Você conhece Dolores Duran e sua importância para a música popular brasileira? A cantora, compositora e instrumentista carioca influenciou uma geração de artistas que vieram depois dela e é uma das maiores representantes do gênero samba-canção.
Com seu imenso talento, Dolores Duran construiu uma trajetória muito significativa dentro da música popular brasileira, mesmo em pouquíssimo tempo de vida, pois nos deixou muito cedo, com apenas 29 anos. Se estivesse viva, hoje ela completaria 96 anos.
Mais sobre Dolores Duran
Nascida Adiléia Silva da Rocha, em uma família com poucos recursos, aos oito anos de idade Dolores Duran (já vamos entender a origem do nome artístico) contraiu uma febre reumática que quase a levou à morte e que deixou como sequela um sopro cardíaco gravíssimo.
Desde criança, elagostava de cantar e sonhava em ser famosa. Aos 12 anos, influenciada por amigos da família e impulsionada por seus sonhos pessoais, inscreveu-se no programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso, onde interpretou a canção “Vereda Tropical” (de Gonzalo Curiel).
Surpreendentemente, a menina cantou como uma profissional – mesmo sem nunca ter estudado música – e conquistou o primeiro lugar no concurso. Logo, as apresentações no programa tornaram-se frequentes, e Adiléia iniciou sua carreira artística.
Com 16 anos, ela dividia-se entre o trabalho em casa junto de sua mãe e irmãs, costurando e lavando roupas para fora, e os finais de semana em que participava como atriz na rádio.
Até que a menina conheceu um casal rico e influente – Lauro e Heloisa Paes de Andrade – que dava saraus e concertos em sua mansão, e – percebendo a belíssima voz da jovem em um concurso de música – a convidou para se apresentar nas festas em sua casa.
Adiléia passou a fazer um enorme sucesso, chamando a atenção de radialistas e pessoas influentes que frequentavam as festas e, depois, passando a se apresentar nas mais importantes boates do Rio de Janeiro, participando de cada vez mais programas de rádio e logo iniciando suas primeiras gravações. Nos anos que se seguiram também foi convidada para viajar em turnês pelo Brasil.
Foi Lauro Paes de Andrade que sugeriu o nome artístico de Dolores Duran, inspirado no da atriz americana Dolores Moran. Sem nunca ter estudado línguas, a artista aprendeu sozinha a cantar em inglês, francês, italiano, espanhol e até em esperanto.
A cantora e compositora estadunidense Ella Fitzgerald, durante sua passagem pela cidade do Rio de Janeiro, nos anos 1950, foi à boate Baccarat especialmente para ouvir Dolores Duran e entusiasmou-se com a interpretação da cantora brasileira para a canção “My Funny Valentine” (de Lorenz Hart e Richard Rodgers, famosa na voz de Frank Sinatra), dizendo que foi a melhor que já ouvira.
A estreia de Dolores Duran em disco foi em 1951, gravando dois sambas para o carnaval do ano seguinte: “Que Bom Será” (de Alice Chaves, Salvador Miceli e Paulo Márquez) e “Já Não Interessa” (de Domício Costa e Roberto Faissal). Em 1952, gravou o samba-canção “Um Amor Assim” (de Dora Lopes) e o samba “Outono” (de Billy Blanco).
Em 1954, foi a vez de gravar o samba-canção “Tradição” (de Ismael Silva) e o samba “Bom é Querer Bem” (de Fernando Lobo). No mesmo ano, gravou com sucesso o samba-canção “Canção da Volta” (de Antônio Maria e Ismael Neto) e “O amor Acontece” (de Celso e Flávio Cavalcanti). Em 1956, gravou um de seus maiores sucessos como intérprete, o baião “A Fia de Chico Brito” (de Chico Anysio).
Em 1955, Dolores Duran sofreu um infarto e passou um mês internada. Isso aconteceu pois, com a carreira artística em alta, a artista resolveu não seguir as restrições que os médicos lhe determinaram por conta de sua condição de saúde desde a infância, como dormir cedo, evitar bebidas alcoólicas e cigarro, e não vivenciar fortes emoções. Ela temia a morte desde criança e queria viver intensamente tudo o que tinha para viver, mesmo com todo o preconceito que sofria da sociedade conservadora da época.
Vida e carreira meteóricas
Dolores Duran namorou os compositoresBilly Blanco e João Donato, de quem chegou a ser noiva. Casou-se com o cantor e compositorMacedo Neto, mas separou-se em pouco tempo. A cantora sofreu muito com racismo que enfrentava por ser uma mulher negra e de origem humilde vivendo relacionamentos inter-raciais e – neste último relacionamento – também vivia idas e vindas por conta do machismo e das violências constantes que sofria do marido.
Durante o relacionamento com Macedo, Dolores também sofreu um aborto espontâneo que a impossibilitou de ter filhos e a levou a uma forte depressão e ao uso constante de barbitúricos. Mais tarde, eles adotaram uma menina, chamada Maria Fernanda.
A cantora gravou diversas músicas desses três artistas que namorou, mas também compôs diversas músicas autorais com base no sofrimento que sentia com suas separações.
Foi em 1955 que Dolores Duran compôs sua primeira música: “Se é Por Falta de Adeus”, em parceria com Tom Jobim, gravada pela cantora Dóris Monteiro logo em seguida.
Em 1957, Tom – então um jovem compositor – apresentou à Dolores uma composição dele e de Vinicius de Moraes. Em três minutos, Dolores pegou um lápis de sobrancelha e compôs a letra da canção “Por Causa de Você”. O poeta ficou encantado com a letra de Dolores, que achou melhor que a sua. Foi revelado, a partir daí, o talento da cantora para a composição.
Já a canção “Fim de Caso” – composição solo de de Dolores Duran gravada em 1959 – foi um estrondoso sucesso, que a levou direto para a Europa, onde ela cantou e se apresentou em diversos países, nas mais conceituadas casas de show.
Lá, Dolores Duran montou um conjunto musical e passou a se apresentar dia e noite, fazendo muito sucesso. Da Europa, foi cantar no Uruguai, na União Soviética e na China, acompanhada de seu conjunto musical, e – depois – sozinha, voltou para conhecer Paris, seu grande sonho, e se apresentar por lá, morando seis meses na cidade.
Dolores Duran é responsável por outros grandes sucessos, como:
- A Noite do Meu Bem (escolhida como uma das 100 Maiores Músicas Brasileiras de Todos os Tempos pela Revista Rolling Stone Brasil)
- Castigo (parceria com Ribamar)
- Ideias Erradas (parceria com Ribamar)
- Minha Toada (com Edson França)
- Olha o Tempo Passando (com Edson Borges)
- Estrada do Sol (parceria com Tom Jobim)
Na noite de 23 de outubro de 1959, depois de um show na boate Little Club, a cantora saiu com seu namorado, Nonato Pinheiro, e com seus amigos para uma festa e depois resolveram fechar a noite bebendo, dançando e ouvindo canções em uma outra boate. A cantora chegou em casa muito alegre, às sete da manhã, do dia 24 de outubro.
Em seguida, após dar banho e se divertir com sua filha – de apenas dois anos – foi dormir, já que tinha um show para fazer à noite. Dolores brincou com sua funcionária: “Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer!”. No quarto, enquanto dormia, sofreu um infarto fulminante, prematuramente, aos 29 anos de idade, interrompendo uma trajetória brilhante, mas deixando um legado imensurável na música popular brasileira.
A cantora e grande amiga Marisa Gata Mansa levou os últimos versos de Dolores Duran para Carlos Lyra musicar, nascendo assim – após a sua morte – o clássico “O Negócio É Amar”.

