Crime organizado: do domínio de territórios à criminalidade empresarial

Bruno Paes Manso e Sérgio Adorno analisam a evolução do crime organizado no Brasil, simbolizado na atuação de facções como o Comando Vermelho e o PCC, e apontam desafios e soluções para combatê-lo

O PCC floresceu dentro dos presídios a partir do momento em que cresceu exponencialmente o número de presidiários no sistema carcerário brasileiro | Foto: Luiz Silveira/Agência CNJ via Flickr

Há cerca de quatro décadas, siglas como CV e PCC nada significavam para a maioria das pessoas, que nem de longe poderiam imaginar a ameaça social que tais “sopas de letrinhas” se tornariam num futuro bem próximo. A primeira facção a aparecer no mundo do crime organizado no Brasil foi o Comando Vermelho (CV), que nasceu em 1979, no antigo presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Não tardou, porém, a tornar-se conhecida, o que se deu sobretudo quando passou a dominar o tráfico de drogas nos morros e favelas e a atrair a atenção da imprensa carioca, que passou a usar a sigla para identificar a facção.

Já o PCC (Primeiro Comando da Capital) surgiu um pouco mais tarde, em 1993, na Casa de Custódia de Taubaté, no interior de São Paulo, mas só saltou para a notoriedade no início dos anos 2000, a partir das grandes rebeliões simultâneas que patrocinou em mais de 20 presídios paulistas em fevereiro de 2001, numa ação que envolveu cerca de 27 mil detentos e resultou em 16 mortos e dezenas de feridos. Cinco anos depois, em maio de 2006, ataques violentos ordenados pela facção demonstraram seu poder de articulação de dentro dos presídios e aterrorizaram, talvez como nunca antes, a população paulistana. Em todo o Estado, num período de 10 dias, 564 pessoas morreram e 110 ficaram feridas.

Bruno Paes Manso, jornalista, economista e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), conta que tanto o Comando Vermelho quanto o Primeiro Comando da Capital eram, em seu início, muito centrados no varejo da droga, cenário que começou a mudar a partir dos anos 2000, quando das mudanças ocorridas nas políticas públicas, que passaram a favorecer a Polícia Militar e o patrulhamento extensivo. Prisões em flagrante aumentaram, e muito, o número de detentos nos presídios, a ponto de ter passado de 90 mil presos no País, no começo dos anos 90, para mais de 900 mil presos hoje. Diante desse quadro, “as prisões se tornaram lugares de gestão do crime organizado, principalmente a partir da popularização dos celulares e a possibilidade do lado de dentro se comunicar com o lado de fora e pessoas de dentro das prisões se comunicarem entre si”, revela o pesquisador. “Isso fez com que as facções se estabelecessem, se fortalecessem e passassem inclusive a optar pelo mercado atacadista de drogas e chegar nas fronteiras e replicar esse modelo de facções, com bases prisionais pelo Brasil inteiro”.

Tão logo as facções perceberam que o controle dos presídios significava o controle do crime nas ruas, o PCC rapidamente se expandiu para o interior de São Paulo e outros estados por meio do domínio de rotas estratégicas de drogas. Essa migração das grandes capitais para cidades médias (entre 100 mil e 500 mil habitantes) reconfigurou o mapa da violência no País. O Atlas da Violência 2026, organizado em parceria pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), associa a atuação de grandes facções criminosas às dinâmicas regionais e territoriais de homicídios no Brasil.

Como essas instituições compilam e analisam dados públicos, como os do Ministério da Saúde e das polícias, com a intenção de produzir diagnósticos anuais sobre a criminalidade e a violência no Brasil,  estão aptas a constatar que a expansão dessas organizações é o principal motivo para que estados das regiões Norte e Nordeste tenham registrados, como nunca antes, altos números de violência, decorrentes de disputas territoriais violentas entre facções locais e nacionais pelo controle de rotas de escoamento de drogas e do mercado varejista de entorpecentes. Os dez municípios mais violentos do País, segundo o Fórum Popular de Segurança Pública no Nordeste (FPSNE), estão no Nordeste, distribuídos entre Bahia, Ceará e Pernambuco. Além disso, pesquisas do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, apontam que, desde 2020, a região Nordeste tem liderado o ranking de assassinatos no País.

