Parece-nos que o Brasil volta, nos últimos meses, a tomar consciência de sua vocação para o pessimismo político, cultural e social. Diante das recentes notícias sobre aumento de preço dos combustíveis, sobre os novos escândalos em Brasília e sobre os efeitos dos conflitos internacionais, o entusiasmo do brasileiro com o futuro do país já dá sinais de exaustão.
Essa tendência pode ser observada no volume de conterrâneos que deixaram o país até o começo desse ano, no recorde de empresas que iniciaram processos de recuperação judicial ou nas estatísticas e índices de confiança da população em seus representantes e em suas instituições. Para além disso, ainda essa semana, nos chamou atenção a notícia sobre a possibilidade de paralisação de caminhoneiros por todo o país devido às dificuldades de abastecimento.
Em diferentes esferas e núcleos da sociedade, é notório, portanto, que o clássico otimismo nacional – aquele do “somos brasileiros e não desistimos nunca” ou “o Brasil é pais do futuro” – saiu mais uma vez de moda, dando lugar ao temor de que, talvez, não seja agora que daremos certo. Ainda que os motivos se alterem e as circunstâncias sejam outras, esse sentimento em maior ou menor grau é para nós, já há algum tempo, familiar.
Como amostra, é possível pinçar as análises de Nelson Rodrigues, jornalista e célebre frasista pernambucano, que em várias oportunidades associaram o pessimismo nacional à “síndrome de vira-lata” do brasileiro. Um mês antes da copa do mundo de 1958, por exemplo, o escritor descreveu que era típico do Brasil vacilar entre “o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética”.
Mas a história de nossa frustação com a nação pode ir além. No século 17, a queda da produção cafeeira e a propagação da pobreza pela Bahia gerou o sentimento chamado de “mal do Estado brasílico”, como se a nação sofresse de uma doença que a impossibilitava de prosperar. Algumas décadas depois, no século 19, o sentimento se repete. Dessa vez, os males do país em processo de republicanização estavam na psicologia e na saúde do brasileiro.
Ao longo do século 20 os intervalos diminuem. Na década de 30, era comum considerar que o Brasil fora maculado pela colonização e isso o cobriu com um “véu de tristeza” que nos levou a uma crise moral. Também entre os anos 70 e 80, o ceticismo passa a fazer parte do cotidiano político, cultural e social do país. Ali, o imaginário de prosperidade criado pelo governo militar de Emílio Médici começa a se desfazer e mais uma vez se inicia um período de pessimismo impulsionado pelo fim do “milagre econômico’.
Essa vocação histórica, apesar do não ser injustificada – afinal, de fato há motivos para a dúvida e para a desconfiança –, evidência, pois, a nossa falta de unidade cívica e de um propósito como Estado. Ao longo da história, todas as vezes que a descrença e o ceticismo acometeram o brasileiro, a pergunta principal foi: que tipo de nação desejamos? Assim, a cada crise, nos é dada a possibilidade de refletirmos sobre os elos que possuímos como cidadãos e sobre os tipos de instituições desejamos.
As respostas, até agora, já circundaram as áreas literárias, republicanas, modernistas e econômicas, mas não parecem ter poupado o brasileiro da frustração com sua pátria. O cidadão, por fim, fica no aguardo de um motivo para ter otimismo outra vez e sentir que suas expectativas poderão, no futuro, ser atendidas.
**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação



