Quem nunca esqueceu onde deixou as chaves, o celular ou até mesmo um compromisso importante? Situações como essas têm se tornado cada vez mais comuns na rotina de muitas pessoas, inclusive entre jovens e adultos. Mas esses episódios fazem parte apenas da correria do dia a dia ou podem indicar algum problema de saúde?
Segundo especialistas, nem todo esquecimento está relacionado a doenças como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou o Alzheimer. Fatores como o uso frequente do celular também podem interferir na capacidade de concentração e na formação da memória.
O neurologista Rafael Gonçalves afirma que tem recebido cada vez mais pacientes preocupados com falhas de memória e que chegam ao consultório tentando associar os sintomas a diagnósticos mais graves. No entanto, ele explica que existem diversas causas possíveis para esses episódios, incluindo a forma como a tecnologia é utilizada no cotidiano.
De acordo com o médico, a constante alternância de atenção provocada pelo celular pode dificultar a assimilação das informações pelo cérebro. “O celular é um dispositivo que ajuda muito no dia a dia, só que traz notificações frequentes. A gente vai estar sempre alternando a atenção entre o celular, entre as notificações, as demandas do dia a dia, seja trabalho ou uma conversa com algum amigo, colega. Essa alternância de atenção constante faz com que o nosso foco caia, e a informação mais dificilmente vai se transformar em memória. Então, isso prejudica de forma significativa a memória no dia a dia”, declarou o médico.
O especialista destaca que alguns hábitos que eram comuns antes da popularização dos smartphones deixaram de ser praticados e podem fazer falta para o exercício da memória. Um exemplo é o ato de decorar números de telefone, algo que muitas pessoas faziam antes de armazenar todos os contatos no aparelho celular. Ele pontua que retomar essas práticas que estimulem o cérebro pode ser uma forma de exercitar a memória.
“Simples atos, como decorar, memorizar o número do telefone de pessoas próximas ou o número de algum documento, tudo isso aí. Se a gente tem facilmente no celular para consultar de uma forma muito simples tudo, deixamos de exercitar e essas pequenas práticas do dia a dia vão realmente fazer uma diferença a curto, médio e longo prazo para a nossa memória”, disse.
Exercícios como caça-palavras, palavras cruzadas e jogos de celular podem ajudar a estimular o cérebro, mas, conforme Rafael, a prática precisa ser variada. Isso porque, com a repetição constante, o cérebro se adapta à atividade e deixa de ser desafiado. Por isso, a recomendação é buscar diferentes formas de estímulo cognitivo.
“Se você faz hoje uma caça-palavras e faz amanhã, e faz diariamente, vai chegar um momento que aquilo não vai ser mais um desafio para o nosso cérebro. Então, isso não está sendo benéfico, claro. Se for feito de forma como lazer, tudo bem. Se a pessoa gosta de fazer, não tem problema. Desde que ele faça também outros estímulos variados e cada vez novos, como, por exemplo, aprender um idioma novo, aprender um instrumento musical, fazer um curso que seja online, tanto faz. Então, algo que estimule realmente o raciocínio”, pontuou.
Outro fator que pode gerar preocupação em pessoas com esquecimentos frequentes é a doença de Alzheimer, principalmente quando há histórico familiar. No entanto, segundo o neurologista, apesar de ser uma doença neurodegenerativa, o fator hereditário não é determinante na maioria dos casos. Gonçalves pondera que hábitos saudáveis, como prática de atividade física e uma alimentação equilibrada, podem contribuir para a saúde cerebral e reduzir fatores de risco relacionados ao surgimento de doenças neurodegenerativas.
“O que é mais significativo são o controle de fatores de risco cardiovasculares, a prática de atividade física regular, uma alimentação saudável, não fumar, controlar o colesterol, triglicerídeo e pressão arterial. Esses fatores que eu citei aqui são infinitamente mais significativos e determinantes na prevenção do Alzheimer do que ter um parente com Alzheimer”, explicou.
O médico também alerta para a necessidade de uma boa noite de sono para o fortalecimento da memória. “É durante o sono que o nosso cérebro elimina algumas toxinas que são prejudiciais. E é durante o sono que a gente consolida a memória. É imprescindível que a gente tenha uma noite de sono de seis a oito horas, um sono de qualidade para a gente ter uma memória mais otimizada”, acrescentou.
Rafael Gonçalves também ressaltou algumas medidas que podem ajudar a preservar a memória diante de uma rotina intensa. Entre as recomendações estão reduzir as notificações do celular, praticar atividades físicas regularmente, com a meta de pelo menos 150 minutos por semana, e manter uma alimentação saudável, evitando hábitos como consumo excessivo de álcool e tabagismo. De acordo com o especialista, esses cuidados contribuem para a saúde cerebral e a prevenção de problemas de memória.
“O celular pode ajudar muito, mas cuidado com as notificações para não estar desviando a sua atenção o tempo todo. Hoje, a gente consegue filtrar o que é que vai ser notificado e o que é que não vai ser notificado. Então, cuidado com as distrações. É importantíssimo a atividade física. Falamos todos os dias para todos os pacientes e, às vezes, as pessoas não levam tão a sério essa importância. Fazer pelo menos 150 minutos de atividade física aeróbica por semana e a alimentação. Hábitos errados, como alcoolismo, tabagismo, deve-se cessar tudo isso e cuidar dos fatores de risco cardiovasculares, como, por exemplo, pressão alta, triglicerídeos, colesterol. Esses hábitos vão fazer diferença na memória”, finalizou o neurologista.
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