Na canção brasileira, assim como em outras formas de arte, histórias vividas frequentemente servem como matéria-prima para compositores transformarem experiências humanas em obras que ganham uma dimensão coletiva e universal.
E talvez seja justamente isso que torne certas músicas tão marcantes: a sensação de que existe uma vida verdadeira pulsando por trás de cada verso.
Ao longo das décadas, a MPB colecionou canções inspiradas em personagens reais, romances intensos, despedidas dolorosas, acontecimentos históricos e episódios que marcaram a trajetória de seus autores.
Algumas narrativas ficaram explícitas; outras foram revestidas de poesia, metáforas e interpretações abertas. Ainda assim, todas carregam fragmentos de realidade que ajudaram a construir a força emocional dessas obras.
Nesta seleção, reunimos 10 músicas brasileiras que nasceram de histórias reais e revelam como a música também pode funcionar como memória, documento afetivo e retrato do tempo em que foi criada.
1 – Gentileza – Marisa Monte
Composta por Marisa Monte e lançada no inesquecível álbum “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”, a canção “Gentileza” foi inspirada no famoso Profeta Gentileza, figura icônica da cidade do Rio de Janeiro.
Na verdade, José Datrino – que depois ficou conhecido como Profeta Gentileza – nasceu no interior do Estado de São Paulo, na cidade de Cafelândia, em 1917.
Na infância, ele lidava diretamente com a terra e com os animais. Para ajudar a família, puxava uma carroça, vendendo lenha nas proximidades.
Por volta dos 13 anos de idade, passou a ter premonições sobre ter uma missão na terra, acreditando que, um dia – depois de constituir família, filhos e bens – deixaria tudo isso em prol de sua missão. Este comportamento causou preocupação em seus pais, que chegaram a suspeitar que o filho sofria de algum tipo de loucura, chegando a buscar ajuda em curandeiros espirituais.
Depois de um tempo, José Datrino mudou-se para o Rio de Janeiro, constituiu família e tornou-se empresário, dono de uma transportadora de cargas no bairro de Guadalupe.
Até que, no dia 17 de dezembro de 1961, quando José estava com 44 anos, ocorreu – na cidade de Niterói – a tragédia do Gran Circus Norte-Americano, considerada uma das maiores fatalidades em todo o mundo circense. Foi um grande incêndio no circo, em que morreram mais de 500 pessoas, a maioria, crianças.

Seis dias após o acontecimento, José Datrino acordou alegando ter ouvido “vozes astrais”, segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual.
Ele pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio, afirmando ver – no circo destruído – uma metáfora para o que estava acontecendo no mundo, com a brutalidade de nosso sistema de relações. E anunciava que a “gentileza é o remédio para todos os males”.
José Datrino plantou um jardim e uma horta sobre as cinzas do circo e aquela foi sua morada por quatro anos. Como um consolador voluntário, confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade, apresentando o real sentido das palavras “agradecido” e “gentileza”. Foi a partir daí que passou a se chamar José Agradecido ou Profeta Gentileza.
Após deixar o local, que ficou conhecido como “Paraíso Gentileza”, o Profeta Gentileza começou a sua peregrinação e a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970, passou a percorrer as cidades do Rio de Janeiro e de Niterói com sua longa barba e uma túnica branca, levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho, além de oferecer-lhes flores.
Entre suas principais mensagens, a famosa frase: “Gentileza Gera Gentileza”. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: “Sou maluco para te amar e louco para te salvar”. O Profeta Gentileza fez isso por mais de 20 anos.
A partir de 1980, Gentileza escolheu 56 pilastras do Viaduto do Gasômetro ou do Caju – que vai do Cemitério do Caju até o Terminal Rodoviário do Rio de Janeiro, em uma extensão de aproximadamente 1,5 km – e as encheu de inscrições em verde-amarelo, propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização.
Os murais eram como um livro a céu aberto sobre o concreto, e ficaram muito famosos no Rio de Janeiro, por estarem bem na entrada da cidade carioca, para quem chegava de ônibus ou de carro.
O Profeta Gentileza faleceu em 1996, aos 71 anos, e – com o decorrer dos anos – os murais foram sendo danificados por pichadores, sofreram vandalismo, e – mais tarde – foram cobertos com tinta de cor cinza pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro.
Marisa Monte – como boa carioca – sempre amou ver as inscrições de Gentileza nas ruas da cidade, ficava fascinada com aquilo desde criança. Certa vez, em 1998, a cantora estava passando pela área do Cais do Porto com seu amigo e parceiroCarlinhos Brown e quis mostrar para o baiano algo especial da sua cidade, que ela sabia que ele ia gostar.

Foi quando procurou pelos pilares do Viaduto do Caju, os escritos de Gentileza. Quando chegou ao local e descobriu que eles haviam sido apagados pela Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro, ficou desolada, pensando nos inúmeros significados desse ato para uma metrópole como o Rio. O legado do Profeta Gentileza havia desaparecido para sempre. Na mesma noite, Marisa compôs “Gentileza”.
A eliminação das inscrições foi criticada por diversas pessoas e organizações. A voz de Marisa Monte se uniu a muitas outras – como a do professor Leonardo Gelman, da ONG Rio Com Gentileza, e a obra do Profeta foi recuperada por artistas e restauradores a partir do ano 2000, sendo tombada como patrimônio urbano pelos órgãos de proteção da prefeitura da cidade carioca e voltando a fazer parte do inventário afetivo do Rio de Janeiro, apesar de já ter sofrido outros atos de vandalismo depois disso.