Criminalidade empresarial

Um debate bastante atual, que tem mobilizado governo e oposição no Brasil, é se facções criminosas como CV e PCC podem ser consideradas organizações terroristas pela sua capacidade de infiltração em outros países. A tendência geral dessas organizações criminosas que exploram lucrativos bens ilícitos é a acumulação de capital, de acordo com o sociólogo Sérgio Adorno, professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH/USP), além de coordenador científico do NEV/USP. Ele explica que tem sido assim em todas as grandes organizações, nos Estados Unidos, nas décadas de 1920 a 1970, nas máfias italianas, nos cartéis colombianos e mexicanos, nas organizações do sul da Europa e na Ásia. “Para expansão dos negócios, torna-se imperativo controlar territórios, o que requer manter grupos armados para defesa e sustentar redes de corrupção, sobretudo policiais, de forma a exercer controle sobre a circulação e venda de mercadorias ilegais, evitando a interrupção de fluxos”, diz ele. “Em espaço de poucas décadas, o capital acumulado é destinado a investimentos em diversificados negócios, muitos dos quais legais, o que, por sua vez, flexibiliza as fronteiras entre o legal e o ilegal”.

Em todo o mundo, como a ficção cinematográfica e a literária já estamparam em inúmeros filmes e livros, o capital acumulado financia prostituição, jogos proibidos, lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e medicamentos, contrabandos variados como vinhos e joias, crimes digitais, além de atividades de apoio como centrais de controle de comunicações digitais. “Ao mesmo tempo, vultuosos investimentos são destinados ao mercado imobiliário, casas de câmbio, mercado de autopeças e inclusive investimentos em mercado financeiro, como se viu recentemente. Trata-se de mudanças que vêm a reboque das mudanças mais amplas na globalização do capitalismo, inclusive com a flexibilização dos controles alfandegários e de fronteiras. Isso significa o surgimento da chamada criminalidade empresarial, que requer, por sua vez, governança de mercados, populações, territórios, mercadorias e fluxos monetários”, sentencia Adorno.

Daí pode-se chegar à conclusão de que o crime, antes confinado ao submundo, subiu para a superfície. No passado, anos 60 e 70, a criminalidade urbana estava restrita aos roubos – roubo de rua e de carro -, sempre com o uso da violência. Bruno Paes Manso comenta que os criminosos que atuavam, e atuam, nesse negócio sofrem riscos muito grandes. “Tudo mudou com o mercado de drogas, que permite um outro tipo de relação, um outro tipo de estratégia e exige racionalidade, exige lavagem de dinheiro, talvez o esquema ilegal mais longevo e mais parecido com o tráfico de drogas seja o mercado de escravizados depois da proibição que criou empresas que traficavam pessoas vindas da África para o Brasil na ilegalidade e que tinham a mesma racionalidade e a mesma estratégia, só que com uma influência e uma tolerância da elite da época maior, e das próprias autoridades, mas exige esse tipo de estratégia, esse tipo de visão de driblar a ilegalidade, a criminalidade, conseguir criar uma legitimidade na economia e na política”, diz.

Pesquisas e levantamentos apontam que uma parcela expressiva da população brasileira sofre influência direta ou vive sob algum tipo de governança criminal, um fenômeno que é mais forte nas periferias, o que não chega a surpreender. Em suas fases iniciais, a tendência é de que as organizações criminosas se instalem em bairros com grande concentração de baixa renda, desprovidos de direitos e de proteção por parte do Estado e dos governos. Para Sérgio Adorno, nessas regiões prosperam comércios ilegais, sobretudo de drogas como a cocaína, um mercado muito lucrativo e que depende da existência e controle privado sobre territórios que deveriam estar sob monopólio do poder estatal. “Nessas extensas áreas, a carência de serviços públicos é flagrante, em especial serviços urbanos como infraestrutura, mobilidade, locomoção, iluminação e rede de esgoto, assim como inexistem promoção e proteção social, como policiamento, educação, saúde e lazer”, constata ele. “Não raro, parte de serviços é assegurada pelo domínio do crime organizado local, seja para evitar atrair policiais nesses locais, seja para evitar conflitos entre moradores que possam perturbar o fluxo de atividades e até mesmo como uma espécie de compensação de alguns ex-moradores que se envolveram com o crime e se enriqueceram”.
Em suas pesquisas, Bruno Paes Manso constatou que, no Rio de Janeiro, as facções vendem luz, “gato net”, grilagem de terra, “uma série de crimes a partir do controle do gato net, uma série de crimes a partir de controles territoriais armados, isso começou a se espalhar pelo Brasil, e o Comando Vermelho de alguma maneira acaba exportando essa tecnologia, então isso acaba tendo um peso maior no cotidiano das cidades. O PCC também exerce esse controle de uma forma mais sutil, aqui em São Paulo o papel do controle do território não é tão estratégico, mas existe um esforço para evitar que a polícia esteja sempre presente – a ideia dos tribunais dos crimes, que a imprensa chama, é uma dessas estratégias -, mas eles atuam principalmente em alguns pontos logísticos de portos, aeroportos, estradas, fronteiras, para produzir e construir um corredor de drogas para a exportação de cocaína da América do Sul – da Colômbia, principalmente Bolívia – para outros países do mundo”.

