35 anos sem Cazuza – História da música “O Poeta Está Vivo”

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Hoje, dia 07 de julho de 2025, faz exatamente 35 anos que o Brasil sofreu uma perda imensa: Cazuza nos deixou cedo demais, aos 32 anos de idade, vítima de complicações causadas pela AIDS, tendo sido a primeira personalidade brasileira  a declarar publicamente que havia sido infectado com HIV, quando o assunto ainda era um tabu enorme. 

Mas, o que todos nós sabemos é que Cazuza, na verdade, nunca morrerá! Mesmo em tão pouco tempo de vida, o cantor e compositor carioca deixou um legado imensurável e eterno na história da música popular brasileira.

Tanto é verdade, que seu grande amigo e parceiro Frejat compôs, no mesmo ano da morte de Cazuza – e ao lado da cantora e compositora Dulce Quental – a canção “O Poeta Está Vivo”, em homenagem ao amigo.

História da música “O Poeta Está Vivo”

A canção “O Poeta Está Vivo” foi composta com Cazuza realmente ainda em vida. A cantora e compositora carioca Dulce Quental, amiga de Cazuza, escreveu a letra quando soube que ele estava doente, procurando tratamento para a AIDS nos Estados Unidos.

Cazuza ligou para Dulce contando o que ia fazer em Boston e – até ali – ela não sabia da condição de saúde do amigo. 

Aquele era um período muito duro para o poeta, o primeiro grande susto que ele passou com a doença, ainda muito desconhecida. Ele foi para Boston, ficou bem mal por lá, se  recuperou e voltou para o Brasil bem melhor.

Segundo sua mãe, Lucinha Araújo, 1988 – ano que ele voltou do tratamento – foi o ano de maior glória da vida e da carreira de Cazuza. Ele fez um show histórico no Canecão, no Rio de Janeiro – o show “Ideologia” que deu origem ao álbum O Tempo Não Pára” – e depois saiu em turnê pelo Brasil todo. 

A compositora de “O Poeta Está Vivo”, Dulce Quental | Foto: Nana Moraes/Divulgação

Foi naquele momento que Dulce Quental começou a esboçar as ideias do que seria a letra de “O Poeta Está Vivo”:“Essa letra, em princípio, foi uma conversa  com toda aquela experiência que o Cazuza estava vivendo, aquele sofrimento, aquela doação. Então, eu me senti obrigada a corresponder aquilo de alguma forma”, conta a compositora.

“Baby, compra o jornal

Vem ver o sol

Ele continua a brilhar

Apesar de tanta barbaridade…

Baby, escuta o galo cantar

A aurora dos nossos tempos

Não é hora de chorar

Amanheceu o pensamento…

O poeta está vivo

Com seus moinhos de vento

A impulsionar

A grande roda da história…

Mas quem tem coragem de ouvir

Amanheceu o pensamento

Que vai mudar o mundo

Com seus moinhos de vento…

Se você não pode ser forte

Seja pelo menos humana

Quando o papa e seu rebanho chegar

Não tenha pena…

Todo mundo, todo o mundo é parecido

Quando sente dor

Mas nu e só ao meio dia

Só quem está pronto pro amor…

O poeta não morreu

Foi ao inferno e voltou

Conheceu os jardins do Éden

E nos contou…”

E Dulce continua: “A Denise Barroso, que era cantora também, uma vez eu estava na casa dela e ela falou: ‘Dulce, por que você não mostra essa letra para o Frejat?  E eu acho que ele poderia fazer uma bela música dessa letra’”.   

Então, ela ligou para o Frejat – que tinha sido companheiro de banda de Cazuza na banda Barão Vermelho e era um dos maiores amigos e parceiros de composição do poeta – dizendo que tinha feito essa letra para Cazuza. Frejat então começou a musicar a letra de Dulce Quental:

“Quando eu fiz essa música, eu ainda morava com meus pais. Eu me lembro que eu estava sentado na minha cama, com o violão, a letra na minha frente, tocando e ouvindo aquilo.

Eu terminei de tocar a música em cima da letra e a música estava pronta!”, conta Frejat.

E continua: “E eu acho que nessa letra a Dulce consegue – de uma maneira coloquial –  apresentar ideias da figura do poeta dentro da sociedade  E no caso do Cazuza, além dele ser uma pessoa que vivia isso intensamente o tempo todo, a própria história de vida dele naquele momento era uma prova radical e incontestável disso.”.

