Por que estamos esquecendo mais? Neurologista aponta um hábito comum como vilão

Uso intenso do celular, excesso de estímulos e falta de foco podem explicar as falhas de memória cada vez mais comuns

Yasmim Pessoa
Yasmim Pessoa
Jornalista formada há quase 10 anos pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com trajetória em jornalismo político, hard news e mídias digitais, integra atualmente a equipe do portal TH+ João Pessoa. Curiosa e atenta aos movimentos do cotidiano, encontra no universo latino uma de suas principais inspirações. Acredita na rebeldia da comunicação como força para contar histórias, informar com responsabilidade e dar visibilidade a diferentes vozes.
Foto ilustrativa: Magnific

Quem nunca esqueceu onde deixou as chaves, o celular ou até mesmo um compromisso importante? Situações como essas têm se tornado cada vez mais comuns na rotina de muitas pessoas, inclusive entre jovens e adultos. Mas esses episódios fazem parte apenas da correria do dia a dia ou podem indicar algum problema de saúde?

Segundo especialistas, nem todo esquecimento está relacionado a doenças como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou o Alzheimer. Fatores como o uso frequente do celular também podem interferir na capacidade de concentração e na formação da memória.

O neurologista Rafael Gonçalves afirma que tem recebido cada vez mais pacientes preocupados com falhas de memória e que chegam ao consultório tentando associar os sintomas a diagnósticos mais graves. No entanto, ele explica que existem diversas causas possíveis para esses episódios, incluindo a forma como a tecnologia é utilizada no cotidiano.

De acordo com o médico, a constante alternância de atenção provocada pelo celular pode dificultar a assimilação das informações pelo cérebro. “O celular é um dispositivo que ajuda muito no dia a dia, só que traz notificações frequentes. A gente vai estar sempre alternando a atenção entre o celular, entre as notificações, as demandas do dia a dia, seja trabalho ou uma conversa com algum amigo, colega. Essa alternância de atenção constante faz com que o nosso foco caia, e a informação mais dificilmente vai se transformar em memória. Então, isso prejudica de forma significativa a memória no dia a dia”, declarou o médico.

O especialista destaca que alguns hábitos que eram comuns antes da popularização dos smartphones deixaram de ser praticados e podem fazer falta para o exercício da memória. Um exemplo é o ato de decorar números de telefone, algo que muitas pessoas faziam antes de armazenar todos os contatos no aparelho celular. Ele pontua que retomar essas práticas que estimulem o cérebro pode ser uma forma de exercitar a memória.

“Simples atos, como decorar, memorizar o número do telefone de pessoas próximas ou o número de algum documento, tudo isso aí. Se a gente tem facilmente no celular para consultar de uma forma muito simples tudo, deixamos de exercitar e essas pequenas práticas do dia a dia vão realmente fazer uma diferença a curto, médio e longo prazo para a nossa memória”, disse.

Exercícios como caça-palavras, palavras cruzadas e jogos de celular podem ajudar a estimular o cérebro, mas, conforme Rafael, a prática precisa ser variada. Isso porque, com a repetição constante, o cérebro se adapta à atividade e deixa de ser desafiado. Por isso, a recomendação é buscar diferentes formas de estímulo cognitivo.

“Se você faz hoje uma caça-palavras e faz amanhã, e faz diariamente, vai chegar um momento que aquilo não vai ser mais um desafio para o nosso cérebro. Então, isso não está sendo benéfico, claro. Se for feito de forma como lazer, tudo bem. Se a pessoa gosta de fazer, não tem problema. Desde que ele faça também outros estímulos variados e cada vez novos, como, por exemplo, aprender um idioma novo, aprender um instrumento musical, fazer um curso que seja online, tanto faz. Então, algo que estimule realmente o raciocínio”, pontuou.

Outro fator que pode gerar preocupação em pessoas com esquecimentos frequentes é a doença de Alzheimer, principalmente quando há histórico familiar. No entanto, segundo o neurologista, apesar de ser uma doença neurodegenerativa, o fator hereditário não é determinante na maioria dos casos. Gonçalves pondera que hábitos saudáveis, como prática de atividade física e uma alimentação equilibrada, podem contribuir para a saúde cerebral e reduzir fatores de risco relacionados ao surgimento de doenças neurodegenerativas.

“O que é mais significativo são o controle de fatores de risco cardiovasculares, a prática de atividade física regular, uma alimentação saudável, não fumar, controlar o colesterol, triglicerídeo e pressão arterial. Esses fatores que eu citei aqui são infinitamente mais significativos e determinantes na prevenção do Alzheimer do que ter um parente com Alzheimer”, explicou.

O médico também alerta para a necessidade de uma boa noite de sono para o fortalecimento da memória. “É durante o sono que o nosso cérebro elimina algumas toxinas que são prejudiciais. E é durante o sono que a gente consolida a memória. É imprescindível que a gente tenha uma noite de sono de seis a oito horas, um sono de qualidade para a gente ter uma memória mais otimizada”, acrescentou.

Rafael Gonçalves também ressaltou algumas medidas que podem ajudar a preservar a memória diante de uma rotina intensa. Entre as recomendações estão reduzir as notificações do celular, praticar atividades físicas regularmente, com a meta de pelo menos 150 minutos por semana, e manter uma alimentação saudável, evitando hábitos como consumo excessivo de álcool e tabagismo. De acordo com o especialista, esses cuidados contribuem para a saúde cerebral e a prevenção de problemas de memória.

“O celular pode ajudar muito, mas cuidado com as notificações para não estar desviando a sua atenção o tempo todo. Hoje, a gente consegue filtrar o que é que vai ser notificado e o que é que não vai ser notificado. Então, cuidado com as distrações. É importantíssimo a atividade física. Falamos todos os dias para todos os pacientes e, às vezes, as pessoas não levam tão a sério essa importância. Fazer pelo menos 150 minutos de atividade física aeróbica por semana e a alimentação. Hábitos errados, como alcoolismo, tabagismo, deve-se cessar tudo isso e cuidar dos fatores de risco cardiovasculares, como, por exemplo, pressão alta, triglicerídeos, colesterol. Esses hábitos vão fazer diferença na memória”, finalizou o neurologista.

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