
Um em cada 16 estudantes no Brasil já utilizou anabolizantes. O número mostra que, de 1996 até os dias atuais, houve um aumento de 39% no uso de anabolizantes entre os estudantes do nível fundamental, 67% entre os do ensino médio e 84% entre os do último ano do ensino médio. Os dados são da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).
Muitos desses jovens são adeptos do fisiculturismo, um esporte em que os atletas são avaliados pela simetria, volume e tamanho do corpo, e que tem crescido cada vez mais no País. E o uso de esteroides anabólicos têm a finalidade de melhorar o desempenho nesse esporte, segundo pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina (FM) da USP. “Não só no fisiculturismo, mas de forma geral, o culto ao corpo faz com que pessoas utilizem os anabolizantes, que são substâncias que não devem ser usadas sem supervisão médica rigorosa”, afirma o professor Hugo Tourinho Filho, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP.
A educadora física Gabriela Marques Cadeo, graduada pela EEFERP, aponta que o uso de anabolizantes sem supervisão médica rigorosa pode trazer sérios problemas para a saúde. “O aumento de acne, queda de cabelo, distúrbios da função do fígado, mudanças de comportamento e estado psíquico, aumento da pressão arterial e alterações no perfil lipídico.”
Na contramão dessa tendência, Patrick Clemente, graduado pelo Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, treina há mais de três anos para se tornar um atleta de fisiculturismo natural. Ele é um dos mais de 20 mil competidores no Brasil e garante que não usa esteroides anabólicos. “Uso apenas suplementos como whey e creatina.” Mesmo para o uso de whey e creatina, ou de qualquer outro complemento, especialistas indicam que é necessário acompanhamento médico.
O praticante do esporte ainda diz que “algumas pessoas estão dispostas a pagar o preço que o anabolizante traz, muitas vezes um desempenho superior e que te faz chegar a posições que naturalmente seria impossível chegar, mas o consumo do produto cobra o preço na saúde do atleta, podendo diminuir até mesmo a expectativa de vida.”
Prática segura
Muitas pessoas acreditam que alimentos como a carne vermelha, aveia, frutas, azeite, batata-doce, feijão e ovos podem ser usados como anabolizantes naturais, principalmente para esportes que exigem o ganho de massa muscular como o fisiculturismo. Entretanto, Tourinho diz que “não existem evidências científicas sobre a eficácia dos chamados anabolizantes naturais que são encontrados no mercado.”
Já para a educadora física, esses alimentos podem servir como estimulantes para o crescimento muscular, pois podem estimular o crescimento e reparação tecidual. “Essas vias podem ser estimuladas de maneira natural através do consumo de alimentos proteicos, realização de treinamento de força e rotina de sono adequada.”
Gabriela também diz que o treinamento de força é a base do fisiculturismo e que dedicar-se a desenvolver habilidades físicas que permitam o treinamento de alto nível é primordial. “É através do treino que acontece a sinalização para que ocorram os processos para o crescimento muscular, e a parte alimentar também tem grande relevância, mas é o treinamento com pesos que conduz à construção de músculos.”
É necessário ter resiliência e paciência para realizar a mesma atividade física todos os dias, por anos, diz a educadora física. “Se dedicar integralmente a isso, seja no treino, na alimentação ou no descanso, é a chave para o sucesso no esporte.” Tourinho acrescenta que “como em qualquer outra prática esportiva, a prática do fisiculturismo precisa ser bem orientada por um profissional responsável, que priorize a saúde do atleta e não busque melhorias a qualquer custo”.
**Texto por Jornal da USP
