O julgamento dos acusados pela morte do menino Henry Borel entrou para a história do Judiciário fluminense. Nesta segunda-feira (1º), a sessão realizada no II Tribunal do Júri do Rio de Janeiro alcançou o oitavo dia consecutivo, tornando-se a mais longa já registrada no Tribunal do Júri do estado.
Com a marca, o caso supera o julgamento da ex-deputada federal cassada Flordelis, que teve início em 7 de novembro de 2022 e terminou apenas na madrugada do dia 13, após uma última sessão que se estendeu por quase 24 horas. Na ocasião, Flordelis foi condenada a mais de 50 anos de prisão pela morte do pastor Anderson do Carmo.
A reta final do julgamento foi marcada pelo depoimento do médico-legista Leonardo Huber Tauil, responsável pela necropsia de Henry. Considerado uma das principais testemunhas do processo, o perito reiterou as conclusões apresentadas desde o início das investigações e descartou que a morte da criança tenha sido provocada por procedimentos de reanimação.
Durante o depoimento aos jurados, Tauil afirmou que não existem elementos que indiquem relação entre as lesões encontradas e as tentativas de socorro realizadas após o menino dar entrada na unidade de saúde.
Segundo o médico-legista, a causa da morte foi uma hemorragia interna decorrente de uma laceração hepática — ruptura do fígado — provocada por um trauma de alta energia. Ele também destacou a presença de outras lesões internas compatíveis com agressão física.
De acordo com o perito, Henry apresentava ainda contusões nos rins e nos pulmões, além de hemorragia retroperitoneal, um tipo de sangramento localizado atrás da cavidade abdominal. Na avaliação técnica apresentada ao júri, esse conjunto de ferimentos não seria compatível com massagens cardíacas ou procedimentos médicos de emergência.
Questionado pela defesa sobre a possibilidade de a lesão ter sido causada por uma queda doméstica, Tauil respondeu que a ruptura identificada no fígado exigiria um impacto de grande intensidade, incompatível com acidentes comuns dentro de casa.
O depoimento também abordou pontos levantados pela defesa ao longo do julgamento sobre divergências em documentos periciais elaborados durante a investigação.
Tauil reconheceu que houve correções em laudos complementares e explicou que algumas inconsistências decorreram de erros materiais de digitação. Entre os questionamentos discutidos esteve a descrição de lesões na região nasal da criança. Segundo o médico-legista, a informação foi posteriormente ajustada após a identificação de uma falha na redação original do documento.
Com a fase de depoimentos próxima do encerramento, a expectativa é que o julgamento avance para as etapas finais, incluindo debates entre acusação e defesa, antes da decisão dos jurados sobre um dos casos de maior repercussão da história recente do país.

