Ao longo do último mês, uma parte da internet e do meio empresarial acompanhou a contratação do influenciador Tiago Lima (Toguro) como “Head de Comunicação” da empresa farmacêutica nacional Cimed. De acordo com o presidente, João Adibe, Toguro, criador do canal “Mansão Maromba” e formado em educação física, seria a peça-chave na estratégia de marketing da empresa, criando um vínculo com o público por meio de narrativas reais.
Porém, a nomeação para o cargo não passou sem as queixas de alguns profissionais que publicizaram a frustração com a notícia. Entre diversas críticas levantadas nas redes, chamaram à atenção aquelas que apontavam que a indicação seria um ganho imerecido, isto é, como alguém sem um diploma ou carreira na área poderia passar à frente de quem teria se dedicado academicamente?
O descontentamento com a contratação do influenciador evidencia a crescente descrença do mercado em relação ao sistema educacional. Estatisticamente percebe-se que, entre 2023 e 2024 em instituições públicas, houve uma queda de 0,4% de novas matrículas; ainda que, impulsionadas pelos cursos de EAD, as instituições privadas registraram um aumento de 3,2% de ingressantes no ensino superior.
Contudo, apesar das diferenças, em ambos os casos, observa-se um crescimento acentuado do índice de desistências. De acordo com o Mapa do Ensino Superior (SAMESP), a taxa acumulada de evasão atingiu o patamar de 57,2% em 2023.O motivo para esse fenômeno que já foi apontado há mais de uma década e é multifatorial, indo desde a incerteza com o sistema público até a crise do Fies em 2015. Contudo, observando uma duração mais longa, é possível apontar dois principais fatores dificilmente observados por analistas e gestores.
O primeiro é sobre a quebra de expectativa com a educação superior. Assim como realçado pelo caso, um aluno que ingressa em uma Instituição de Ensino Superior (IES) espera atingir três objetivos: ganho financeiro, ascensão social e formação cultural. Para que se mantenha no ensino, seria necessário que no decorrer de sua formação o aluno já começasse a conquistar algum desses objetivos. Mas, a situação que encontra no interior das IES tem rapidamente a se apresentado de forma muito diferente da realidade que enfrenta fora, causando frustração e, consequentemente, evasão.
Outro fator, este mais antigo e geral que o primeiro, aponta para o desgaste da imagem do especialista. Há alguns séculos, o especialista, produto principal das universidades, tornou-se aquele que é fechado em uma técnica singular. Como indica José Ortega y Garcez, em “A rebelião das Massas”, ainda que sua constituição tenha ajudado no progresso científico entre os séculos 18 e 19, esse personagem social, símbolo daquele que é formado com métodos experimentáveis, passou a ficar cada vez mais restrito a uma determinada técnica, de forma que foi progressivamente perdendo contato com outras partes do conhecimento.
Ao chegar nos dias de hoje, o especialista é aquele que conhece pouco e ignora muito. Saído das universidades e diante do mercado, esse homem de ciência revela-se prepotente sobre aquilo que não sabe e, naquilo que sabe, é superado por quem aprendeu com a experiência.
Ambos os aspectos explicam o incômodo gerado pela contratação do Toguro. O especialista, frustrado por não ter atingido suas expectativas pessoais durante o ensino superior, descobre que seu campo de saber é tão circunscrito a ponto de alguém sem formação científica ser capaz de fazer algo semelhante através da experimentação.
Por não ser um evento exclusivo de uma área, ao longo do tempo, os efeitos de descrença com o ensino tendem a se tornar mais visíveis e os erros que nos trouxeram até aqui cada vez mais permanentes.
**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação



