SXSW 2026: o dia em que o festival começou a questionar a própria obsessão por IA

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Somos uma emissora que privilegia a MPB como alicerce de nossa programação, creditando ao estilo musical sua devida importância como um dos maiores patrimônios brasileiros. Nos colocamos como uma solução multiplataforma que foca em conteúdo para engajar a audiência e aproximá-las de maneira relevante e pertinente das marcas. A Novabrasil faz parte do Grupo Thathi, conglomerado de comunicação que conta com o Portal TH+, além de emissoras de rádio e televisão em mais de 400 cidades de várias regiões do país.

Passei os dois primeiros dias do SXSW ouvindo uma frase repetida em versões diferentes: a inteligência artificial vai mudar tudo. Marketing, criatividade, negócios, cultura. A tecnologia virou o centro gravitacional de praticamente todas as conversas do evento. Até que chegou o domingo.

E algo curioso aconteceu. Em vez de discutir novas ferramentas ou novos modelos, vários painéis começaram a discutir limites. O mais disputado foi “Reclaiming Our Humanity in the Age of AI”, com Timnit Gebru e Karen Hao. E a provocação central ali não era tecnológica. Era cultural.

Estamos entrando em uma fase que alguns já começam a chamar de AI fatigue.

Não porque a tecnologia seja ruim. Pelo contrário. Mas porque ela está em absolutamente tudo. Quando tudo vira IA, IA deixa de ser diferencial. E é nesse momento que aparece um paradoxo interessante para marcas.

Quanto mais decisões automatizadas existem, mais valor simbólico passa a ter a decisão humana.

Algumas empresas já começaram a perceber isso e estão comunicando explicitamente uma ideia simples: usamos IA, mas existe um “human override”. Um veto humano final. Parece detalhe técnico. Mas, em um ambiente saturado de automação, o gesto humano começa a ganhar peso estratégico.

Outro tema forte do domingo foi o abandono definitivo da lógica de campanha. Executivos da WPP e da Unilever falaram bastante sobre o conceito de worldbuilding. Em vez de campanhas isoladas, marcas começam a criar universos narrativos contínuos onde consumidores convivem com a marca.

Isso envolve conteúdo, comunidade, experiências imersivas e agentes de IA. Um exemplo que chamou atenção foi o uso de dynamic product placement em streaming. O produto que aparece em uma cena de filme pode mudar dependendo de quem está assistindo. Cada espectador vê uma versão diferente da mesma narrativa. A publicidade deixa de ser interrupção e passa a fazer parte do próprio mundo da história.

Também apareceu com força a discussão sobre a próxima interface do marketing. A convergência entre IA, realidade estendida e interfaces neurais leves aponta para um cenário onde o celular deixa de ser a principal tela. Óculos inteligentes e experiências no campo de visão começam a se tornar o novo território de disputa pela atenção.

Isso muda completamente a lógica de design. Em vez de pensar em telas e cliques, marcas precisarão pensar em experiências que disputam milissegundos da atenção visual do usuário.

Por fim, os vencedores do SXSW Pitch reforçaram uma tendência interessante. A Yuzi Care venceu na categoria Enterprise com uma plataforma de suporte pós-parto baseada em IA. Já a OneCourt venceu em entretenimento com tecnologia háptica que permite que pessoas com deficiência visual sintam eventos esportivos.

Nos dois casos, a mensagem é parecida.

A inovação que realmente chama atenção hoje não é a que impressiona tecnicamente. É a que resolve problemas humanos reais.

Se sexta e sábado foram dias de celebração da tecnologia, o domingo foi o dia da calibragem. A sensação que ficou no ar é simples.

A inteligência artificial está rapidamente se tornando infraestrutura.

E quando a tecnologia vira infraestrutura, o verdadeiro diferencial competitivo volta para um território muito mais antigo.

Cultura.

Intenção.

E gente que ainda sabe pensar por conta própria.

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