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A história da música “Diário de um Detento”, dos Racionais MC’s, no aniversário de Mano Brown

O rapper, cantor, compositor, empresário e apresentador paulistano Mano Brown completa 55 anos hoje e – para homenageá-lo – vamos conhecer a história da música “Diário de um Detento”, um dos maiores sucessos dos Racionais MC’s.

Sobre Mano Brown

Nascido Pedro Paulo Soares Pereira, em 22 de abril de 1970, Mano Brown é um dos maiores artistas do Brasil. 

O rapper integra – desde 1989 – o Racionais MC’s, o mais importante grupo de rap do país, que mudou para sempre a história da música brasileira – e, mais ainda – de muitos brasileiros e brasileiras que os escutam, com suas letras contundentes sobre desigualdade e injustiça social, a realidade das periferias e favelas do nosso país, do povo preto e do racismo cruel que os atravessa.

Saiba tudo sobre a história dos Racionais MC’s nesta matéria especial sobre o grupo.

Ao lado de Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, Mano Brown fez e segue fazendo história. Brown e Blue cresceram no bairro do Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, enquanto Edi Rock e KL Jay, no outro extremo: o norte.

Todos curtiam muito a música negra americana nos bailes da época (Zimbawe, Chic Show, Cascata e Baile da Sedinha), mas não era só a música que os aproximava: possuíam também o inconformismo com as injustiças sociais e a perseguições deixadas pelo recém fim da ditadura, que durou de 1964 a 1984. 

As duas duplas foram apresentadas na Praça São Bento, ponto de encontro onde se reuniam os quatro elementos do Hip Hop: B. Boys (dançarinos), DJs (DiscJóquei), MC’s (Mestres de Cerimônias) e Grafiteiros. 

Ali, nascia um dos ícones do Rap no Brasil: Racionais MC’s. No final dos anos 80, o grupo participou da coletânea “Consciência Black”, lançada pelo selo Zimbawe Records, gravadora especializada em música negra, e mudou para sempre o rumo da nossa história. 

Em 1990, saía o primeiro EP dos “Racionais: Holocausto Urbano”, e – em 1993, o primeiro álbum do grupo: “Raio-X do Brasil”. Dali em diante, foram mais três álbuns de estúdio: o antológico “Sobrevivendo no Inferno” (1997); “Nada como um Dia após o Outro Dia” (2002); e “Cores & Valores” (2014) – além de coletâneas e álbuns ao vivo.

Em 2023, quando completou 30 anos do lançamento do primeiro disco, o grupo lançou seu mais recente álbum: o ao vivo “Racionais 3 Décadas”.

Brown leva, paralelamente ao grupo, uma carreira solo de sucesso e lançou, em 2016, o seu primeiro álbum solo, “Boogie Naipe”, mesmo nome da gravadora que fundou ao lado de sua esposa, a empresária Eliane Dias. O disco foiindicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa.

Os Racionais MC’s | Foto: Divulgação

Mano Brown é autor de canções antológicas, como, por exemplo: 

  • Vida Loka I; 
  • Vida Loka II; 
  • Negro Drama (com Edi Rock); 
  • A Vida é Desafio; 
  • Jesus Chorou;
  • Da Ponte pra Cá; 
  • Capítulo 4, Versículo 3; 
  • Tô Ouvindo Alguém Me Chamar; 
  • Fórmula Mágica da Paz; 
  • Homem na Estrada; 
  • Fim de Semana no Parque (com Edi Rock); 
  • Mano Na Porta do Bar; 
  • Negro Limitado (com Edi Rock)
  • Pânico na Zona Sul
  • Eu Sou 157
  • Diário de um Detento (em parceria com Jocenir Prado, sobre a qual vamos saber a história hoje)

Desde 2022, Mano Brown também apresenta, com maestria, o podcast “Mano a Mano”, para a plataforma de streaming Spotify, onde entrevista personalidades diversas e promove a discussão de temas como música,arte, cultura, negritude, política, saúde e futebol. 

História da Música “Diário de um Detento”

Como pudemos observar, Mano Brown não é um compositor que costuma gravar músicas dos outros e compõe muito pouco em parceria. Mas um parceiro em especial chamou a sua atenção e fez com que Brown abrisse uma exceção. 