O videoclipe da canção Gentileza mostra cenas do cotidiano do Rio de Janeiro, incluindo Marisa dentro de um ônibus que passeia pela cidade e também imagens do próprio Gentileza, andando pelas ruas do Centro, carregando sua mensagem para o povo. As pilastras com suas inscrições também aparecem no clipe.
Nós que passamos apressados pelas ruas da cidade, merecemos saber mais sobre a história do Profeta Gentileza, que inspirou uma das cantoras mais importantes da nossa MPB a compor essa verdadeira poesia musical.
2 – Um Dia Um Adeus – Guilherme Arantes
O ano era 1984 e Guilherme Arantes, já com uma carreira muito consolidada e sempre no topo das paradas, estava com uma de suas músicas na trilha da novela das oito da Rede Globo: “Partido Alto”.
Por conta disso, o cantor foi convidado a fazer um clipe para o Fantástico desta música, chamada “Fio da Navalha”. Quando chegou para a gravação, porém, Guilherme ficou sabendo que teria que dar um beijo na mocinha do clipe, a modelo e atriz Silvia Pfeifer.
Temendo a reação da sua esposa na época, Luiza, mãe de três dos seus filhos, Guilherme Arantes ligou para a companheira para avisá-la que teria que dar aquele selinho, pedindo sua permissão e dizendo que era algo profissional, que – inclusive – a Silvia estava acompanhada do marido dela também e que – se Luiza quisesse – podia ir até o set de filmagem acompanhar as gravações.
Acontece que Luiza não esperava que o marido precisasse beijar alguém em um clipe, afinal, ele era cantor e não ator, mas isso também era bastante comum na época: que cantores contracenarem com atrizes em seus clipes.
Por fim, resposta de Luiza, no entanto, não foi das mais animadoras: “Se você beijá-la, não precisa voltar para casa”.
Mesmo com a negativa da esposa, Guilherme Arantes gravou o clipe, e – para tentar amenizar sua situação – compôs uma música em que pedia desculpas e declarava o amor pela companheira.
“Um Dia, Um Adeus” entrou para o álbum “Guilherme Arantes”, de 1987 e tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Guilherme Arantes, e a esposa acabou entendendo que aquela cena fazia parte do trabalho de Guilherme e os dois fizeram as pazes.
3 – Solidão Que Nada – Cazuza (Cazuza, Nilo Romero e George Israel)
Na época em que passou a ser baixista e depois produtor de Cazuza, o músico Nilo Romero dividia casa com o então saxofonista do Kid Abelha e também compositor carioca George Israel.
George já havia composto uma música em parceria com Cazuza e Frejat – “Amor Amor” – que entrou na trilha do filme “Bete Balanço”, dirigido por Lael Rodrigues, em 1984.
A música tema do filme, composta só por Cazuza e Frejat, foi a música que fez com que o Barão Vermelho (banda dos dois na época) estourasse para o Brasil inteiro.
Depois dessa primeira composição juntos, George Israel e Cazuza firmaram uma parceria de sucesso. A segunda música que Cazuza pediu que George compusesse para que ele colocasse letra foi em parceria com Nilo Romero: “Solidão Que Nada”, que entrou para o segundo álbum solo do artista, “Só Se For a Dois”, de 1987.

Esta foi a primeira parceria entre Cazuza e Nilo. E a letra de Cazuza foi – inclusive – inspirada no baixista. Um dia, quando eles estavam no aeroporto voltando de alguma turnê do Cazuza com a banda toda, Nilo Romero – que tinha conhecido uma moça durante a viagem – estava se despedindo dela com um beijo apaixonado, quando escutou seu nome no alto-falante do aeroporto: “Senhor Nilo Romero, voo 427 para o Rio de janeiro, embarque imediato!”.
Nilo continua a narrar a história, no livro “Cazuza – Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta” (Globo, 2001):
“- Tchau, a gente se vê.
– Ah! E o telefone?
– Tem um papel?
– Tenho.
– Cadê a caneta?
– Então tá.
Saio correndo, subo as escadas e, finalmente, entro no avião. Me deparo então com todos os passageiros olhando para mim com aquela cara de reprovação.
Procuro então com meu olhar os companheiros de banda, em busca de alguma cumplicidade. Estava atrasado, mas, afinal era por uma boa causa! Não adiantou. Estava todo mundo puto, a fim de ir logo embora pra casa. Tudo bem, então vamos sentar. Mas cadê o meu lugar? Só tinha um lugarzinho no meio, e quem me conhece sabe que odeio viajar no meio. Sou meio claustrofóbico e gosto mesmo é de corredor.
Sentado numa das poltronas do corredor, observando tudo, estava Cazuza, uma das únicas pessoas de bom humor naquele avião. Ele sabia que eu detestava a poltrona do meio.
– Nilo Romero! (ele tinha a mania de chamar as pessoas pelo nome e sobrenome).
Trocamos. Na passagem, eu deixo cair um papel do bolso (o papel com o telefone da moça). Cazuza pega, olha, me sacaneia e pronto. Ele iria chegar em casa e fazer uma de suas maravilhosas letras. Desta vez seria uma road song. Uma homenagem à vida na estrada, com todo seu glamour e vazio.”.
Eis a belíssima letra que o poeta Cazuza compôs em cima da música de Nilo Romero e George Israel e inspirado por esse episódio do aeroporto:
4 – Proibida pra Mim – Charlie Brown Jr. (Chorão)
A história da música “Proibida pra Mim” se mistura com a história da vida do seu compositor, Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr., banda que lançou essa música no seu álbum de estreia: “Transpiração Contínua Prolongada”, em 1997.
