A nova pesquisa BTG Pactual/Nexus mostra um cenário presidencial que, à primeira vista, parece estável. Lula aparece com 40% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro registra 34%. Os demais candidatos surgem bem atrás, distribuídos entre percentuais de 5%, 4%, 2% e 1%.
Mas, na política, nem sempre o dado mais importante está apenas na distância entre o primeiro e o segundo colocado. Muitas vezes, o movimento mais relevante aparece justamente naquilo que ainda não se organizou completamente.
Minha leitura é que Lula continua consolidando sua posição como o centro da disputa presidencial. Isso não significa, necessariamente, que ele esteja crescendo eleitoralmente. Na comparação com a pesquisa anterior, o presidente oscilou dentro da margem de erro. O que se consolida é sua centralidade política: a eleição continua sendo organizada a partir de Lula, seja para apoiá-lo, seja para derrotá-lo.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, demonstra uma força eleitoral que não pode ser subestimada. Com 34% no primeiro turno e desempenho competitivo em uma eventual disputa direta, ele já provou que não é apenas um nome de passagem ou uma candidatura improvisada. Existe um eleitorado bolsonarista consolidado ao seu redor.
O problema é outro: Flávio Bolsonaro consegue reunir a base bolsonarista, mas ainda não conseguiu reunir toda a direita.
Essa distinção é fundamental.
Somados, os candidatos que aparecem fora dos dois primeiros lugares concentram aproximadamente 18% das intenções de voto. Isso representa quase um em cada cinco eleitores com candidatura definida que, neste momento, não está com Lula nem com Flávio Bolsonaro.
É evidente que não podemos chamar automaticamente esse grupo de terceira via. Esses votos estão divididos entre nomes diferentes, partidos diferentes e projetos políticos que nem sempre conversam entre si. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, por exemplo, possuem perfis, discursos e estratégias eleitorais bastante distintos.
Ainda assim, existe ali um espaço político importante.
Esse contingente pode seguir três caminhos ao longo da campanha. Uma parte poderá migrar para Flávio Bolsonaro, especialmente se houver um movimento de voto útil contra Lula. Outra parte poderá se aproximar do presidente, principalmente entre eleitores que rejeitam o bolsonarismo ou que priorizam estabilidade institucional. E existe ainda a possibilidade de que um desses candidatos consiga crescer, reunir forças partidárias e se apresentar como alternativa real à polarização.
A pesquisa, portanto, ainda não registra a consolidação de uma terceira candidatura competitiva. Mas ela começa a revelar a existência de um eleitorado disponível para esse movimento.
O comportamento dos partidos reforça essa percepção.
Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, afirmou que o partido não possui acordo com Flávio Bolsonaro e indicou uma tendência de independência ou neutralidade na disputa presidencial. O partido também afasta uma aproximação com o PT, o que demonstra que sua posição não significa adesão a Lula, mas preservação de autonomia política.
O mesmo movimento pode ser percebido na federação formada por União Brasil e Progressistas. As duas legendas possuem grande capilaridade nacional, bancadas expressivas no Congresso, governadores, prefeitos e estruturas estaduais relevantes. Até agora, porém, não demonstram disposição para embarcar integralmente na candidatura de Flávio Bolsonaro.
Isso produz um cenário bastante peculiar.
Partidos relevantes do centro e da centro-direita podem entrar na eleição sem colocar os dois pés em nenhuma candidatura presidencial. Em vez de uma aliança nacional uniforme, poderemos assistir a uma eleição marcada por diferentes arranjos estaduais. Em alguns estados, dirigentes poderão se aproximar de Flávio. Em outros, poderão dialogar com Lula. E, em determinadas regiões, poderão simplesmente concentrar suas energias nas disputas para governador, Senado e Câmara dos Deputados.
Essa neutralidade aparente não significa ausência de estratégia. Pelo contrário. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência, expansão e preservação de poder.
Os grandes partidos sabem que uma eleição presidencial extremamente polarizada pode impor custos elevados. Uma adesão precipitada a Flávio Bolsonaro poderia dificultar alianças estaduais e afastar eleitores moderados. Uma aproximação com Lula, por outro lado, também poderia gerar resistência em parcelas importantes de suas bases.
A tendência, portanto, é manter as portas abertas durante o maior tempo possível.
No curto prazo, essa fragmentação favorece Lula. Um presidente que busca a reeleição prefere enfrentar uma oposição dividida a enfrentar uma frente nacional unificada. Quanto mais partidos da direita e do centro evitarem uma adesão formal a Flávio Bolsonaro, maior será a dificuldade do candidato do PL para transformar sua força eleitoral em uma coalizão política nacional.
Mas existe um paradoxo.
A mesma fragmentação que beneficia Lula também pode criar as condições para o crescimento de uma nova liderança. Caso Flávio encontre dificuldades durante a campanha, aumente sua rejeição ou demonstre incapacidade de ampliar sua votação para além do bolsonarismo, partidos hoje neutros poderão procurar outro caminho.
É exatamente por isso que os percentuais de 4% ou 5% não devem ser tratados como irrelevantes.
Uma candidatura presidencial não cresce apenas pela intenção de voto. Ela cresce quando consegue reunir estrutura, palanques, financiamento, alianças regionais, exposição pública e uma narrativa política capaz de responder ao momento do país. Um candidato com 4% e uma grande aliança partidária pode se tornar competitivo. Um candidato com 10%, mas sem estrutura nacional, pode rapidamente desaparecer.
Estamos entrando em uma fase decisiva do processo eleitoral. Com a proximidade das convenções partidárias, os nomes começarão a se transformar em candidaturas oficiais. As alianças deixarão de ser apenas hipóteses e passarão a produzir efeitos concretos. O eleitor começará a conhecer as chapas, os vices, os apoios estaduais e as estruturas disponíveis para cada campanha.
É nesse momento que saberemos se esses 18% continuarão fragmentados ou se poderão ser reorganizados em torno de uma alternativa.
Minha avaliação é que Lula chega a essa etapa em posição de vantagem. Ele lidera, possui um eleitorado mais consolidado e enfrenta uma oposição que ainda não encontrou unidade. Flávio Bolsonaro chega forte, mas limitado pelo desafio de transformar o bolsonarismo em uma coalizão mais ampla.
A grande pergunta da eleição passa a ser esta: Flávio Bolsonaro conseguirá unir a direita ou sua candidatura acabará produzindo uma nova reorganização desse campo político?
A pesquisa Nexus ainda não apresenta uma resposta definitiva. Mas já começa a mostrar que essa disputa interna existe — e poderá ser um dos elementos mais importantes das próximas semanas.