Já famoso, depois do lançamento do primeiro álbum dos Racionais, Mano Brown fez uma visita à Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru, em 1996, para uma partida de futebol no Pavilhão 8.

Lá, em uma conversa com os detentos, o rapper descobriu que havia um preso conhecido como “tiozinho” ou “velhinho”, por ter mais idade do que a maioria dos presos (mesmo tendo apenas 44 anos!) e que era famoso entre os outros detentos por saber escrever muito bem, praticamente um poeta.

Esse preso era Jocenir Prado, que mostrou à Mano Brown um de seus escritos: versos sobre a realidade carcerária e o Massacre do Carandiru, uma operação policial que deixou 111 vítimas fatais na Casa de Detenção de São Paulo, em 2 de outubro de 1992. 

“São Paulo, dia primeiro de outubro de 1992, oito horas da manhã

Aqui estou, mais um dia

Sob o olhar sanguinário do vigia

Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK”

Brown gostou muito dos versos de Jocenir e perguntou se ele podia copiar alguns trechos. O detento, sem levar aquilo muito a sério, arrancou a folha do caderno e entregou para o rapper.

Um ano depois, quando Mano Brown voltou ao Carandiru para mostrar ao parceiro de composição a música que tinha composto inspirado em alguns de seus versos, Jocenir já tinha sido transferido de prisão: foi no presídio de Avaré que Jocenir descobriu que era parceiro de Mano Brown na música “Diário de um Detento”, lançada no segundo álbum dos Racionais MC’s – “Sobrevivendo ao Inferno” – em 1997. 

A música foi classificada em 52º lugar na lista das “100 maiores músicas brasileiras” publicada pela revista Rolling Stone Brasil, em 2009. 

Em 1998, o clipe da música, gravado no Carandiru e dirigido por Mauricio Eça com participação dos detentos, foi premiado em duas categorias do “MTV Video Music Brasil” (VMB): “Melhor Vídeo de Rap” e “Escolha da Audiência”.

Em dezembro de 2012, o videoclipe de apareceu na 2ª colocação na lista de “O Melhor Clipe Brasileiro de Todos os Tempos”, pelo jornal Folha de S.Paulo.

A história de Jocenir Prado, compositor de “Diário de um Detento”

Mais curiosa do que a história da música “Diário de um Detento” é a história de como Jocenir Prado foi parar no Carandiru.

Jocenir – que faleceu em 2021, aos 71 anos – contou em diversas entrevistas que não era criminoso e não tinha nenhuma passagem pela polícia até ser preso em 1994. Ele trabalhou por 18 anos em departamentos comerciais de grandes empresas e se estabeleceu como comerciante em Osasco, na região metropolitana de São Paulo.

Jocenir afirmava que tinha ido buscar o carro emprestado com o irmão, pois sua esposa estava grávida e eles precisavam fazer uma viagem de quatro horas de carro, e o irmão tinha um carro mais confortável.

Acontece que o irmão de Jocenir – esse sim – estava envolvido com roubo de cargas (coisa que Jocenir não fazia a menor ideia) e a polícia estava rondando o galpão do irmão já há algum tempo. 

Quando Jocenir foi buscar o carro do irmão emprestado, ele foi abordado pela polícia – que o confundiu com o irmão, como ele contou em uma entrevista – anos depois – ao Programa do Jô:

“Quando eu cheguei no local que ele marcou comigo, a polícia já estava à campana. E quando eu cheguei, eles acharam que era ele que estava chegando. Só que no momento em que chegaram em mim para poder me enquadrar, dois rapazes estavam saindo de uma rua lateral. 

E os policiais acharam que esses rapazes estavam saindo do galpão e os rapazes acharam que os policiais poderiam ser bandidos, porque nada identificava eles como policiais. Os rapazes não obedeceram a ordem de parada e os policiais meteram bala nos rapazes.

Os rapazes eram filhos do empresário da firma ao lado. E aí, para não reverter uma tentativa de homicídio em cima da delegacia toda, eles tinham que armar um flagrante às pressas.

Pediram que eu desse a localização do meu irmão, como eu não eu não tinha, então ‘já que não tem tu, vai tu mesmo’. Eles tiveram que fazer um flagrante ali, até mesmo para se salvar.“.

Os rapazes baleados não morreram, mas ficaram bem feridos. Já Jocenir, foi condenado a oito anos e três meses de prisão, dos quais cumpriu quatro, três deles no Carandiru. O irmão dele foi preso dois anos depois e nunca o ajudou a sair da prisão.