Isso porque essa música – que é um dos maiores sucessos da banda e do rock nacional – é baseada na história de amor entre Chorão e Graziela Gonçalves, sua esposa até 2012, pouco tempo antes de Chorão falecer.
Chorão nasceu em São Paulo e mudou-se para Santos, no litoral paulista, antes de completar 20 anos. Foi lá que ele conheceu – primeiro o baixista Champignon – e depois o baterista Renato Pelado e os guitarristas Marcão Britto e Thiago Castanho e formou a banda que, em 1992, viria a se chamar Charlie Brown Jr.
Foi também em Santos que Chorão passou a se interessar pela prática do skate, chegando a figurar nas melhores posições do ranking de vários campeonatos brasileiros. Foi no skate também que ele recebeu o apelido que virou seu nome artístico:
“A galera do skate sempre bota apelidos e tal, e eu era meio tímido, ficava só olhando. Então, passou um cara um dia e falou, ‘Pô, não chora, anda de skate’. Aí passou outro, ‘Não chora, anda de skate’. Aí pegou Chorão. Eu comecei a andar, mas o Chorão ficou”, contou Chorão em uma entrevista ao“Programa do Jô”.
Em 1993, a banda gravou sua primeira demo e começou a tocar no circuito underground de Santos e São Paulo e fazer shows em vários campeonatos de skate.
Pouco tempo depois, em 1994, Chorão conheceu Graziela Gonçalves e ficou muito interessado nela.
Acontece que – antes de conhecer a futura companheira – Chorão era um cara muito conhecido na cidade por ser mulherengo e também encrenqueiro. Em seu livro “Se não eu, quem vai fazer você feliz?: Minha história de amor com Chorão“, de 2018.

Graziela descreve o Chorão dessa forma:
“Ele era diferente de tudo que a cidade já tinha visto. Imagine um cara bonito, com cabelo comprido, baita corpão, que andava pelas ruas sem camisa, com skate no pé, fazendo manobras a cada esquina, carregando uma caixa de som no ombro e sem nenhum pudor de chamar atenção. Os caras morriam de inveja e a mulherada pirava. O currículo do cara já incluía um casamento que não tinha dado certo, um filho pequeno e uma confusão a cada fim de semana. E ele só tinha 20 e poucos anos. Dá para entender o meu medo?”.
Uma amiga da Graziela namorava o irmão do Chorão e queria apresentar os dois, mas ela negava, em parte por causa dessa fama que o Chorão tinha lá em Santos. A Grazi não era de uma família rica e tinha a impressão de que o Chorão só gostava de patricinhas (ele gostava mesmo, aliás escreveu diversas músicas sobre isso: “Tudo que ela quer, o pai dela dá Desde casa em Ubatuba, apê no Guarujá”).
Então, a Grazi não quis saber do Chorão. Até que um dia, ela estava caminhando com a mãe entre os Canais 4 e 5 em Santos, e o Chorão passou por ela. Segundo ela descreve no livro, foi “aquele momento Doug Funny e Paty Maionese” (casal fofo e apaixonado da série “Doug Funny”, dos anos 90).
Apesar desse encontro, não rolou nada entre eles. Chorão e Grazi chegaram a se encontrar em uma festa, ele a convidou para ver um show da banda dele, mas acabou não dando certo e eles só foram ter a primeira conversa mesmo em um lugar chamado World Rock, lá em Santos.
Esse encontro inspirou o primeiro verso de “Proibida pra Mim”: assim que ela entrou nessa balada, viu um cara alto encostado no balcão de costas para ela. Sem saber quem era, Grazi conta que ela não sabia quem era, mas ele tinha o cabelo desalinhado na altura do ombro e uma mecha vermelha que brilhava com a luz que vinha na direção contrária.
“Sem pensar, num impulso inexplicável, fui direto até ele, peguei naqueles fios vermelhos e disse: ‘- Nossa, o seu cabelo é vermelho fluorescente!’”, conta Grazi.
Quando o cara se virou, era o Chorão. É daí que surgiu o verso: “Ela achou o meu cabelo engraçado”. Os dois ficaram conversando a madrugada inteira, falaram sobre cinema, música… e quando deu quatro horas da manhã a Grazi disse que precisava ir embora. Mesmo o Chorão insistindo muito, ela “Disse que não podia ficar”.
Chorão pediu o telefone da Grazi, mas ela não quis dar porque tinha um namorado, e por isso não podia ficar (“Proibida pra mim, no way”). Acontece que era um namoro que já não estava muito legal e – quando o namorado foi buscá-la na balada, a primeira coisa que Grazi fez foi ter uma conversa com ele e terminar o namoro.
Isso aconteceu em um sábado e no domingo o Chorão conseguiu o telefone da Grazi e ligou pra casa dela. Estava rolando um ensaio do Charlie Brown Jr. e no intervalo ele convidou ela para comer uma pizza, coisa que não aconteceu.

Nessa época, a banda ainda não tinha conquistado muito espaço, fazia um som mais pesado, inspirado na banda norte-americana de heavy metal Pantera, e o Chorão cantava letras em inglês.
Passaram-se alguns dias, até que o Chorão resolveu ligar para a Grazi dizendo que precisava conversar com ela e pedindo para que ela fosse até a casa dele. Ele queria abrir o jogo com ela (“Eu me flagrei pensando em você e em tudo que eu queria te dizer”) e foi assim que aconteceu:
Eles sentaram no sofá e a conversa foi assim: “Eu sei que a minha fama nessa cidade não é das melhores e estou te falando tudo isso porque eu quero que você saiba bem quem eu sou antes de qualquer coisa. Estou contando tudo isso porque você é diferente de todas as meninas que eu já conheci e eu quero começar as coisas direito com você. Eu te acho maravilhosa, você é linda, é inteligente, você é poesia em movimento.”.
