorre em um contexto de expansão das pesquisas chinesas em biotecnologia e edição genética e reacende discussões sobre os limites éticos e regulatórios desses experimentos.

O caso também remete ao escândalo envolvendo o biofísico He Jiankui, que anunciou, em 2018, o nascimento de bebês geneticamente modificados após intervenções em embriões humanos. O pesquisador foi posteriormente condenado a três anos de prisão por práticas consideradas ilegais relacionadas ao experimento.

A experiência de He Jiankui envolveu a edição genética de embriões e provocou forte reação da comunidade científica internacional por envolver alterações que poderiam ser transmitidas às gerações seguintes.

O episódio envolvendo a menina de seis anos, porém, é diferente por se tratar de uma terapia genética experimental aplicada a uma criança já nascida, com objetivo terapêutico.

A investigação conduzida pela Universidade Jiao Tong de Xangai deverá esclarecer as circunstâncias do tratamento, as informações fornecidas à família, os procedimentos adotados pelos responsáveis e as condições relacionadas à morte da criança.

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