O que vem depois do burnout?

Raphael Rezende

Cansaço extremo. Culpa. Síndrome do impostor. Ansiedade. Vontade de ser como antes…

Mas a verdade é que não somos mais como antes. E onde foi que nos perdemos?

A vida que se apresenta depois de um burnout é diferente. É como viver numa montanha-russa ao quadrado, porque a própria vida já é uma montanha, cheia de altos e baixos. Um dia você está com o cognitivo em estado produtivo. Você foca, entrega, sente  bem-estar. No outro, entra em tela azul: não produz, se culpa, se cobra.

A cabeça não descansa. Ela sabe o que precisa ser feito, mas o corpo trava.

Apenas está em tela azul.

E a vontade é de voltar a ser como antes. Mas… que “antes” era esse?

Eu tive dois burnouts seguidos em 2023. Vieram depois do fim de uma sociedade, da perda do meu pai e do acúmulo de muitas horas trabalhadas. A conta chegou. E quando chega, o corpo para de vez.

Essa história é minha. Mas pode ser a de tantas outras pessoas também.

Infelizmente, o Brasil é o segundo país mais esgotado mentalmente e o primeiro mais ansioso do mundo: são mais de 18 milhões de pessoas adoecidas, segundo a OMS.

Só em 2024, os afastamentos por transtornos mentais cresceram 68%, chegando a mais de 470 mil casos pelo INSS. Ansiedade e depressão lideram a lista. Pesquisas de 2025 já apontam para o dobro dessa realidade.

Esses números não falam só sobre saúde. Eles falam sobre como temos construído nossos ambientes de trabalho. E, mais ainda, sobre o tipo de mundo que estamos deixando para as próximas gerações. Pros nossos filhos e netos.

O mesmo modelo que adoece?

Sempre trabalhei muito. Desde a faculdade de Direito, conciliando com o cargo de gestão no mundo corporativo até o mercado de tecnologia e inovação, quando startups ainda eram novidade no Brasil. Alta escalabilidade, alta pressão, jornadas de 12, 13, 14 horas por dia.

“Vamos conquistar o mundo.” “Foguete não dá ré.” “Vamos juntos.”

Foi o que nos ensinaram. Foi o que compramos como “sucesso”.

Tangibilizamos o subjetivo ou pensamos que assim o fizemos.

Em contraponto à revolução industrial, a ideia de construção em coletivo, a conceituação de família e a falsa ideia de ambientes com “senso de dono” deram continuidade ao mesmo modelo operado lá atrás: produção e entrega em massa, pensamento limitado e produtividade ainda medida por horas trabalhadas.

Quanto mais, mais. Sempre mais.

Mas a nova era digital comporta esse mesmo modus operandi? Claramente, não.

Estamos em atravessamento, ao vivo, de uma nova era…

O conceito de mundo VUCA, cunhado no final do século XX, já se transformou inúmeras vezes até aqui.

Se antes já era complexo e ambíguo, imagine agora? Hiperconectividade, excesso de informações, inteligência artificial e um ritmo que nunca desacelera.

E aí vem a pergunta:

Enquanto negócios, acreditamos mesmo que é sustentável seguir como sempre foi? Vamos nos manter relevantes nas próximas décadas? Será que as mesmas estratégias ainda funcionam?

Como cita Martha Gabriel, PhD , em Liderando o Futuro:

“O planejamento tradicional, que era a espinha dorsal estratégica do sucesso, passa a funcionar cada vez menos, dando espaço para novas formas de navegar a incerteza.” “No entanto, apesar de o planejamento ágil ser fundamental para o sucesso dos negócios em ambientes incertos, ele não é suficiente: é necessário também a habilidade de traçar cenários futuros — visão e preparo para enfrentar futuros incertos.”

Não à toa, os custos de atração, plano de saúde, absenteísmo, rotatividade e passivo trabalhista só aumentam. E não é só isso: existem também os custos invisíveis: queda na inovação, na criatividade e no engajamento.

Mesmo assim, seguimos medindo pseudoresultados.

E se já sabemos disso tudo, além dos estudos e cases que apontam novos caminhos, por que insistimos em modelos velhos e ultrapassados, que adoecem a todos nós, sem exceção?

E se reaprendêssemos a trabalhar? E se testássemos novos caminhos?

Até porque, há situações que já estão postas, concorda?

Sejamos muito sinceros:

  • Quem consegue se manter focado e produtivo durante as 8 horas (ou mais) de trabalho?
  • Quem consegue pensar estrategicamente depois de semanas de reuniões seguidas uma das outras?
  • Quem se engaja numa cultura que silencia e oprime?
  • Quem entrega o esperado após 3, 4 horas de transporte diário?
  • Quem inova, cria e questiona de verdade em regime 6×1?

Claramente, não dá mais para continuar do mesmo jeito.

Não à toa, o Brasil segue entre os países mais esgotados do mundo. E a liderança já aparece como o quarto maior grupo adoecido no país, segundo relatório de 2025: Panorama da saúde mental do mercado de trabalho brasileiro da Gupy.

Então, mais uma vez, por que insistimos em não testar novos jeitos de trabalhar e liderar? Se na realidade, também nos tornamos estatística. Infelizmente.