Foi assim que Chorão declarou que estava apaixonado por Grazi e ali no sofá da casa dele rolou o primeiro beijo do casal, que já começou a namorar naquele instante, ficando juntos até 2012.
A Graziela revela também que o Chorão tinha um escudo de bad boy, de cara malvadão e encrenqueiro, mas por trás desse escudo havia um homem muito sentimental. Então o título “Proibida pra Mim” também tem a ver com a impressão que ele tinha de que ela não ia dar bola para um cara com aquela fama, e que ia preferir um cara mais certinho. Por isso, ele acabou fazendo de tudo o que podia para conquistá-la.
Chorão foi inserindo a companheira dentro do universo do skate, em que ele vivia desde quando morava em São Paulo, e uma das coisas que ele explicou para ela é que a galera da turma dele no skate tinha o hábito a turma dele de colocar um “on” no final das palavras para transformar aquilo em piadas internas. Por isso ele passou a chamá-la de “Grazon” e por isso que o título original da música é “Proibida pra Mim (Grazon)”.
Antes de escrever essa música, entre 1995 e 1996, a banda Charlie Brown Jr. passou por uma mudança de direcionamento musical: saíram daquele som mais pesado para um som com mais groove e mais balanço, sendo a própria Grazi determinante para essa mudança, pois foi ela quem apresentou pro Chorão o disco “Usuário” da banda Planet Hemp.
Tempos depois, o Charlie Brown Jr. acabou abrindo um show do Planet Hemp em Santos e foi no dia desse show que o Chorão entendeu que eles precisavam escrever sobre a realidade deles e não tentar imitar uma realidade de fora, americana, que é o que a banda vinha tentando fazer.
Foi a partir daí que ele decidiu parar de escrever músicas em inglês e começar a fazer músicas em português, produzindo intensamente. Chorão escrevia letras longas em qualquer pedaço de papel que encontrava. “Proibida pra Mim”, por exemplo, ele escreveu em uma caixa de pizza como conta o filho de Chorão no documentário “Marginal Alado”, de 2021.
Chorão fez uma surpresa pra Grazi e não quis mostrar “Proibida pra Mim” para elaaté que a música estivesse pronta: “O Alê fez um grande mistério enquanto estava compondo, tinha que ser uma surpresa. Na hora em que ele me mostrou, a gente estava dando uma volta pela avenida da praia com a minha vespa, ele guiando e eu na garupa. Ele falou para eu pegar o discman no bolso dele, era o Alê expressando – em forma de melodia – o quanto queria me fazer feliz. Foi um dos instantes mais felizes da minha vida.”.
Com essa e outras composições, já com um novo estilo, a fita demo do Charlie Brown Jr. chegou ao produtorT adeu Patolla, que gravou uma nova fita da banda, que foi parar nas mãos do Rick Bonadio, um dos principais produtores do rock nacional nos anos 90, que tinha no currículo o fato de ter produzido os Mamonas Assassinas.
Charlie Brown Jr. conseguiu então um contrato com a gravadora Virgin e lançou seu primeiro disco “Transpiração Contínua Prolongada”, em 1997, tornando-se um fenômeno nacional e transformando o cenário musical da época.
A regravação mais icônica de “Proibida pra Mim” é de Zeca Baleiro, que a incluiu em uma versão voz e violão no seu álbum “Líricas”, de 2000, e o maranhense na época foi muito criticado pelos fãs do rock por sua belíssima versão.
Zeca Baleiro foi inclusivevaiado quando tocava “Proibida pra Mim” em 2001, no Festival Planeta Atlântida, em Florianópolis. Acontece que, nesta mesma noite, quem tocava no mesmo festival era o Charlie Brown Jr. e o Chorão chamou o Zeca no palco para cantar a música com ele e mostrar o quanto ele deveria ser respeitado pelos fãs de rock.
Em 2003, Chorão e a Graziela se casaram e – por sugestão da mãe dela – o casal convidou Zeca Baleiro para tocar “Proibida para Mim” durante a cerimônia!
5 – Ouro de Tolo – Raul Seixas
No início dos anos 60, Raul Seixas montou sua primeira banda de rock, Os Panteras, que fez certo sucesso em Salvador, e depois começou a tornar-se conhecida no resto do país, ao acompanhar alguns ídolos da Jovem Guarda – que estavam bombando na época – em seus shows.
Em 1967, Raul e sua banda aceitaram o convite do cantor Jerry Adriani para ir para o Rio de Janeiro, onde gravaram o seu primeiro e único álbum no ano seguinte, Raulzito e Os Panteras.
Raul assinava oito das 12 canções, mas o disco não foi sucesso nem de crítica, nem de público. A banda pensava em qualidade musical, mudança de conceitos, sonhos e agnosticismo (Raul Seixas era agnóstico, tendo a crença de que a capacidade humana é incapaz de saber se existem ou não divindades, pois elas são muito além da compreensão do ser humano), mas – ao mesmo tempo – tinha que se adequar a um mercado fonográfico.
Com isso, Raul e os Panteras passaram por muitas dificuldades no Rio de Janeiro, chegando a passar fome (como conta na canção “Ouro de Tolo“), mesmo tocando como banda de apoio do seu grande e primeiro incentivador, Jerry Adriani, em seus shows pela Jovem Guarda – o que fez com que Raul Seixas ganhasse bastante experiência.

