O titã Atlas, do mito à metáfora industrial

Os produtores versus os burocratas em “A Revolta de Atlas”, de Ayn Rand

Foto: Reprodução Wikimedia

Após o conflito entre os primeiros deuses e os olímpicos, o titã Atlas, na “Teogonia” de Hesíodo, foi condenado por Zeus a sustentar “o amplo céu sob cruel coerção nos confins da Terra […], de pé, com a cabeça e infatigáveis braços”. Em outra história, na de Ovídeo, Atlas (ou Atlante) foi um rei do extremo Ocidente, superior em estatura a todos os outros homens. Encontrado por Perseu, que voltava da vitória contra Medusa, o titã é lembrado por virar pedra ao olhar para a face de Medusa que o herói carregava: “barbas, melenas se lhe tornam selvas; são recostos de serra as mãos, e os braços. O que já foi cabeça agora era cume, dos ossos os penedos se formaram.” Crescendo mais em altura, Atlas, nessa história, também assumiu todo o peso dos céus.

Para além das narrativas clássicas do titã, encontram-se também versões mais abrasileiradas da história. Monteiro Lobato, por exemplo, na história infanto-juvenil “Os 12 trabalhos de Hércules” (1944), apresenta um gigante que, encontrando-se com Hércules e os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, pediu-lhes ajuda para sustentar o peso.

Porém, não obstante a imagem de um Atlas divino, antropomórfico ou monstruoso, derivada da mitologia clássica, durante o século XX, foi a perspectiva metafórica do titã que ganhou mais espaço nas análises sociais e políticas. Nessa nova visão, Atlas simbolizaria aqueles que produzem, que oferecem serviços, que colaboram e empenham esforços para criar bens e produtos úteis a todos. É sobre essa imagem que Ayn Rand, escritora, roteirista e filósofa russa – naturalizada norte-americana em 1931 –, constrói o universo de seu best-seller, “A Revolta de Atlas” (1957).

Apesar de ser um romance de ficção, a obra tornou-se um ícone da filosofia libertária e do posicionamento político avesso a estatismos e burocratizações. A personagem principal da história, a empresária Dagny Taggart, é uma herdeira e vice-presidente de uma empresa ferroviária, cujo objetivo é manter o empreendimento diante de projetos de nacionalização e regulamentação estatal.

Contudo, o ponto fundamental da crise da empresa Taggart e de outras na história, não é diretamente a falta de lucratividade ou de ganhos financeiros, mas sim o desaparecimento de competentes inventores, engenheiros, mecânicos, zeladores, vigilantes, gestores, diretores que faziam a empresa acontecer. Isto é, o desaparecimento de mentes. Diante do avanço da centralização burocrática, os colaboradores das empresas de metalurgia, de mineração e os cientistas universitários dedicados e qualificados acabavam encontrando outras funções menos onerosas ou desaparecendo misteriosamente.

Assim, opondo-se ao modelo soviético da época, a narrativa constrói uma imagem anti-materialista da sociedade. As empresas representam não seus lucros, mas a soma dos esforços dos indivíduos que colaboram voluntariamente e dentro de suas possibilidades, com habilidades e recursos diversos e diferentes.

Ao partir da mitologia, a política do século XX transformou o titã em uma imagem metafórica. Os produtores, que se esforçam, constroem, pensam e produzem são o Atlas do mundo industrial e pós-industrial. Sua carga não são os céus ou a terra, mas o Estado. Sua revolta não é contra Zeus, Perseu ou Hércules, mas contra os burocratas estatais que não produzem. Nesse cenário, o Atlas não tem outra saída senão o encolher dos ombros: aqueles que sustentam o Estado por meio de seu esforço e são oprimidos por ele devem deixar de sustentá-lo, pois saberão construir novamente.

**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação

 

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