Jocenir Prado, compositor da música “Diário de um Detento” | Imagem: Reprodução Instagram Jocenir Prado (Fábio Prado)

Sua experiência como detento foi marcada pela tortura policial – recebeu golpes de um PM com luvas de boxe – desconfiança dos presos e rebeliões. Dentro da prisão ele viu de tudo: gente matando e gente morrendo, gente cometendo suicídio, brigas de facções. Ele conta que – antes de ter sua pena decretada e ser transferido para o Carandiru, passou por meses de sofrimento até conseguir conquistar a confiança dos presos:

“Foi uma situação de muito sofrimento e muito traumático. É um mundo totalmente diferente, uma cultura totalmente diferente, com código de comportamento próprio, código moral próprio, que contrastava com tudo aquilo que eu havia aprendido em termos de comportamento, dignidade moral.

Uma palavra errada pode te levar ao mais alto prestígio para a malandragem, como pode decretar a sua morte. Mata-se por nada e a vida não tem valor nenhum.

Eu comecei a sofrer uma série de discriminações, até mesmo porque eu tinha um pouco mais de cultura e um poder aquisitivo maior do que a grande maioria. Então, eu caí como uma galinha dos ovos de ouro, principalmente para aqueles que eram usuários de drogas.  

Todos queriam um motivo, uma palavra para poder tentar uma extorsão e – com isso – conseguir recursos para adquirir drogas. Então, eu sofri uma série de agressões físicas e morais. (…) Cada vez que eu ia dormir, eu rezava para não acordar, só de imaginar que o dia seguinte seria a mesma coisa.

Eu sabia que eu tinha que tomar uma atitude e eu tinha três alternativas: ou eu praticaria o suicídio – que é uma coisa normal dentro da prisão e pouco divulgada – ou deixava me levar pelo mundo das drogas ou procuraria de alguma forma conquistar a massa carcerária.

E eu vi que o ponto fraco da massa carcerária era justamente a falta de escolaridade e a falta de cultura. (..) Eu procurei usar o que eu tinha em benefício da população, quando eu percebi que eles tinham uma grande dificuldade em escrever cartas e receber e ler as cartas que vinham, já que a maioria deles eram analfabetos ou semi-analfabetos.

Na confiança, eles passavam os seus problemas mais pessoais para que eu escrevesse nas cartas, E, com a chegada das datas festivas – Dia dos Namorados, Dia das Mães – eu comecei a introduzir alguns versinhos.

Eu fazia aqueles versos simples e isso começou a me trazer prestígio e proteção.  Quando eu fui transferido de Barueri para a Casa de Detenção, após uma rebelião muito traumática, eu já era conhecido como ‘o tiozinho que escrevia as cartas’.

Era o pouquinho de humanidade que eles podiam ter  – porque a grande maioria vem dos bolsões de miséria, das periferias, que hoje estão esquecidas pelo poder público e pela sociedade e são esquecidos lá dentro também.”

A confiança dos presos em Jocenir era tamanha, que ele chegou a redigir o estatuto da facção Comando Democrático da Liberdade (CDL), então rival do Primeiro Comando da Capital (PCC) – originado na Casa de Custódia de Taubaté para combater a opressão dentro do sistema prisional paulista e vingar a morte dos assassinados no Carandiru.

Segundo o livro que Jocenir escreveu anos depois –  “Diário de um Detento – O Livro”, publicado em 2001 – foram os companheiros de cela no Carandiru que sobreviveram ao Massacre, porque ele mesmo só foi transferido para lá em 1995, três anos depois. Foi com os relatos dos companheiros de cela que Jocenir Prado escreveu os versos que entraram para a música “Diário de um Detento”, em parceria com Mano Brown, sucesso dos Racionais MC’s.

“De repente, num único segundo, toda a minha passagem pela prisão veio-me à cabeça. Lembrei-me de cada detalhe e situação dos últimos anos, os companheiros, as torturas, os gestos de bondade, a solidariedade, a luta pela sobrevivência, as revoltas, as dores da solidão. Ficou tudo gravado em minha memória. Um homem nunca é o mesmo depois da cadeia.” – contracapa de  “Diário de um Detento – O Livro”, de Jocenir Prado, 2001.

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