Quatro horas em um trajeto de uma hora e meia: trabalhadores narram sufoco no 2º dia de greve dos trens

A reportagem conversou com dezenas de passageiros que tentaram sair mais cedo de casa para contornar os efeitos da greve e não conseguiram.

Eram 8h33 quando o pedreiro Erasmo Carlos da Mata, 58, apontou para a tela do celular. “Estou três minutos atrasado”, disse, “e nem sei a que horas vou chegar”. Ele aguardava um trem na estação Engenheiro Goulart, na zona leste, terminal que opera as linhas 12-Safira e 13-Jade da CPTM. Ambas foram afetadas pela greve dos ferroviários.

Morador de Itaquaquecetuba, ele saiu às 5h de casa e ainda estava a 16 quilômetros de seu local de trabalho, o bairro Chácara Klabin, quando conversou com a reportagem.

O trajeto costuma levar uma hora e meia para ser concluído em dias comuns, mas se estendeu por mais de quatro horas nesta quarta-feira (5), segundo dia da greve dos ferroviários.

“Ontem eu avisei que não deu para ir. Hoje eu tive que me virar. O patrão não vai abonar meu dia“, afirmou.

Não é um sentimento isolado. A reportagem conversou com dezenas de passageiros que tentaram sair mais cedo de casa para contornar os efeitos da greve e não conseguiram.

O analista de trade marketing Gustavo Fagundes, 23, saiu de casa em Guarulhos por volta das 6h e ainda não havia chegado ao trabalho, no Tatuapé, quando conversou com a Folha de S.Paulo. “Geralmente levo meia hora; hoje já são mais de duas”, disse.

O mesmo aconteceu com o autônomo Gilson Pereira Souto, 57, morador de Itaquera. “Eu saí de casa um pouco mais cedo e ainda não cheguei a São Miguel Paulista, onde trabalho”, diz. A greve, na avaliação dele, “está prejudicando o povo que trabalha”.

Não é diferente para a cuidadora de idosos Rita de Cássia, 59. Moradora do Itaim Paulista, ela demora cerca de uma hora e quarenta minutos para chegar ao trabalho na Vila Madalena, percurso que nesta quarta superou três horas.

Para além da demora há a questão da ocupação. Os trens, segundo ela, chegam todos lotados à estação “e não dá nem para entrar”.

O temor do atraso que virou realidade para muita gente na terça continua a afligir trabalhadores nesta quarta.

“Ontem eu nem consegui chegar”, disse o cozinheiro Reginaldo da Silva, 43, morador de Ferraz de Vasconcelos. Ele até tentou se alocar num ônibus do Paese , mas sem sucesso. “Liguei no trabalho e falei que não seria possível.”

Ele espera que a greve termine o quanto antes, mas hoje ainda chegará atrasado ao trabalho. Ele só conseguiu desembarcar na estação Guaianases por volta das 4h40 e tinha ainda um longo percurso até a estação Barra Funda, seu horário de entrada no trabalho é às 5h.

Aos 54 anos, o sempre pontual Nailton Lins da Silva acordou mais cedo para evitar o atraso depois de também não conseguir trabalhar na terça. Ele mora em São Miguel Paulista e trabalha como porteiro em Mogi das Cruzes. Tal como os demais, ele não sabia a que horas chegaria ao trabalho quando conversou com a reportagem.

“Ontem compreenderam; hoje já não sei”, diz.

ESTAÇÕES DA CPTM CHEIAS

A estação Guaianases, para onde a CPTM direcionou o fluxo do Paese na linha 11-coral, amanheceu cheia. Os trens chegavam em intervalos regulares, mas saíam todos superlotados. Havia fila para entrar no terminal e andar por ali por volta das 6h30 se tornou praticamente impossível.

Cenário semelhante ocorria na estação Itaquera, que também registrou um grande fluxo de pessoas. Além de filas, muitos passageiros só conseguiam embarcar depois de o segundo ou terceiro trem passar, eles vinham de Guaianases já superlotados.

Na Engenheiro Goulart, por sua vez, passageiros reclamavam da demora. O momento de maior movimento foi no comecinho da manhã, mas o fluxo permanecia elevado volta das 8h. A maior parte se dispersava assim que o trem passava; outros, por sua vez, continuavam a esperar porque o intervalo entre um trem e outro na linha 13-Jade; que vai até Guarulhos, era de meia hora.

Em todas elas havia avisos sonoros nos altos-falantes a respeito da greve. O quadro de funcionários também foi reforçado ante a paralisação. Eles eram constantemente acionados por passageiros que buscavam orientações sobre o funcionamento dos trens.

LINHAS PARADAS

Às 6h10, os trens da linha 11 circulavam apenas entre as estações Barra Funda e Guaianases. Já os veículos da linha 12 circulavam entre as estações Brás e Engenheiro Goulart. Na linha 13 a circulação acontecia com intervalos maiores entre as estações Engenheiro Goulart e o Aeroporto de Guarulhos.

Os demais percursos são atendidos por ônibus do Paese (Plano de Apoio entre Empresas de Transporte frente a Situações de Emergência).

 

FUNCIONAMENTO DAS LINHAS

Linhas operando normalmente

– 1-azul

– 2-verde

– 3-vermelha

– 4-amarela

– 5-lilás

– 15-prata

– 7-rubi

– 8-diamante

– 9-esmeralda

– 10-turquesa

– 13-jade

Linhas com funcionamento parcial

– 11-coral: os trens estão circulando entre as estações Palmeiras-Barra Funda e Guaianases. O percurso entre as estações Guaianases e Estudantes é atendido pelo sistema Paese de ônibus em frente às estações.

– 12-safira: os trens estão circulando entre as estações Brás e Engenheiro Goulart. O percurso entre as estações Engenheiro Goulart e Calmon Viana é atendido pelo sistema Paese de ônibus em frente às estações.

Paese

A CPTM acionou 195 ônibus do sistema Paese, sendo 95 para atender os passageiros da linha 11-coral, 90 para os passageiros da linha 12-safira e dez para os da linha 13-jade.

Rodízio

O rodízio segue suspenso na cidade de São Paulo no segundo dia de greve.

 

 

ANDRÉ FLEURY MORAES / Folhapress

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