O palanque que falta para Tarcísio está na capital

Elias Tavares
Elias Tavares
Elias Tavares é cientista político, especialista em comunicação eleitoral e marketing político, com atuação voltada à análise de cenário, opinião pública e estratégia política.Natural de São Paulo e filho da Zona Leste paulistana, construiu trajetória ligada à gestão pública, comunicação e política institucional. É bacharel em Ciência Política, possui formação em Gestão Pública, Marketing e especializações voltadas à comunicação política, gestão partidária e administração pública.Também atua como articulista e comentarista político, produzindo análises sobre eleições, articulação política, comportamento do eleitorado e os bastidores do poder no Brasil.
Foto: Mônica Andrade/Governo do Estado de SP

Com Dário Saadi, o governador já demonstrou força em Campinas; agora caberá a Ricardo Nunes provar que também consegue entregar resultado eleitoral na cidade de São Paulo

A eleição de 2026 em São Paulo não será decidida apenas pelo desempenho do governo, pelo tempo de televisão ou pela força das redes sociais. Ela será decidida também pela capacidade de Tarcísio de Freitas organizar palanques fortes nas principais cidades do Estado.

E, nesse mapa político, Campinas e São Paulo ocupam lugares diferentes.

Em Campinas, Tarcísio já mostrou força. A maior cidade do interior paulista, comandada pelo prefeito Dário Saadi, tem sido um território importante para o governador. Não apenas pelo tamanho do eleitorado, mas pelo peso político, econômico e simbólico que Campinas representa dentro do Estado.

Campinas é uma cidade estratégica. É polo de tecnologia, inovação, universidades, saúde, indústria, serviços e articulação regional. O que acontece politicamente em Campinas não fica restrito a Campinas. Repercute na Região Metropolitana, conversa com o interior e ajuda a formar percepção sobre o cenário estadual.

Por isso, quando se fala nos palanques de Tarcísio para 2026, é impossível ignorar o papel de Dário Saadi. O prefeito de Campinas já demonstrou capacidade de ser um aliado relevante do governador. Em uma cidade exigente, com eleitorado atento à gestão pública e à entrega concreta de resultados, Tarcísio encontrou um ambiente favorável e uma liderança municipal capaz de dar sustentação política ao seu projeto.

Campinas, portanto, não é o problema de Tarcísio. Pelo contrário. É parte da sua força.

O desafio maior está na capital.

Na cidade de São Paulo, a história é diferente. Em 2022, Tarcísio venceu a eleição para o governo do Estado, mas perdeu na capital para Fernando Haddad. No mesmo ano, Lula também venceu Jair Bolsonaro na cidade de São Paulo. Esse dado é fundamental para entender o movimento político que começa a se desenhar agora.

A capital paulista tem um comportamento eleitoral próprio. É o maior colégio eleitoral do Estado, concentra imprensa, influência nacional, setores econômicos, movimentos sociais, lideranças comunitárias e uma enorme diversidade de interesses. Não basta vencer no interior. Para um governador que busca se consolidar politicamente, é preciso disputar a capital com intensidade.

E é aí que Ricardo Nunes entra no centro do tabuleiro.

Em 2022, Nunes estava em outro palanque. Apoiava Rodrigo Garcia, então governador e candidato à reeleição. Naquele momento, Tarcísio era adversário daquele campo político. Mas a política é feita de ciclos, reposicionamentos e necessidades concretas.

Em 2024, o jogo mudou completamente.

Ricardo Nunes disputou a reeleição em São Paulo em um ambiente difícil. Além de enfrentar Guilherme Boulos, viu Pablo Marçal crescer e ocupar parte do espaço político da direita e do eleitorado de protesto. Marçal tensionou a disputa, mexeu com o tabuleiro e quase chegou ao segundo turno.

Naquele momento, Tarcísio de Freitas foi decisivo para Nunes.

O governador entrou na campanha, fez agendas, emprestou seu prestígio e ajudou a reorganizar parte do campo conservador e de centro-direita em torno do prefeito. A presença de Tarcísio serviu como uma espécie de fiança política para Nunes, especialmente diante de um eleitorado que poderia migrar para uma candidatura mais agressiva, como a de Marçal.

Agora, em 2026, chegou a hora da reciprocidade.

Se Tarcísio ajudou Nunes a vencer em 2024, agora Nunes precisa ajudar Tarcísio a virar o jogo na capital. E essa ajuda não pode ser apenas protocolar. Não basta aparecer em foto, declarar apoio ou participar de uma agenda isolada. Ricardo Nunes terá que mostrar força eleitoral real.

Esse é o grande teste.

Nunes governa a maior cidade do país. Tem a máquina municipal, relação com vereadores, subprefeituras, lideranças de bairro, igrejas, setor produtivo, associações e estruturas partidárias. É evidente que nenhum prefeito transfere voto automaticamente. O eleitor não pertence a ninguém. Mas um prefeito forte ajuda a criar ambiente, organizar território, abrir portas e dar capilaridade a uma campanha.

É exatamente disso que Tarcísio precisa na capital.

No interior, especialmente em Campinas, o governador já tem palanques consistentes. Dário Saadi representa essa base municipal organizada, com peso eleitoral e capacidade de diálogo com uma cidade estratégica. Na capital, porém, Tarcísio precisa transformar a aliança com Ricardo Nunes em resultado concreto.

A pergunta que se impõe é simples: Nunes conseguirá entregar a Tarcísio uma vitória consistente na cidade de São Paulo?

Essa resposta será uma das chaves da eleição estadual.

Para Tarcísio, vencer ou crescer de forma expressiva na capital significa mais do que ampliar votos. Significa demonstrar força no principal centro urbano do país e reduzir a vantagem que a esquerda teve na cidade nas últimas eleições gerais. Significa também mostrar que sua liderança não está restrita ao interior ou a determinadas regiões do Estado.

Para Ricardo Nunes, o desafio também é grande. Apoiar Tarcísio em 2026 será uma forma de devolver o apoio recebido em 2024, mas também de provar que sua reeleição não foi apenas fruto de uma conjuntura contra Boulos ou contra Marçal. Será a oportunidade de mostrar que ele tem liderança própria e capacidade de influenciar uma disputa estadual.

A política tem memória. Em 2024, Tarcísio entrou no palanque de Nunes quando o prefeito mais precisava. Em 2026, Nunes terá que entrar no palanque de Tarcísio onde o governador mais precisa: na capital paulista.

Campinas já mostrou o peso de um palanque forte com Dário Saadi. Agora, o teste está em São Paulo.

E, nesse teste, Ricardo Nunes terá que provar se é apenas beneficiário de uma aliança ou se também consegue ser fiador de uma vitória.

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