A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa uma das fases mais delicadas dos últimos anos, marcada por disputas comerciais, divergências políticas e novos atritos diplomáticos. Ao mesmo tempo, os dois países mantêm canais de negociação e interesses comuns em áreas como segurança, comércio e combate ao crime internacional.
A tensão ganhou novo capítulo em setembro de 2026, após a divulgação de informações sobre um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que aponta risco de influência ou interferência norte-americana nas eleições brasileiras deste ano. O documento também identifica uma tendência de aumento da pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil.
Além disso, as relações comerciais foram afetadas pela adoção de sobretaxas norte-americanas sobre produtos brasileiros. Dessa forma, questões econômicas passaram a se misturar com disputas relacionadas à política brasileira, às decisões do Judiciário e à atuação do governo de Donald Trump na América Latina.
Como começou a nova tensão entre Brasil e EUA
A relação entre Brasília e Washington já vinha passando por mudanças antes da atual crise. Em 2025, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump tiveram contatos que indicavam a possibilidade de manutenção de um diálogo direto entre os dois governos.
No entanto, a aproximação política não impediu o surgimento de divergências econômicas e institucionais.
Desde 2025, os Estados Unidos passaram a adotar diferentes medidas tarifárias que atingiram produtos brasileiros. Inicialmente, as decisões estavam associadas principalmente à política comercial norte-americana.
Posteriormente, porém, o relacionamento ganhou uma dimensão política mais evidente, especialmente diante das divergências envolvendo o governo brasileiro, o Judiciário e o processo envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Tarifas aumentaram a pressão sobre o comércio
Um dos principais pontos de conflito está relacionado às tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre mercadorias brasileiras.
Em julho de 2026, Washington estabeleceu uma sobretaxa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Em seguida, outra medida acrescentou 12,5% para mercadorias abrangidas por uma política norte-americana relacionada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias de produção.
As duas medidas podem atingir simultaneamente determinados produtos, elevando a sobretaxa acumulada para 37,5% em alguns segmentos. Entre os setores afetados estão máquinas e equipamentos, madeira, móveis, calçados, confecções e outros produtos.
Apesar disso, uma parcela significativa das exportações brasileiras para os Estados Unidos permaneceu fora dessas sobretaxas específicas. Segundo dados oficiais divulgados em julho, aproximadamente 52,7% das exportações brasileiras para o mercado norte-americano não estavam sujeitas às novas sobretaxas setoriais ou específicas naquele momento.
Impacto no comércio entre os dois países
O cenário tarifário ocorre em um momento de redução das trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
As exportações brasileiras para o mercado norte-americano chegaram a US$ 40,4 bilhões em 2024, mas recuaram para US$ 37,7 bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, os embarques somaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Por consequência, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras também diminuiu. O mercado norte-americano representava 12,1% das exportações brasileiras no primeiro semestre de 2025 e passou a responder por 9,4% no mesmo período de 2026.
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Lula e Trump mantêm canal de diálogo
Apesar dos conflitos, Brasil e Estados Unidos continuam mantendo conversas diplomáticas.
Lula e Trump conversaram por telefone em agosto, em uma ligação que durou cerca de uma hora e 20 minutos. O contato abriu caminho para a retomada das negociações comerciais entre as equipes dos dois governos.
Em seguida, representantes brasileiros e norte-americanos voltaram a discutir as tarifas. Uma nova rodada de conversas entre integrantes dos dois países também foi prevista para o encontro do G20, marcado para o fim de setembro e o início de outubro nos Estados Unidos.
Nesse sentido, a relação entre os dois governos apresenta uma combinação de confronto e negociação. Enquanto Brasília contesta medidas consideradas prejudiciais aos interesses brasileiros, também busca preservar o diálogo para tentar reduzir os impactos econômicos.
Divergências políticas entraram na relação bilateral
Além das tarifas, questões relacionadas à política brasileira passaram a fazer parte da agenda diplomática entre os dois países.
O governo norte-americano manifestou críticas relacionadas a decisões tomadas pelo Judiciário brasileiro, especialmente em processos envolvendo redes sociais e a investigação sobre a tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022.
Ao mesmo tempo, autoridades dos Estados Unidos passaram a manifestar apoio à interpretação de que o ex-presidente Jair Bolsonaro seria alvo de perseguição política. O governo brasileiro, por outro lado, sustenta a independência das instituições nacionais e a legitimidade dos processos conduzidos pela Justiça.
A divergência ganhou dimensão internacional e passou a influenciar também as relações econômicas.
O que o alerta sobre as eleições significa
Outro ponto de atenção é o cenário eleitoral brasileiro de 2026.
Um relatório reservado da Abin encaminhado a autoridades brasileiras apontou risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições deste ano e identificou uma tendência de escalada da pressão norte-americana sobre o Brasil.
A avaliação ocorre em meio às medidas comerciais e políticas adotadas pelo governo Trump e à disputa pela influência dos Estados Unidos na América Latina.
Entretanto, a existência de um alerta de inteligência não significa que uma interferência eleitoral tenha sido comprovada. O documento trata de risco e avaliação de cenário, e não de uma conclusão de que determinada ação de interferência já tenha ocorrido.
Brasil busca preservar relações comerciais
Apesar das divergências, os Estados Unidos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil.
Por isso, o governo brasileiro mantém as negociações para tentar reduzir os efeitos das tarifas e preservar o fluxo de exportações.
Além disso, os dois países possuem interesses comuns em áreas estratégicas, como combate ao tráfico internacional de armas e drogas, segurança e cooperação econômica.
Em abril de 2026, Brasil e Estados Unidos anunciaram medidas de cooperação voltadas ao combate ao tráfico internacional de armas e drogas. Posteriormente, o tema também foi levado para as conversas entre Lula e Trump.
Relação entre Brasil e EUA entra em período de incerteza
Diante desse cenário, a relação entre Brasil e Estados Unidos combina interesses econômicos importantes com divergências políticas cada vez mais visíveis.
De um lado, Washington utiliza instrumentos comerciais e diplomáticos para pressionar o governo brasileiro. Por outro, Brasília procura defender seus interesses econômicos e a autonomia das instituições nacionais, enquanto mantém aberto o canal de negociação.
Ao mesmo tempo, o cenário eleitoral brasileiro acrescenta uma nova variável à relação bilateral.
Portanto, os próximos meses devem ser marcados pela continuidade das negociações comerciais, pela disputa diplomática e pelo acompanhamento das eleições brasileiras. A evolução desses três fatores será determinante para definir o nível de tensão entre os dois países e os efeitos sobre empresas, exportadores e setores estratégicos da economia.




