Trump ameaça usar força militar na América Latina em discurso na ONU

Presidente dos EUA afirmou na ONU que poderá usar o poder militar americano para proteger interesses estratégicos no Hemisfério Ocidental e citou ações na Venezuela.

Saulo Astini
Saulo Astini
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Foto: Reprodução

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a defender nesta terça-feira (22) o uso da força militar como instrumento para proteger interesses americanos na América Latina e no Hemisfério Ocidental. A declaração ocorreu durante seu discurso na abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Ao abordar a política de segurança dos Estados Unidos para a região, Trump afirmou que as ações adotadas por seu governo na Venezuela demonstrariam uma mudança na postura de Washington. Segundo ele, os Estados Unidos não permitiriam que ameaças consideradas estratégicas ganhassem espaço no continente.

Além disso, o presidente americano afirmou que seu governo estaria disposto a recorrer ao poderio militar caso considerasse necessário para defender interesses nacionais.

Trump reforça política de pressão na América Latina

Durante o pronunciamento, Trump apresentou o combate aos cartéis de drogas como uma das principais justificativas para ampliar a atuação americana na região.

O presidente comparou os grupos criminosos ao Estado Islâmico (ISIS) e defendeu medidas mais duras contra organizações que, segundo seu governo, representam ameaça à segurança dos Estados Unidos.

Nesse sentido, a Casa Branca tem adotado uma política de maior envolvimento militar no combate ao tráfico internacional de drogas. Ainda segundo informações divulgadas sobre o discurso, Trump afirmou que os Estados Unidos vêm realizando operações contra embarcações que Washington afirma estarem ligadas ao transporte de entorpecentes.

A estratégia representa uma ampliação da participação militar americana em questões tradicionalmente tratadas por meio de mecanismos de segurança, inteligência e cooperação internacional.

Venezuela entra no centro do discurso

A Venezuela foi um dos principais pontos mencionados por Trump. O presidente americano apresentou as ações de seu governo no país como demonstração de que os Estados Unidos estariam dispostos a agir diretamente diante de ameaças consideradas relevantes.

Trump citou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro como exemplo dessa nova postura americana e afirmou que as ações serviriam como advertência para outros governos da região.

Dessa forma, o discurso reforçou a percepção de que Washington pretende exercer uma influência mais direta sobre questões políticas e de segurança no continente.

Ao mesmo tempo, a fala ocorre em um contexto de crescente discussão sobre a atuação dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e sobre os limites da intervenção de uma potência estrangeira em países latino-americanos.

México também é alvo de críticas

O presidente americano também direcionou críticas ao México, principalmente em relação à atuação de organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas.

Trump classificou o país como um dos principais centros da violência provocada por cartéis e defendeu que o governo mexicano retome o controle de áreas onde esses grupos possuem influência.

Entretanto, a abordagem americana sobre o combate ao narcotráfico envolve uma questão particularmente sensível: até que ponto os Estados Unidos poderiam atuar militarmente fora de seu território sem autorização dos governos diretamente envolvidos.

Essa discussão ganha importância justamente porque o governo Trump vem defendendo uma participação mais agressiva das Forças Armadas americanas nas operações contra cartéis.

Cuba também aparece entre os alvos de Trump

Além da Venezuela e do México, Cuba foi mencionada durante o discurso.

Trump classificou a situação política e econômica cubana de forma negativa e afirmou que seu governo pretende aumentar a pressão sobre a ilha. Ele também mencionou negociações conduzidas pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio.

Durante a fala, integrantes da delegação cubana deixaram o plenário quando Trump passou a abordar a situação do país.

Portanto, o discurso apresentou uma visão de política externa que combina pressão diplomática, sanções e, em determinados casos, a possibilidade de emprego da força militar.

O que a ameaça de Trump representa para a América Latina?

A declaração reacende o debate sobre o papel dos Estados Unidos na América Latina e sobre a chamada Doutrina Monroe, conceito histórico associado à defesa da influência americana no continente.

Nos últimos anos, a relação entre Washington e governos latino-americanos passou por diferentes fases, com períodos de cooperação econômica e de segurança, mas também de divergências políticas.

Agora, a retórica de Trump indica uma tentativa de ampliar a influência dos Estados Unidos sobre questões consideradas estratégicas, principalmente segurança, tráfico de drogas, migração e presença de governos adversários na região.

Por outro lado, países latino-americanos têm defendido tradicionalmente princípios como soberania nacional, não intervenção e solução diplomática de conflitos.

Brasil fica fora da coalizão liderada pelos Estados Unidos

Nesse cenário, o Brasil aparece entre os países que não integram a coalizão Shield of the Americas, criada pelo governo americano para ampliar a cooperação regional no combate aos cartéis.

Argentina, Equador, El Salvador, Colômbia e Peru estão entre os países que participam da iniciativa, enquanto Brasil e México ficaram de fora.

A posição brasileira ocorre em um momento de defesa do multilateralismo pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Horas antes do discurso de Trump, Lula havia afirmado na Assembleia Geral da ONU que a organização atravessa um dos momentos mais críticos de sua história recente e criticado a dificuldade do sistema internacional para impedir guerras e proteger populações vulneráveis.

Discursos de Trump e Lula evidenciam visões diferentes

A sequência dos pronunciamentos colocou em evidência diferenças entre as visões apresentadas pelos dois presidentes.

Enquanto Lula destacou o fortalecimento das instituições multilaterais, a negociação diplomática e o respeito ao direito internacional, Trump enfatizou a capacidade militar dos Estados Unidos e a necessidade de Washington proteger seus interesses estratégicos.

Nesse sentido, os discursos refletem duas abordagens distintas sobre a atuação internacional: uma centrada no fortalecimento das instituições multilaterais e outra baseada em maior demonstração de poder nacional.

A repercussão das declarações deverá ser acompanhada principalmente pelos governos latino-americanos, diante da possibilidade de novas ações americanas relacionadas ao combate ao narcotráfico e à segurança regional.

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