A música brasileira sempre teve uma presença singular no universo global: rica em ritmos, harmonias inventivas e melodias que entram na memória de quem escuta (na nossa humilde opinião, é a melhor música do mundo!).
Nossa música não é apenas um produto cultural consumido nacionalmente. Ela tem uma presença criativa que atravessa fronteiras e reverbera pelo mundo inteiro, inspirando artistas, ritmos e até… controvérsias.
Ao longo das últimas décadas, algumas composições brasileiras viraram matéria de debate internacional, quando artistas estrangeiros foram acusados de copiar melodias, grooves ou ideias que nasceram por aqui.
Em alguns casos, artistas estrangeiros foram acusados (ou comprovadamente enfrentaram processos!) por supostamente copiar criações brasileiras, sem dar os devidos créditos para a nossa originalidade.
Vamos revisitar cinco momentos em que o Brasil entrou no centro de polêmicas internacionais envolvendo plágio: histórias que misturam processos jurídicos, disputas criativas e, claro, a força cultural de nossa música, trazendo reflexões sobre propriedade intelectual e identidade musical.
Nem toda semelhança é plágio, e nem todo processo termina com um veredicto claro, mas essas histórias destacam o valor das nossas composições e o respeito que elas merecem no mundo artístico.
1 – Da Ya Think I’m Sexy? (Rod Stewart) e Taj Mahal (Jorge Ben Jor)
Uma das histórias mais emblemáticas dessa lista envolve o astro britânico Rod Stewart e o gênio brasileiro Jorge Ben Jor. O hit “Da Ya Think I’m Sexy?”, lançado por Stewart em 1978, chamou a atenção por suas semelhanças com “Taj Mahal”, composição de Jorge Ben Jor lançada em 1972.
A faixa chegou ao topo das paradas nos Estados Unidos e se tornou uma das músicas mais conhecidas de Stewart. Mas a melodia chamou a atenção dos fãs – e não pelos melhores motivos: muitos ouvidos atentos apontaram forte semelhança com o famoso sambalanço do carioca Ben Jor.
O próprio Rod Stewart acabou reconhecendo que a melodia de “Taj Mahal” entrou em sua cabeça após um Carnaval no Brasil e emergiu na sua composição: um caso que ele mesmo chamou de “plágio inconsciente”. O desfecho foi atípico: ao invés de prolongar o mal estar, o britânico doou os lucros da canção para a UNICEF e a disputa acabou com um acordo entre as partes.
2 – Sabbath Bloody Sabbath (Black Sabbath) e What to Do (Vanusa)
Essa é uma das comparações mais curiosas e discutidas entre fãs de rock e de música brasileira. O clássico da banda britânica Black Sabbath, “Sabbath Bloody Sabbath”, lançado em 1973, apresenta riffs e trejeitos harmônicos que lembram muito os que aparecem em “What to Do” – faixa composta por Papi e Alf Soares e lançada pela cantora Vanusa pouco antes, no mesmo ano.
Apesar do debate entre fãs e críticos – e até de músicos compararem as duas gravações lado a lado – Vanusa nunca moveu ação na justiça, e chegou a classificar as semelhanças como uma “coincidência musical”.
Esse é um dos casos onde a discussão não teve impacto jurídico direto, mas entrou para o repertório das curiosidades sobre trocas culturais e possíveis influências entre artistas de diferentes cenas musicais. Veja como os inícios das músicas são parecidos:
3 – Million Years Ago (Greg Kurstin), de Adele, e Mulheres (Toninho Geraes), de Martinho da Vila
O caso mais recente dessa lista (e com repercussão jurídica concreta) envolve ninguém menos que a cantora britânica Adele, uma das vozes pop mais celebradas do mundo. A música “Million Years Ago”, lançada por ela no álbum “25” de 2015, passou a ser objeto de um processo no Brasil movido pelo compositor Toninho Geraes, que alega que a canção guarda semelhanças melódicas suficientes com o samba “Mulheres” – eternizado por Martinho da Vila – para que fosse considerada uma cópia não autorizada.
No fim de 2024, a Justiça do Rio de Janeiro chegou a determinar a retirada da música (composição da própria Adele com o produtor musical Greg Kurstin) das plataformas digitais – no Brasil e potencialmente globalmente – diante das acusações de plágio, apontando que as melodias se sobrepõem de forma próxima demais para ser coincidência.
O processo ainda está correndo e a faixa segue disponível em streaming, pois é necessário que as empresas sejam notificadas e não há prazo para acontecer. Porém, o juiz Victor Agustin Cunha, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, indicou que “Million Years Ago” teria forte indício “da quase integral consonância melódica” com “Mulheres”.
Neste vídeo, enviado ao juiz como prova, a cantora Ju Vianna interpreta de forma simultânea as duas músicas, visando sobrepor as composições. Segundo o advogado de Toninho Gerais, a ideia da versão – que adequa tom e ritmo – é “eliminar alguns dos disfarces composicionais ou interpretativos dos responsáveis pelo plágio”.
O caso ainda está em andamento, com recursos e debates sobre o alcance dessa decisão, mas já virou um símbolo do momento em que a música brasileira se coloca não apenas como referência artística, mas como patrimônio criativo amado e protegido pelos próprios autores e pela lei.
4 – Smoke on the Water (Deep Purple) e Maria Moita (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes)
Aqui temos um dos riffs mais lendários (se não o mais lendário!) do rock – o de “Smoke on the Water”, da banda britânica Deep Purple, lançado em 1972 – colocado lado a lado com “Maria Moita”, composição bossanovista de Carlos LyraeVinicius de Moraes, lançada vários anos antes, em 1964.
A semelhança entre o arranjo marcante de sopro de “Maria Moita” e a introdução icônica de “Smoke on the Water” já foi apontada por críticos e fãs como suspeita de inspiração direta. A banda britânica, por sua vez, negou qualquer ligação com a composição brasileira, e não houve uma acusação formal de plágio ou processo judicial entre as partes.
Mas que a semelhança imensa existe, existe! Olha só:
5 – Positivity (Black Eyed Peas) e Cinco Minutos (Jorge Ben Jor)
Jorge Ben Jor e o grupo estadunidense Black Eyed Peas protagonizaram um caso famoso de plágio em 1999, em que o brasileiro acusou a banda de usar samples não autorizados de algumas de suas músicas em canções do seu então novo álbum “Behind the Front”.
Além da mais descarada, que é esta que trouxemos no título – “Positivity” – que traz escancaradamente um sample da canção “Cinco Minutos”, lançada por Jorge Ben Jor em 1974, no famoso álbum “A Tábua de Esmeraldas” – ainda tem “Comanche” e “O Homem da Gravata Florida” sendo utilizadas nas músicas “Falling Up” e “A8”, respectivamente.
Após a disputa, o brasileiro foi creditado como co-autor nas três faixas. Anos depois, em 2010, um dos integrantes do Black Eyed Peas, Will.i.am – fã declarado de Jorge Ben Jor – convidouo artistapara tocar “Mas que Nada” e “Chove Chuva” em um show no Rio, selando as pazes.
O grupo também gravou “Mas que Nada” com o pianista brasileiro Sérgio Mendes, versão que também reverencia a obra de Jorge Ben Jor.


