Carmela Gross dá vida à arquitetura de Lina Bo Bardi em exposição neon no Sesc

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quem passar pelo Sesc Pompeia, em São Paulo, vai notar enormes letreiros coloridos sobre as passarelas de concreto que ligam um prédio ao outro. “Rosso”, “giallo”, “blu” e “verde” são as palavras italianas para as cores vermelho, amarelo, azul e verde, há muito tempo rabiscadas por Lina Bo Bardi sobre um desenho do edifício, e agora materializadas pela artista Carmela Gross em suas paredes.

A obra “Gato” estabelece uma relação espirituosa com as ligações clandestinas de fios em postes para captar sinais de internet e televisão. Não se sabe se Lina queria ter tingido as colunas durante a reforma do Sesc Pompeia, antes uma fábrica abandonada, mas fato é que elas nunca ganharam cor –e, de forma quase furtiva, Gross deu vida a ideia misteriosa da arquiteta como parte da exposição “Quase Circo”.

No espaço interno da mostra, outras obras da artista seguem conversando com a arquitetura de Lina. É o caso de “Roda Gigante”, em que dezenas de objetos gastos pelo tempo, como uma televisão de tubo, livros velhos, botijões de gás e estátuas de jardim são presos às estruturas do teto da antiga fábrica por cordas coloridas.

A interação entre arte e arquitetura cai bem, até porque o trabalho de Gross nunca obedeceu às convenções dos espaços expositivos criados pelo mundo da arte, como o cubo branco –pelo contrário, a produção da artista se concentra mais em intervenções e obras temporárias.

“A Carmela trabalha observando o espaço urbano, o cotidiano e o modo com que as pessoas usam os materiais. É uma espécie de desenho observando o mundo, mas não com lápis e papel, e sim com elementos que estão às margens da imagem oficial das cidades”, diz Paulo Miyada, o curador.

É assim que tapumes, alvenaria, ripas de madeira, tijolos, escadas e demais objetos que geralmente estão fora de cartões postais e campanhas de turismo são os protagonistas da mostra. Exemplo é o trabalho “Bando”, em que silhuetas de animais vomitando são impressas com serigrafia em chapas de metal.

Lina também aprendeu muito com a arquitetura popular, observando o improviso das ruas. “A arquitetura brasileira no geral não é feita pelos arquitetos renomados, mas por um processo voraz, com acúmulos de signos como postes, fios, sinais”, diz Miyada.

Foi observando aqueles que construíram suas moradias no meio do caos que Lina reformou a antiga fábrica que hoje dá espaço ao Sesc Pompeia, dando outra vida ao lugar antes destinado à ruína ou à demolição.

No pequeno lago artificial que corta parte do pavilhão expositivo, Gross completou às margens da água com pedaços de madeira enfileirados nas cores verde e vermelho. Logo à frente, tripés de microfones sustentam no ar hastes de luzes neon que formam uma casa.

As luzes fortes que dominam a noite da cidade, de janelas de boate à vitrines de bares, são o fio condutor entre as obras. “Escadas”, em que enormes escadas vibram em neon vermelho, parece ser a obra que mais chama a atenção do público, que não economiza fotos com o celular.

Gross não se incomoda com as poses instagramáveis ao lado de suas obras, mas diz que a internet impede o aproveitamento da arte. “O mundo ficou traduzível em pequenas telinhas. O que está na internet tem muito pouco a ver com a arte, e mais a ver com a informação. Imagens de obras ou de acontecimento da vida real traduzidos nesse processo ficam mais ou menos como comida de congelador”, argumenta.

A interação ao vivo com as obras é indispensável, o que também explica o uso de objetos urbanos do dia a dia. “Gosto desses materiais porque eles são parte da vida comum, e a arte precisa processar a vida e a realidade. Nada de belas artes”, afirma.

QUASE CIRCO

Quando: De terça a sábado, das 10h às 21h. Domingo das 10h às 18h. Até 25/08.

Onde: Sesc Pompeia -r.Clélia, 93, São Paulo

Preço: Grátis.

Classificação: Livre.

ALESSANDRA MONTERASTELLI / Folhapress

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