Frejat, também compositor de “O Poeta Está Vivo” | Imagem: Leo Aversa / Divulgação

A canção foi feita, mas ainda ficou alguns anos guardada, até que o Ezequiel Neves – que era  produtor do Barão e do Cazuza – a resgatou e sugeriu que a banda a incluísse no seu novo disco – “Na Calada da Noite”, que seria lançado em 1990.

Ezequiel sugeriu também o título da canção – “O Poeta Está Vivo” – porque, até então, ela se chamava “Moinhos de Vento”.

“O Poeta Está Vivo” tornou-se um dos grandes sucessos do repertório do Barão Vermelho, que tinha Frejat nos vocais desde que Cazuza saiu da banda, em 1985.

Cazuza chegou a escutar a música antes dela ser lançada. Ele, inclusive, foi visitar o estúdio – já bastante debilitado e na cadeira de rodas – quando o Barão Vermelho estava gravando o disco. 

Só que Cazuza não chegou a ver o sucesso que a música se tornou. Ele morreu em julho e o álbum foi lançado em agosto de 1990. Portanto, a canção “O Poeta Está Vivo” também completa 35 anos hoje. E ela também segue viva, como o legado de Cazuza.

Sobre Cazuza

Um dos maiores nomes da música popular brasileira de todos os tempos, o carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, nome completo de Cazuza, é filho do produtor musical João Araújo – fundador da gravadora Som Livre – tendo vivido desde sempre em um ambiente muito musical. 

Sua mãe, Lucinha Araújo, teve uma breve carreira como cantora e chegou a lançar dois discos.

Dono de uma genialidade impressionante com as palavras e de uma voz e habilidade vocal inconfundíveis, Cazuza começou sua carreira em 1981, como vocalista do Barão Vermelho – uma das maiores bandas de rock do Brasil. 

Ao lado de Frejat, na época guitarrista do grupo, compôs os maiores sucessos da banda, como: “Bete Balanço”, “Pro Dia Nascer Feliz”, “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” e “Maior Abandonado”.

Cazuza deixou a banda em 1985, para seguir carreira solo. Caso você queira escutar a áudio-biografia completa do Barão Vermelho, escute o Acervo MPB Especial da banda, um podcast original da Novabrasil.

Cazuza | Foto: Reprodução
Cazuza | Foto: Reprodução

Antes de tornar-se vocalista do Barão Vermelho, Cazuza chegou a estudar Comunicação Social, trabalhou na Som Livre, e também fez parte da companhia teatral “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, que revelou outros artistas como Regina Casé, Evandro Mesquita e Luís Fernando Guimarães. Foi lá que Cazuza cantou em público pela primeira vez.

Irreverente e cheio de personalidade, sua vasta obra fala sobre as inquietações de uma geração e transcende o tempo. Deixa um legado único, que revoluciona a música brasileira, ao unir o rock’n roll e a MPB, com clássicos como: 

  • Exagerado (parceria com Ezequiel Neves e Leoni); 
  • O Tempo Não Pára (parceria com Arnaldo Brandão); 
  • Codinome Beija-Flor (com Ezequiel e Reinaldo Arias);
  • Faz Parte do Meu Show (parceria com Renato Ladeira);
  • O Nosso Amor a Gente Inventa (parceria com Rogério Meanda e João Rebouças); 
  • Brasil (com George Israel e Nilo Romero); 
  • Preciso Dizer Que Te Amo (com Bebel Gilberto e Dé Palmeira);
  • Solidão Que Nada (parceria com Nilo Romero e George Israel)

A parceria com Frejat foi até o fim da vida. Juntos, mesmo fora do Barão, compuseram ainda grandes clássicos como “Ideologia” – uma das canções mais importantes da vida de Cazuza –Poema”, e “Malandragem”, que fez história na voz de Cássia Eller.

Esse ato de transparência de Cazuza – ao ser a primeira personalidade brasileira  a declarar publicamente que havia sido infectado com HIV, quando o assunto ainda era um tabu, ajudou muitas vítimas a lidarem melhor com a doença. Ele foi com os pais para Boston, nos Estados Unidos, para tentar a droga AZT, único tratamento disponível na época.

Após sua morte, seus pais fundaram a Sociedade Viva Cazuza, que tem como objetivo proporcionar uma vida melhor a crianças soropositivas, por meio de assistência à saúde, educação e lazer. 

Sua vida virou filme – “Cazuza- O Tempo Não Para”, em 2004 – peça de teatro – “Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz – O Musical”, em 2013 -e foi contada em vários livros.

Você pode conferir todos os detalhes sobre a vida e a obra de Cazuza, na audiobiografia original e exclusiva Novabrasil –Acervo MPB Especial Cazuza. 

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