O baiano ficou bem abalado com o não sucesso da banda e voltou para Salvador. Mas, logo conheceu um diretor da CBS Discos – mais uma vez com a ajuda de Jerry Adriani – e foi convidado para voltar ao Rio e trabalhar como produtor musical na gravadora, usando todo o seu conhecimento e talento.
Era nesse emprego como produtor musical da CBS que Raul ganhava os “quatro mil cruzeiros por mês” citados na letra de “Ouro de Tolo”.
Durante o tempo em que trabalhou como produtor, Raul fez muitos amigos, contatos e parceiros. Artistas de peso na época começaram a gravar as composições do baiano e também a ser produzidos por ele, como – além de Jerry Adriani – Leno (da dupla Leno e Lilian), Renato e seus Blue Caps e Ed Wilson (todos daJovem Guarda), além de Odair José.
Muitas composições de Raul Seixas – ainda conhecido como Raulzito – viraram hits nas vozes de outros artistas da CBS Discos.
Mas Raul queria mais. E podia mais. Muito mais. No começo dos anos 70, gravou discos em parceria com Sérgio Sampaio e também com Leno, buscando novos caminhos e experimentações, ambos censurados pela ditadura por conta das letras.
Mais uma vez, seus discos não tiveram boa aceitação do público e nem da crítica: Raul Seixas ainda era incompreendido em sua genialidade.
Aí que vem o ponto da virada! Em 1972 – já não mais produtor da gravadora – Raul foi convencido por Sérgio Sampaio a participar do VII Festival Internacional da Canção. O cantor compôs duas músicas: a clássica “Let Me Sing, Let Me Sing” (genial mistura de rock e baião), defendida por ele mesmo, e “Eu Sou Eu e Nicuri é o Diabo”, defendida por Lena Rios & Os Lobos.
Ambas chegaram à final, obtendo sucesso de crítica e de público e fazendo com que Raul fosse contratado – agora como artista – pela gravadora Phillips.
Em 1973, ele lançou seu primeiro disco solo, “Krig-Ha, Bandolo!”, que conta com a clássica canção “Ouro de Tolo”, em que ele relata em forma de crônica – com uma letra bastante autobiográfica – sobre seu tempo de fome e dificuldades quando chegou ao Rio de Janeiro.
Raul dizia ter tido inspiração para compor depois de ter passado uma tarde de meditações e visões de um disco voador.
O título da canção, “Ouro de Tolo”, é uma expressão que existe mesmo: há um mineral chamado pirita, que é formado pela união de um átomo de ferro com dois átomos de enxofre. Essa combinação resulta em um metal dourado, mas não tão dourado quanto o ouro.
Só que muitas pessoas não sabem fazer essa diferenciação e – ao longo da história – muita gente comprou a pirita pensando que era ouro, ou então encontrou a pirita na natureza e tentou vender achando que era ouro, daí vem a expressão “Ouro de Tolo”.
Raul Seixas tambémse inspirou no costume dos falsos alquimistas que, na idade média, prometiam transformar chumbo em ouro,eapresentou uma crítica ácida sobre os sonhos e anseios patéticos da sociedade, em uma letra repleta de críticas sociais e econômicas.
A canção “Ouro de Tolo” é um deboche e um ataque ao conformismo do país a respeito das ilusórias vantagens oferecidas pela ditadura militar e seu “milagre econômico”, e o disco voador seria uma referência a uma nova sociedade a ser construída, com despertar da consciência individual, visando à construção do que futuramente o cantor (junto com seu parceiro Paulo Coelho) chamaria de “Sociedade Alternativa”.

Uma outra curiosidade é que, nesta época, o Raul Seixas tinha mesmo conseguido comprar um carro Corcel 73.
Só que, da primeira vez que “Ouro de Tolo” foi gravada – em duas versões , dentro de compacto lançado pouco antes do primeiro álbum de Raul – uma das versões da canção não citava a marca do carro, trocando a frase “Eu devia estar feliz porque consegui comprar um Corcel 73” por “Eu devia estar feliz porque consegui comprar meu carrão 73”.
Acredita-se que isso foi feito para que não houvesse propaganda gratuita para o Corsel quando a música fosse executada em programas de TV.
Outra curiosidade sobre a canção – contada por Jotabê Medeiros, no livro “Raul Seixas – Não Diga que a Canção está Perdida”, de 2019, é que Raul realmente foi ao zoológico com a família antes de compôr “Ouro de Tolo” e viu uma mulher de casaco de pele, meia e sapato jogando pipoca na jaula dos macacos.
Em reação à atitude da mulher, um macaco jogou fezes em direção a ela, o que fez o nosso Maluco Beleza dar muita risada, transformando aquela cena também em uma ácida crítica social.
6 – Identidade – Jorge Aragão
A canção “Identidade”, lançada por Jorge Aragão em 1992, no seu álbum “Chorando Estrelas”, é uma importantíssima crítica social em ritmo de samba e foi adotada como hino antirracista nas rodas de pagode.
Mas, para seu autor, ela originalmente narrava apenas um episódio de racismo que passou.
Em entrevista à Billboard Brasil, em janeiro de 2024, Jorge Aragão declarou:
“É uma das poucas músicas que eu lembro exatamente como escrevi, mas nunca imaginei que se tornaria tema de um movimento racial. (…) Estava na rua Duque de Caxias com a alameda Barão de Limeira, no centro de São Paulo.
O produtor de um show me deixou num hotel e disse que voltaria com o dinheiro para me pagar. Já estava meio assim, porque ficou uma situação de ele me chamar de neguinho, o que até hoje quero pensar que não foi com maldade.
