Planejamento financeiro: muito além dos investimentos

Luciana Ikedo
Luciana Ikedo
Planejadora financeira CFP®, escritora e palestrante internacional, com abordagem de planejamento financeiro holístico. Possui dois MBAs pela FGV, com extensão na University of Tampa e na Ohio University (EUA), além de especialização em Finanças pelo Ibmec/Insper e FIA/USP. Em 2025, foi mediadora e palestrante em painéis da COP 30, realizada no Brasil. É autora do livro Vida Financeira – Descomplicando, Economizando e Investindo (Editora Loyola), finalista do Prêmio XP de Educação Financeira em 2023, e conselheira fiscal do IBPC.
lUCIANA IKEDO

Quando falamos de planejamento financeiro, ainda existe uma tendência de reduzir esse tema à organização do fluxo de caixa: adequar despesas às receitas e direcionar o excedente para os investimentos.

É claro que esse é um ponto absolutamente relevante. Afinal, organizar a vida financeira, formar reserva de emergência e investir melhor são etapas fundamentais para a construção de patrimônio. Ainda assim, quando falamos de planejamento patrimonial e sucessório, essa é apenas uma parte do que precisa ser considerado.

O planejamento financeiro holístico, com uma visão 360º da vida financeira, percorre a estratégia de acumulação e alocação da carteira de investimentos, mas também contempla aposentadoria ou independência financeira, eficiência tributária, proteção patrimonial e sucessão.

Em tempos de famílias reconstruídas, novos arranjos familiares e relações patrimoniais cada vez mais complexas, especialmente diante das discussões sobre a reforma do Código Civil e a possibilidade de o cônjuge deixar de ser herdeiro necessário, muitas pessoas ainda desconhecem os efeitos patrimoniais do regime de bens que escolheram, ou que, muitas vezes, sequer escolheram conscientemente.

Também falamos pouco, de forma aberta e objetiva, sobre a possibilidade de que a vida não saia exatamente como o planejado. Situações como uma doença grave, uma invalidez, um acidente, uma separação, uma perda de renda ou uma morte inesperada podem comprometer profundamente a estabilidade financeira e patrimonial de uma família.

Outro ponto cada vez mais relevante é a longevidade. Viver mais é uma conquista, mas também exige preparo. O cuidado na fase final da vida, a necessidade de assistência, moradia, saúde, renda recorrente e preservação da autonomia não deveriam ser temas tratados apenas quando a urgência aparece. Eles precisam ser planejados com antecedência e responsabilidade.

O planejamento financeiro, patrimonial e sucessório não vem para aprisionar. Ele vem para libertar.

Trocamos horas de vida por trabalho, e trabalho por dinheiro. Se não tivermos o suficiente para a jornada, faltará dignidade. Mas, se tivermos muito mais do que realmente precisamos, talvez tenhamos trocado horas de vida por algo que já não era necessário.

Planejar é compreender o papel do dinheiro dentro da própria vida. É organizar escolhas, proteger pessoas, reduzir riscos e construir um futuro com mais clareza.

Porque patrimônio não é apenas aquilo que se acumula. É também aquilo que se protege, se organiza e se transmite com consciência.

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