Na última quarta-feira (29), o grupo coreano BTS, anunciou em postagem pelo instagram a decisão de não submeter o último álbum Arirang ao Grammy, transformando a premiação em debate sobre representatividade. No story publicado na conta pessoal dos membros, eles declararam: “Esperamos que a música possa ser ouvida e amada por si só, sem ser dividida por região ou idioma”. A decisão veio após a academia criar a categoria Melhor Performance de Pop Asiático para a edição de 2027. Segundo o grupo, a medida acaba separando artistas asiáticos em vez de colocá-los em igualdade de condições nas principais categorias da premiação.
Diante da repercussão, o CEO do Grammy, Harvey Mason, defendeu que a medida visava apenas “celebrar a profundidade e a diversidade da música produzida na Ásia”, alegando que a intenção jamais fora a divisão. No entanto, fãs e a mídia saíram em defesa da atitude tomada pelo grupo e exaltaram a coragem de enfrentar a premiação que apresenta um histórico de segregação em tentativas falhas de isolar estilos diferentes em categorias periféricas para proteger os interesses da música mainstream.
Há anos, artistas latinos, africanos e asiáticos têm suas músicas frequentemente separadas das categorias principais, independentemente do impacto global que alcançam e para uma premiação do tamanho do Grammy, a pergunta que fica é: essas categorias ampliam possibilidades e visibilidade ou criam barreiras na música. Ninguém criou uma categoria de melhor “Pop Europeu” para artistas como Dua Lipa ou Ed Sheeran, e a ausência de categorias equivalente para a música regional de regiões majoritariamente brancas é o indicativo de que esses campos, por mais bem intencionados, não são aplicados de maneira igualitária ao redor do mundo.
A atitude do grupo ressoa de forma profunda para além das fronteiras da Ásia, alcançando com força a soberania da cultura latina. Essa decisão é um lembrete libertador de que não precisamos do carimbo de aprovação dos Estados Unidos para atestar o valor, a riqueza e a excelência da nossa arte. Historicamente acostumados a buscar a validação do Norte global, artistas asiáticos, latinos e africanos passam a afirmar que o público, a identidade e a história do seu povo não dependem da chancela de um júri ocidental. A verdadeira boa notícia é que a hegemonia da aprovação americana ruiu: a qualidade da nossa cultura é soberana por si só, e o topo do mundo já não fala apenas inglês.