Eu saí do Rio só com o dinheiro da ida. E eu fiquei dependendo do hotel para tudo: dormir, comer. Tudo. E eu estava preso ali, sem dinheiro para nada. Eu fui lá para trabalhar e fui tratado daquela forma. Mas, no final das contas, ele acabou me pagando.
Escrevi totalmente inconsciente do que ela representa atualmente. Hoje, eu componho conscientemente. Não quero ser precursor de militância, mas percebi que não era só ‘Identidade’ que tinha esse sentido político. Fui notar porque muitas pessoas me disseram: ‘Isso é tudo o que a gente precisava’.”.
“Identidade” é um manifesto à discriminação racial, com uma letra que fala por si só: usando o exemplo dos elevadores de serviço e social, Jorge Aragão critica os espaços em que pessoas pretas são sempre tomadas como empregadas e subservientes.
O músico deixa um recado de resistência para essa imposição racista, falando do sofrimento daqueles que foram escravizados: Jorge lembra que a resistência faz parte da história do povo preto, afinal, que desde sempre teve que lutar por liberdade, igualdade e respeito.
7 – Dona – Sá & Guarabyra
Originalmente composta e apresentada por Sá & Guarabyra no Festival de Música Popular Brasileira de 1982, a música “Dona” ganhou projeção nacional e tornou-se um dos maiores hits da MPB quando foi regravada três anos depois – em 1985 – pelo grupo Roupa Nova, para integrar a trilha sonora da novela “Roque Santeiro”, da TV Globo, tendo sido a segunda canção mais tocada desse ano nas rádios do Brasil.
O curioso é que o grupo não queria gravar a canção e quem insistiu (quase forçou) o Roupa Nova a gravar “Dona” foi o produtor Mariozinho Rocha.
Mas o que poucos sabem é que a inspiração para a letra da música “Dona” nasceu de uma história de amor real e arrebatadora, vivida por Guarabyra – compositor da canção ao lado de Luiz Carlos Sá – no final dos anos 1970.
Foi se apresentando no bar Dama da Noite, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, que o músico conheceu Marisa Saad – filha de Johnny Saad e herdeira do grupo Band, hoje presidente do Instituto Band) – então uma estudante de veterinária que organizava festivais universitários em Jaboticabal, no interior do estado.
Marisa estava em busca de artistas para um evento da faculdade, e foi assim que encontrou Guarabyra. Os dois iniciaram um relacionamento que – marcado por idas e vindas – durou cerca de 10 anos.
Certo dia, já com a dupla Sá & Guarabyra, o compositor tinha ido fazer um show em Goiânia e estava descansando no hotel. Guarabyra ao pegar no sono, sonhou com o seu amor e – no próprio sonho – também vieram os acordes, a melodia e parte da letra de “Dona”.
Guarabyra se levantou depressa e foi tocar a harmonia ao violão para ver se de fato os acordes eram aqueles com os quais ele havia sonhado: e eram! Ele foi então chamar o companheiro musical Sá, para que, juntos, concluíssem a canção.
Sá contou em entrevista que estava hospedado no quarto de cima de Guarabyra e não atendia as suas ligações porque estava no telefone com uma namorada. Guarabyra então ficou batendo no chão do quarto de Sá com um cabo de vassoura, até que ele o atendesse. Terminam a música “Dona” em menos de 20 minutos.
“Dona” é, no fundo, uma carta de amor, cheia de saudade, intensidade e história.
Mais tarde, Marisa Saad revelou em entrevistas que a música é um retrato fiel de sua personalidade: “Como na canção, tenho um lado tirano e um lado meigo”. E completa: “O Gut[apelido de Guarabyra] foi uma paixão muito louca”.
Já Guarabyra brinca que: “A ‘Dona’ tinha ciúme da ‘Espanhola’”, em referência à outra canção marcante de sua carreira, inspirada por outra mulher que também marcou sua vida.
8 – Anna Júlia – Los Hermanos (Marcelo Camelo)
A banda Los Hermanos surgiu em 1997, na cena underground carioca, inspirada em outras bandas também alternativas nacionais e internacionais.
Marcelo Camelo (voz e guitarras), Rodrigo Barba (bateria), Bruno Medina (teclados), Rodrigo Amarante (voz e guitarras) e Patrick Laplan (baixo), além do produtor Alex Werner, estudavam na PUC-RJ e se conheceram na faculdade.
Eles costumavam se reunir em frente à escada principal da sede do Departamento de Comunicação da PUC e, do outro lado, costumava sentar-se Anna Júlia Werneck, estudante do curso de Jornalismo, de 19 anos.
O ano era 1998, e Alex nutria uma paixão platônica por Anna Júlia, mas não tinha coragem de se aproximar. Todos os amigos sabiam daquela paixão e – empolgado com a sonoridade do nome da estudante – Marcelo Camelo acabou escrevendo uma música sobre a situação para ajudar o amigo a se aproximar.
A canção era bastante despretensiosa e tinha uma inspiração nas canções da Jovem Guarda. Tanto que Rodrigo Amarante anos depois – em 2019 – deu uma declaração ao portal UOL dizendo que “Anna Júlia” era uma “piada“.
Na época em que a música foi feita, a Anna Júlia ia aos shows dos Los Hermanos, viu a música ser executada e ficou sabendo que a canção era pra ela. Mas Alex ainda demorou pra se declarar e eles – ambos muito tímidos – acabaram ficando apenas por uma noite.

Quando a banda assinou contrato com a gravadora Abril Music, em 1999, “Anna Júlia” foi naturalmente procurada para ajudar a promover a canção. No entanto, a jovem só ficou sabendo de certos detalhes da composição pela mídia:“Como o Alex não conversava comigo, e eu também era muito tímida, só fomos discutir nossa relação por entrevista. Eu só fui descobrir na primeira entrevista que quem tinha feito a música tinha sido o Camelo, e não o Alex”, contou.
