Ao longo dos anos, desde o fim do século 18, a imagem de Tiradentes foi, por diversas vezes, reinterpretada para se adaptar às demandas mais passageiras do momento. Os historiadores, jornalistas e memorialistas mais recentes, que se dedicaram a tarefa de recontextualizar o personagem, alternaram entre descrever um revolucionário republicano que buscava fundar uma democracia independente em Minas Gerais; um patriota civil inconformado com os impostos; um militar frustrado que orquestrara um golpe contra a monarquia; ou um desinformado usado como bode expiatório pela coroa.
Porém, essa diversidade de interpretações sobre a Inconfidência e sobre Joaquim José da Silva Xavier, alferes da cavalaria de Minas Gerais, nos possibilitam entender como o Estado brasileiro foi construído. Para isso, vale um olhar sobre os presos que delataram Tiradentes na devassa da Inconfidência Mineira, acusados de se organizarem contra a rainha de Portugal, Maria I, em 1789.
Entre outros, o Padre José da Silva Oliveira Rolim, preso e ouvido no processo, afirmou que vira Tiradentes conversando com os mineiros e atiçando-os contra o Reino. João José Nunes Carneiro, o ajudante da guarnição, indicara que o alferes fora visto falando sobre a Inconfidência enquanto esteve no Rio de Janeiro. Francisco Antônio de Oliveira Lopes, inicialmente também acusado de inconfidente, relatara a intenção de Tiradentes de estabelecer uma nova república, mesmo que o problema dos impostos fosse resolvido. A denúncia e a delação mais robusta, a de Joaquim Silvério dos Reis, que anexou cartas e forneceu documentos sobre o projeto de revolução, descreveu o movimento mineiro como uma articulação de conversas sobre os altos impostos e de fantasias com um levante republicano que deporia o então governador de Minas, Visconde de Barbacena.
Após três anos de a prisão e de processo, somando-se aos outros acusados, Joaquim Xavier (Tiradentes), que no início havia negado as acusações, também confessa o crime de “lesa-majestade”. Assume a autoria e a liderança no projeto de proclamar uma república e de fazer de Minas uma democracia inspirada no movimento de independência americana, ocorrido em 1766. As confissões foram tomadas como prova no caso. Apontaram para a existência de diversos soldados já preparados para enfrentar a guarda real e o governador, além de mencionarem livros e listas que mostravam alvos a serem atacados, a leis que seriam alteradas e o projeto de uma nova bandeira com a frase “Libertas quae sera tamen” [Liberdade ainda que tardia].
No contexto monárquico, em que havia o juramento de lealdade pelos súditos à coroa, orquestrar um levante era um crime pago com a vida. Na carta de sentença proferida contra Tiradentes, são retomadas as acusações de “discursos sediciosos” e de “ideias de república”. O relator afirmou que, sendo a crise dos impostos (derrama) insuficiente para inflamar o povo, Tiradentes passou a “publicar horríveis e notórias falsidades” sobre a política fiscal monárquica.
No dia 21 de abril de 1792, cujo feriado nacional hoje celebramos, pelos crimes de discursar e idealizar contra o governo, Tiradentes foi “conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca”. Depois de morto, foi esquartejado e espalhado para servir de exemplo. Teve seus bens apreendidos, sua casa queimada, suas terras salgadas e seus descendentes considerados infames.
Hoje, após mais de 200 anos, o evento da Inconfidência compõe o mito fundador do Estado brasileiro. Contudo, não sabemos se, nos últimos anos, Tiradentes estaria mais próximo de um herói nacional celebrado como mártir ou de um exemplo do que o Estado é capaz com seus dissidentes.
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