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Em ‘Mickey 17’, Bong Joon Ho tira sarro dos bilionários com delírios de grandeza

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um bilionário se candidata à presidência dos Estados Unidos pregando contra o status quo, inflama uma massa de seguidores apaixonados que portam bonés vermelhos e incentiva uma nova corrida espacial, alternativa que considera mais fácil do que simplesmente ceder a uma agenda ecologista para preservar a Terra.

Parece realidade, mas é ficção. Novo filme de Bong Joon Ho, “Mickey 17” talvez seja um de seus maiores delírios cinematográficos, um retorno às situações absurdas, aos personagens caricatos e à dramédia escrachada que apareceram de forma mais palatável em seu último trabalho, o vencedor do Oscar e da Palma de Ouro “Parasita”.

Seis anos depois de o sul-coreano fazer história com o primeiro filme em língua estrangeira a vencer a estatueta mais cobiçada de Hollywood, Joon Ho retorna com um longa falado em inglês, bancado pela Warner Bros. e com um orçamento à altura da admiração que conquistou –qualquer coisa entre US$ 80 milhões e US$ 150 milhões, segundo estimativas do setor.

Mesmo que “Mickey 17” seja uma aventura espacial futurista, o filme tem os pés fincados no planeta Terra, numa realidade em que Donald Trump e Elon Musk não apenas coexistem, mas trabalham juntos na Casa Branca. É como se Joon Ho usasse os dólares que recebeu para tirar sarro dos próprios americanos.

Mas o filme, assim como o livro que o precede, “Mickey7”, não tem como intenção personalizar seus heróis e vilões. Joon Ho vê paralelos com a realidade americana, claro, mas tem consciência de que o populismo de direita retratado na história é reflexo de um movimento global, que chegou também à Coreia do Sul, que declarou o impeachment do presidente Yoon Suk-yeol, em dezembro, após uma tentativa de autogolpe.

“Estamos, em geral, felizes com o que está acontecendo”, disse Joon Ho em conversa por vídeo, um dia após Suk-yeol ser preso. “Neste filme eu queria misturar todos os líderes terríveis que já existiram. Independentemente da intenção, é verdade que sentimos um gostinho de Trump ao olhar para o personagem do Mark [Ruffalo]. Nós conversamos muito sobre como esses ditadores, não importa quão horríveis e frustrantes sejam, têm charme e apelo surpreendentes, o que os torna populares e perigosos.”

Em “Mickey 17”, o bilionário vivido por Ruffalo perde as eleições americanas e, justamente por isso, decide embarcar seus seguidores numa espaçonave para colonizar um planeta qualquer, que seria habitado por uma “raça pura” e de pensamento homogêneo.

Ao seu lado, Toni Colette faz uma primeira-dama igualmente afetada e religiosa, que remete à televangelista americana Tammy Faye. Ela joga lenha na fogueira de caprichos do marido, que proíbe o sexo em sua nave para evitar a queima de calorias e dá ração a seus apoiadores enquanto desperdiça comida em banquetes suntuosos.

Os delírios de grandeza de Kenneth e Ylfa Marshall, porém, são apenas o pano de fundo de “Mickey 17”. A alma do filme é o personagem-título, vivido por Robert Pattinson. Perseguido por agiotas depois de pegar dinheiro emprestado e não pagar, ele se alista para a viagem ao espaço e, para furar a fila, concorda em trabalhar como um “descartável”.

Em resumo, a função consiste em morrer repetidas vezes. Mickey dá autorização para que cientistas de ética duvidosa o clonem e transfiram suas memórias para o novo corpo sempre que o anterior padece. O sacrifício, dizem eles, é essencial para a missão —o protagonista vai testar, entre outras coisas, quão venenoso é o ar ou quão mortíferas são as espécies dos planetas que encontram pelo caminho.

“Quando li o roteiro, achei que essas cenas seriam engraçadas, algo como ‘Tom e Jerry’, mas na hora de gravar pareceu algo horrível, muito realista”, diz Pattinson, que vomita sangue, leva porrada e é incinerado vivo ao longo do filme. “É a assinatura do Bong, misturar tragédia à comédia, num equilíbrio desconfortável.”

Seu personagem, bobão e desajeitado, ao chegar em sua 17ª versão e ser equivocadamente dado como morto, é obrigado a coexistir com um 18° Mickey, mais agressivo e determinado. Pattinson precisou contracenar com ele mesmo em várias cenas do longa, alcançando um delicado equilíbrio, já que precisava fazer personagens que fossem, ao mesmo tempo, iguais e diferentes.

No livro, são oito as versões do protagonista que conhecemos. Joon Ho, porém, alterou os planos para realçar a tragédia de Mickey e, também, fazer do filme uma espécie de “coming of age”, um conto sobre amadurecimento, já que em muitas culturas o 18° aniversário marca a nossa passagem para a vida adulta.

“Eu criei vozes e maneirismos que ajudassem o espectador e distingui-los logo de cara, mas o problema é que, no fundo, eles não são tão diferentes assim. Foi preciso encontrar maneiras sutis de apartá-los, buscar suas essências, em vez de apostar no exterior”, diz Pattinson.

“Tenha uma boa morte”, diz um dos personagens em determinada cena, evidenciando a banalidade e até o desprezo com que tratam a vida, humana ou não. Isso fica ainda mais explícito quando a espaçonave chega a um planeta habitado por rastejadores, nome dado a alienígenas que lembram tatus-bolas gigantes, altamente inteligentes.

É mais uma volta ao passado de Joon Ho, que desenvolveu criaturas para dois de seus principais filmes, o sul-coreano “O Hospedeiro” e o americano “Okja”, para debater temas semelhantes, como empatia e o meio ambiente. O último assunto também se faz presente na trama apocalíptica “Expresso do Amanhã”, ou “Snowpiercer”, que gira em torno de um cataclisma climático.

“Nunca houve uma espécie que destruísse o planeta tão rapidamente quanto o ser humano. Nós não podemos controlar a nossa própria espécie, temos países deixando o Acordo de Paris, o que é trágico”, diz o cineasta, em referência ao decreto de Trump que retira os Estados Unidos do plano mundial de combate à crise do clima.

Ecologista e politizado —esteve na lista de artistas sul-coreanos que pediram a prisão de Suk-yeol—, Joon Ho é também uma das munições mais poderosas de seu país natal na conquista do mundo pela cultura sul-coreana.

Com os seis anos que o separam da vitória no Oscar, no meio dos quais outros fenômenos surgiram, como a série vencedora do Emmy “Round 6”, Joon Ho acredita que pouco mudou em sua forma de trabalhar.

Ele continua encarando seus filmes com a mesma responsabilidade, mesmo com os olhos do mundo voltados para o que se produz na Coreia do Sul. “A única coisa que mudou de ‘Parasita’ para cá é que eu estou ficando velho”, brinca.

MICKEY 17

– Quando Estreia nesta quinta (6), nos cinemas

– Classificação 16 anos

– Elenco Robert Pattinson, Steven Yeun e Mark Ruffalo

– Produção Coreia do Sul, EUA, 2025

– Direção Bong Joon Ho

LEONARDO SANCHEZ / Folhapress

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