Acontece que a música estourou em todo o país. Foi o primeiro single do primeiro discos dos Los Hermanos, lançado em 1999, mas essa não era bem a vontade da banda. Eles gostavam de fazer um som que era um hard core misturado com ska, e o discurso deles era inspirado em marchinhas de carnaval.
Mas quando eles chegaram para gravar e mostraram o repertório, o produtor Rick Bonadio quis explorar “Anna Júlia” ao máximo, porque ele acreditava que a canção valia ouro e daria mais visibilidade e abriria portas aos Los Hermanos. Mas aquele não era o tipo de som que a banda queria fazer.
O fato é que a música foi produzida e gravada do jeito que Rick Bonadio sugeriu e explodiu em todo o país assim que foi lançada.“Anna Júlia” fez sua estreia na MTV com um videoclipe protagonizado por Mariana Ximenes, rapidamente alcançando a primeira posição na emissora e conquistando as rádios logo em seguida.
O disco começou a vender muito e os shows, entrevistas e programas de TV começaram a lotar a agenda da banda muito acima do que eles imaginavam e a situação saiu do controle dos Los Hermanos.
Por outro lado, tinha a Anna Júlia, que – no início – achou divertido que uma música feita em sua homenagem fosse um sucesso nas rádios, mas – depois – a coisa acabou saindo de controle: “Eu não conseguia andar na PUC sem ser apontada. Era péssimo porque eu não me achava isso tudo e as pessoas vinham com muito julgamento, ela desabafou, explicando ainda que: O problema é que cada um esperava uma coisa diferente. E aí, quando finalmente me viam, me achavam sem graça. Era frustrante não ser a Anna Júlia que as pessoas gostariam que eu fosse.”.

Em 2009, ela relembrou o fenômeno no texto que escreveu para a orelha do livro “A música Que Mudou Minha Vida”, de Robin Benway, destacando o fato de não ter escolhido passar pelas coisas que aconteceram: “Fiquei conhecida na faculdade, saí na capa de jornais e revistas, tirei fotos nas ruas e dei autógrafos. Eu não me reconhecia na imagem que criaram de mim e, por esse motivo, não conseguia aproveitar a fama para me promover, afirmou. Segundo ela, é sempre esquisito falar disso. Até hoje, quando vou nos lugares as pessoas perguntam se sou eu a Anna Júlia. Às vezes eu minto, digo que não sou eu, não.”.
Entramos nos anos 2000 e “Anna Júlia” continuou um sucesso, chegando até a ser a faixa mais tocada do carnaval da Bahia daquele ano. A canção ainda conseguiu desbancar Chico Buarque e receber o troféu de “Melhor Música” no Prêmio Multishow daquele ano. Na ocasião, Marcelo Camelo declarou ao receber o prêmio:“Eu me sinto envergonhado de ganhar um prêmio em uma categoria em que o Chico Buarque esteja competindo.”.
Ainda em 2001, ninguém menos que o ex-Beatle George Harrison participou de uma versão de “Anna Júlia”, gravando solos de guitarra para uma versão em inglês lançado pelo músico britânico Jim Capaldi. Foi uma das últimas gravações do George Harrison.
Como “Anna Júlia” era diferente de todo o resto do trabalho da banda, ficou difícil para o público entender quem eram os Los Hermanos. Os integrantes da banda então estavam em um impasse: seguir fazendo músicas como “Anna Júlia”, para atender a um certo público, ou fazer músicas mais na pegada que eles gostavam e acreditavam.
O único que não concordou com os rumos da banda foi o baixista Patrick Laplan, que deixou os Los Hermanos a partir do segundo disco e começou a namorar, adivinhem com quem? Sim! Com a Anna Júlia!!! Os dois ficaram juntos por alguns anos.
O segundo disco da banda, “Bloco do Eu Sozinho” veio já mais com a identidade dos Los Hermanos e eles pararam de tocar “Anna Júlia” nos shows por um tempo. Eles não queriam menosprezar a importância da música para a banda e nem o sentimento do público, mas não queriam ficar marcados para sempre somente como a banda da “Anna Júlia”. Logo eles voltaram a tocar a canção e falavam dela com muito carinho, por ter sido o seu primeiro e maior sucesso.
9 – Avôhai – Zé Ramalho
Nascido José Ramalho Neto, em Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba, em 03 de outubro de 1949, Zé é filho de Estelita Torres Ramalho – professora de escola primária – e de Antônio de Pádua Pordeus Ramalho, um seresteiro. Seus pais se separaram logo após o nascimento da irmã do artista, Goretti, um ano mais nova que o primogênito.
Quando Zé Ramalho tinha apenas três anos de idade, em fevereiro de 1953, seu pai – com apenas 26 anos – faleceu vítima de afogamento em um açude na cidade de Teixeira. Após a tragédia, os avós paternos o criaram, enquanto que a irmã permaneceu com a mãe em Recife.
Após passar a maior parte da sua infância em Campina Grande, sua família se mudou para João Pessoa, onde ele passou sua adolescência e o início da vida adulta, até os 25 anos.
A família tinha a expectativa de que Zé Ramalho se tornasse médico. O artista até passou no vestibular de Medicina da Universidade Federal da Paraíba, mas abandonou o curso no segundo ano, pois a música já falava mais alto.