Panorama atual

O Primeiro Comando da Capital  e o Comando Vermelho são hoje as maiores organizações criminosas brasileiras e ambas estenderam seus tentáculos para além do seu domínio nas comunidades, estando presentes em quase todas as unidades da federação, além de suas conexões no exterior. O impacto de suas ações tornou-se uma pauta de segurança global, a ponto de serem classificados pelo governo dos Estados Unidos como organizações terroristas globais. Uma questão que se coloca é : ainda é possível combater esse avanço da criminalidade ou já é muito tarde para isso, só nos restando conviver com o problema?.

Para Bruno Paes Manso, o principal desafio para o controle desses grupos e para a atuação das instituições está na transformação econômica (crises de emprego e tecnologias novas, por exemplo). “Num mundo sem oportunidade, sem emprego, as facções oferecem uma fonte de renda, uma commodity importante: a cocaína, que só tem na América do Sul, e que é um trabalho muito lucrativo e que gera muita possibilidade, inclusive de investimento de capital em outras atividades criminosas, porque é um produto muito demandado em outros países e que é muito lucrativo por ser ilegal”, avalia ele. “Como o dinheiro tem um peso, tanto na política como na economia e no mercado financeiro, as instituições, de alguma forma, se perdem no controle desses grupos, que passam a, inclusive, descobrir formas mais sofisticadas de lavagem, de colocar esse dinheiro na economia formal e de influir, econômica e politicamente. Então, esse é o maior desafio hoje”, conclui.

Na opinião de Sérgio Adorno, trata-se de uma questão a ensejar muito debate público. Nos últimos 40 anos, foram criados no Brasil grupos de pesquisa nas universidades e nos institutos privados, os quais contribuíram para melhorar a qualidade das informações oficiais e para acumular conhecimento voltado para a compreensão dos problemas de segurança pública. “Há inúmeras propostas no sentido de melhorar as condições de trabalho das agências e dos agentes policiais, modernizar os instrumentos de vigilância e de investigação, evitar o envolvimento de agentes estatais nos atrativos da corrupção, diminuir as oportunidades de intervenção arbitrária com violência e desfechos fatais, emprego de IA para monitorar grupos criminosos, acompanhando suas operações e negócios de forma a interromper fluxos de atividades ilegais e sufocar o acúmulo de riquezas”, diz ele. “Certamente, há muitas outras iniciativas, que inclusive dizem respeito à aplicação das leis, ao funcionamento dos tribunais, à aplicação das penas e ao sistema penitenciário”.

Adorno cita também a importância de se formar uma rede de proteção de crianças e adolescentes, além de medidas para conter a violência contra mulheres – especialmente o feminicídio – e a vulnerabilidade de parcelas da população, como cidadãos pardos e pretos, como também moradores de rua e migrantes. “Em sociedades que lograram conter a escalada do crime, duas iniciativas foram fundamentais: políticas sociais para reforçar a integração social, a cooperação entre diferentes grupos e classes sociais quando está em causa um bem maior como a segurança pública e, simultaneamente, uma reforma das instituições de justiça para garantir a aplicação da lei e reduzir taxas de impunidade e reincidência criminal”, conclui.

**Por Jornal da USP 

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