Basta abrir qualquer rede social para encontrar vídeos que tratam o emprego com carteira assinada como sinônimo de fracasso. Há quem veja nisso uma geração avessa ao trabalho. Eu vejo um sintoma. A rejeição à CLT não significa rejeição aos direitos trabalhistas. Significa que cada vez mais pessoas questionam um modelo que, embora tenha sido essencial para proteger milhões de trabalhadores, já não responde sozinho às transformações do mundo do trabalho.
A CLT foi e continua sendo uma das maiores conquistas da legislação brasileira, garantindo direitos e um piso mínimo de dignidade. Mas muitos dos seus direitos ficaram no tempo. Como conciliar qualidade de vida e trabalho em jornadas como a escala 6×1? Como falar em equilíbrio quando o acompanhamento de filhos em consultas médicas ainda é tão limitado? E será que dois dias de licença em caso de falecimento são suficientes? ou cinco dias de licença-paternidade refletem a realidade atual das famílias?Esses exemplos mostram que o debate não é apenas jurídico, é social.
Enquanto setores tradicionais ainda operam sob uma lógica de controle e presença, áreas mais inovadoras já entenderam que a retenção de talentos e produtividade dependem de flexibilidade, autonomia e saúde do ambiente de trabalho. E isso se conecta diretamente à saúde mental.
O Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025, o maior número da série histórica. Ansiedade e depressão estão entre as principais causas, mostrando que o problema deixou de ser individual e passou a ser organizacional. A pergunta é inevitável: faz sentido falar de produtividade sem falar de saúde mental? A lógica do comando e controle ainda se sustenta?
A resposta já começa a aparecer na legislação. A NR-01 e a Lei nº 14.831/2024 colocam os riscos psicossociais no centro da gestão empresarial, tornando a saúde mental uma pauta estratégica e não apenas cultural. Ao mesmo tempo, o Fórum Econômico Mundial aponta que habilidades como empatia, escuta ativa e autoconhecimento serão essenciais até 2030. O mercado está mudando e a liderança também.
Por isso, a questão não é se a CLT vai acabar.É se continuaremos tentando resolver problemas atuais com modelos de gestão do passado. A rejeição à CLT não é a causa dessa mudança, mas um sintoma de uma sociedade que passou a questionar não só como trabalha, mas o custo disso.
No fim, o debate não é sobre a carteira assinada. É sobre o futuro do trabalho, da liderança e da saúde mental e sobre a capacidade das empresas de criar ambientes onde as pessoas não apenas trabalhem, mas permaneçam bem enquanto trabalham.