Depois de muitos anos, durante um show gravado ao vivo, Zé contou ele mesmo a história da música “Avôhai”, imenso sucesso de seu primeiro álbum, de 1978:
“Essa música que nós vamos tocar é muito especial para mim. Permita-me abusar disso, mas é que há três dias atrás faleceu meu avô, talvez a única criatura honesta que eu tenha conhecido no mundo. Foi ele que me criou, saindo do sertão, do brejo. Eu nunca tive pai, então vovô fez o papel de avô, de pai. E antes de morrer ele fez papel de filho também pra mim. ‘Avôhai’ é uma palavra mágica: ‘Avôhai’ significa ‘avô e pai’. ‘Avôhai’, vovô! Esteja em paz, como eu penso que você está aqui. Eu tenho certeza que você está me olhando aqui. Talvez aqui no meio de todos. ‘Avôhai’“.
No livro biográfico “Zé Ramalho – O Poeta dos Abismos”, de 2008 – obra necessária para compreender tanto a música quanto a vida do criador de “Avôhai” – o cantor e compositor paraibano dá um longo depoimento ao autor, Henri Koliver e conta que a canção foi composta por meio de uma inspiração, que veio passados alguns dias de que tinha feito uso de cogumelos alucinógenos:
“Ela chegou de uma vez. Peguei papel e caneta e fiz a letra muito rápido, tudo chegava em um turbilhão. Foi a única vez que isso aconteceu, uma forte e intensa experiência espiritual. Muito estranho… totalmente mediúnica. Como o velho Billy [William Shakespeare] dizia, ‘há muito mais coisas entre o céu e a terra do que podemos imaginar’. Havia muita coisa de [Bob] Dylan pairando em minha cabeça. Eu ouvi como se fosse a voz dele. Quando fiz a letra, já sabia dos movimentos musicais; quando estava escrevendo, já sabia das passagens todas. A letra chegou junto com a melodia, e descreve minha experiência.”
A experiência é a própria vida de Zé Ramalho: “‘O brejo cruza a poeira’ é minha origem, o lugar onde nasci, de onde vim. A cidade de Brejo da Cruz situa-se no sopé da chamada ‘pedra de turmalina’. (…) ‘O brejo cruza a poeira’ é uma referência ao êxodo realizado quando abandonamos a cidade e nos dirigimos a Campina Grande.”, revela.
E continua: “Essa poeira que cruzamos representa a saída, a passagem de uma condição para outra, a partida definitiva do Brejo. Eu tinha uns 5 anos de idade. Tudo ficou para trás: as brincadeiras com os meninos, como bonecos de barro — cavalinhos e boizinhos —, correr atrás de bode no meio da rua. (…) No alto da pedra existe um cruzeiro. (…) O terreiro da usina é uma referência a um local existente na cidade, onde eu brincava em minha infância.”
A música inclui “várias formas de cantoria”, como diz Zé Ramalho, como o martelo agalopado e embolada:
- “Na altura em que mandar” – expressão utilizada pelos emboladores de coco, aqueles que tocam com pandeiro;
- “Pra doutor não reclamar” – expressão tirada da embolada, que os músicos usam para sair dos desafios.
“Avôhai” é uma espécie de biografia de Zé Ramalho, um relato imaginativo de sua infância, e também, na visão do artista, é um relato “das origens da humanidade”.
10 – Lua e Estrela
Em 1981, Vinicius Cantuária teve seu primeiro grande sucesso como compositor, com a gravação de sua canção “Lua e Estrela”, incluída no repertório do disco de Caetano Veloso, “Outras Palavras”, que atingiu a marca de 100 mil cópias vendidas.
“Lua e Estrela” surgiu em um dia em que Vinicius fazia uma caminhada do Leblon – onde ele morava – até o Arpoador, no Rio de Janeiro, para ir à praia. Era seis e pouco da manhã e chegando lá, a praia estava bem vazia.
“Foi um fato curioso, porque eu sentei e a uns quarenta metros de mim tinha uma menina sentada. Eu não a conhecia e ela não me conhecia. Ela me olhava e eu olhava para ela. Mas todo mundo que chegava à praia me conhecia e a conhecia. Então a distância entre mim e ela foi encurtando. As pessoas foram chegando e a gente se aproximou, se olhou. Aí teve uma hora que ela saiu de onde estava e chegou mais perto.
Ficou ali conversando com amigos. Ninguém nos apresentou, mas eu sentia que tinha uma empatia rolando entre a gente. Ela se dirigiu ao mar. Quando foi mergulhar, eu vi claramente que ela tinha um anel. (…) Bateu um raio, raio de sol, né? Consegui ver bem de perto que ela tinha um anel de lua e estrela.”, conta o compositor em entrevista a Rui Godinho, para o seu livro “Então, Foi Assim?”, em que conta histórias de composições importantes.
Na volta pra casa, caminhando, Vinicius Cantuária já começou a criar a música em sua cabeça. Quando chegou em casa, ele pegou o violão e a música saiu toda. Ela foi tomando forma e ele criou uma história em torno daquele breve momento que havia vivido.
A letra gira em torno de Vinicius querer saber quem era aquela menina, como era o nome dela, onde ele podia a reencontrar. Pois bem: Caetano gravou, “Lua e Estrela” virou um grande hit, e não é que – anos depois – o compositor realmente reencontrou sua musa inspiradora?
Ao canal MPB Bossa, o compositor contou: “Anos depois, eu fui fazer um show em Salvador, estava sentado jantando no hotel Quatro Rodas e uma menina que estava numa mesa levantou, ficou me olhando, eu fiquei olhando pra ela e falei: ‘Não é possível’!.”. Era ela! O nome dela é Tize e a menina do anel de lua e estrela e Vinícius Cantuária ficaram amigos. O destino e o acaso fizeram a sua parte!


