Uma declaração do ex-ministro Marcelo Queiroga, presidente estadual do PL e pré-candidato a senador, ao programa de rádio Hora H, sexta-feira da última semana, para explicar a demora na escolha do segundo candidato ao Senado de seu esquema político, acabou obtendo repercussão mais intensa do que outros fatos políticos nos dias que se seguiram. Gerou bem mais repercussão. Fez por onde.
Reproduza-se a frase para melhor compreensão: “Nós não precisamos dessa ansiedade. Nós não temos perfil para ejaculação precoce, aquele que fica apressadinho, goza na cueca e depois passa a noite assistindo televisão (…)”.
No momento seguinte, a declaração é complementada no mesmo tom de cunho sexual: “O bolsonarismo tem preliminares, o bolsonarismo tem o vamos ver e o pós”.
A polêmica estabelecida escorregou para o viés moralista. Parece ter causado certo escândalo o uso de termos próprios de relações sexuais como metáfora de articulações políticas. Só que não é disso que se trata. A questão é muito mais séria e precisa ser compreendida mais amplamente.
O ex-ministro Marcelo Queiroga, embora não seja tão antigo na militância política, incorreu na velha prática do sexismo como forma de afirmação de força ou de poder.
Todas as denominações da política (direita, esquerda, centro) costumam recorrer à imagens sexistas em algum momento de disputa política. Além de sempre repetirem, em discursos, que são “machos”, “corajosos”, infensos ao “medo”, etc., quase sempre dão um jeito de passarem a ideia que são sexualmente fogosos e imbatíveis. Vide o “imbrochável” do ex-presidente Jair Bolsonaro ou o “tenho aquilo roxo” do ex-presidente Fernando Color de Melo.
Mais para trás na história, os políticos faziam questão de disporem de amantes e que a sociedade tivesse conhecimento de tudo. Era sinal de poderio político-econômico. Numa fase mais moderna, os políticos passaram a casar ou namorar com mulheres bonitas e muito mais jovens do que eles como forma de exibir poder. Os exemplos abundam em todos os recantos e esferas de poder, mas os casos do ex-presidente Michel Temer e do presidente Lula são muito ilustrativos do modelo de dominação política em tela. Explique-se que o casamento é uma coisa, mas que o exibicionismo e jactância permanente da suposta potência viram sexismo explícito.
Ocorre que o sexismo na politica expressa uma forma antiga, ultrapassada, discriminatória, preconceituosa e profundamente autoritária de exercício do poder.
No geral, é usado para tentar desqualificar e diminuir adversários.
O político branco e rico quase sempre se declara mais “macho do que os demais”, especialmente, os adversários, que são depreciados como frouxos e sexualmente impotentes para todos atos da vida. Essa depreciação com base na comparação de virilidade tem explicação no estudo dos signos linguísticos, tem força para atrair homens e mulheres de pouca consciência política e que, geralmente, se deixam levar por condutores de rebanho.
Mas o sexismo se revela ainda mais grave quando visto pela ótica de gênero. Transmite e tenta perpetuar a crença de que homens são superiores e mais capazes para o exercício da liderança do que as mulheres e pessoas homoafetivas ou não-binárias. Se manifesta através do assédio, ameaças, inferiorização, difamação, manipulação e, nos casos específicos de disputas eleitorais, na desigualdade de recursos e oportunidades.
O sexismo na política é pura representação do machismo mais escroto e do conservadorismo mais cego e, no mais das vezes, configura violência política de gênero. É prática cometida abundantemente na forma de piadas e entre sorrisos, mas totalmente inaceitável em todas as formas e que precisa ser combatida como qualquer outra manifestação de violência humana.