Será que precisamos mesmo esperar a exaustão para mudar?

Nosso cérebro é programado a reagir a eventos. Mas também é elástico, capaz de criar novas sinapses e, portanto, novos comportamentos, segundo a neurociência.

De repente… E se saltássemos da tela azul para o equilíbrio estratégico que se mostra necessário, saudável e sustentável? E se, em vez de querer voltar para o que nos adoeceu, ou permanecer no que continua nos adoecendo, a gente criasse mesmo o futuro do trabalho que temos defendido? Agora, no presente.

Ele pode ser mais simples do que pensamos. E, melhor, pode começar agora.

E se fossemos por este caminho…?

  • Em que período do dia sou verdadeiramente focado e produtivo?
  • Quais dias funcionam melhor para decisões estratégicas e quais para o operacional?
  • Que rituais me trazem plena presença e consciência?
  • Que processos reduzem a culpa e a ansiedade?
  • Que novas práticas passam a compor meus indicadores?
  • Quais metas precisam ser revistas?
  • Que habilidades preciso ter para aumentar autonomia e flexibilidade?
  • Quais tecnologias serão aplicadas para liberar espaços na agenda?
  • O que farei com esse tempo, então livre?
  • Por fim, que cultura nascerá, mais uma vez, a partir disso tudo?

Na prática, não é sobre entregar menos. Não é sobre deixar de bater metas. É sobre entregar o mesmo resultado definido e acordado de forma mais inteligente, saudável e sustentável.

Talvez a sua cultura seja rígida a ponto de fazer parecer impossível começar por algum desses caminhos, algo como: “isso não funciona aqui”, “a empresa é diferente”, “a gente não tem esse espaço”.

Mas há algo que sempre funciona, independentemente do local ou da cultura: olhar para as pessoas como pessoas humanas.

Nem sempre estamos bem. Nossos problemas não ficam em casa – e os do trabalho, tampouco ficam na empresa. Quando um pilar da vida desaba, os outros balançam juntos. As metas são importantes, mas não mais do que o nosso próprio desenvolvimento. Temos sonhos, desejos e medos. Somos humanos.

No dia a dia, as relações precisam ser ouvidas e nutridas. O básico de qualquer relacionamento.

“Você está bem?” “Precisa de algo?” “Fica em casa hoje, descansa. Já pedi para fulano assumir essa entrega. Daremos um jeito.”

A vida não é linear, e que bom. Pensa como seria entediante se fosse?

A autonomia e a flexibilidade precisam ocupar mais espaço, especialmente nas relações entre líderes e liderados.

Só assim experimentaremos novos jeitos de trabalhar – menos verticais, mais humanos.

Não à toa, o estudo da Futuros Possíveis em parceria com a TOTVS e o Instituto Percorre mostrou que apenas 12% das pessoas desejam cargos de liderança. Isso não fala sobre falta de ambição, mas sobre um novo conceito de sucesso, como bem elucidado no estudo. Autonomia em vez de autoridade, colaboração em vez de comando, impacto em vez de posição.

Neste caminho, descobrimos uma nova vida, infinitamente melhor.

Descobrimos que é possível inserir descanso no meio da agenda. Que nem toda demanda é, de fato, urgente e necessária, e que muitas podem ser ajustadas, negociadas ou até mesmo deixadas para depois sem que o mundo desabe.

Descobrimos também que momentos de ócio e pausas são parte essencial da qualidade do que entregamos, assim como estar ao lado de quem amamos com mais frequência.

Percebemos, ainda, que existem lacunas processuais e jeitos mais simples de fazer a mesma tarefa. E testamos, repetidamente, porque o interesse é genuíno em automatizar processos e liberar tempo – tempo que pode ser usado não apenas para produzir mais, mas para alimentar uma nova cultura de trabalho e de vida.

Por fim, descobrimos que não somos apenas o nosso trabalho. Que existe uma infinidade de possibilidades fora dele. E que, por isso mesmo, passamos a procurar, de forma incansável, novas maneiras de tornar essa parte de quem somos mais leve, mais feliz e mais sustentável.

E isso tem tudo a ver com descansar. Com estar presente. Com estar ao lado de quem verdadeiramente amamos.

Me responda, se puder: quando foi a última vez que você desmarcou uma reunião “importante” para passar uma hora a mais com alguém especial? Com sua mãe, seu pai, seus filhos, irmãos, sua pessoa companheira? Parece impossível, eu sei. Mas não é. E, quanto mais você permitir que isso aconteça, mais vai perceber que, no fundo, as demandas sempre foram ajustáveis.

E, repetidas vezes, nesse ciclo, a culpa e a ansiedade vão cedendo espaço para o que realmente importa: a vida em sua inteireza.

Uma vida que sempre deixamos para “um dia”.

Só que esse “um dia” não existe. O futuro não é garantia.

É aí que está o privilégio de envelhecer. De compreender que a vida não se adia. De reconhecer que aquilo que tanto projetamos para depois só existe se for vivido agora.

Então, mais uma vez, por que ainda temos tantos desafios e barreiras em construir esse futuro no agora?

Vamos conversar sobre isso? Me conta a sua opinião ou vivência sobre este futuro do agora?

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