A endometriose, frequentemente lembrada pelas lesões no útero, ovários e cavidade pélvica, vem sendo cada vez mais entendida como uma condição que pode afetar o corpo de forma mais ampla. Além do impacto nos órgãos reprodutivos, a doença pode provocar inflamação prolongada, aderências internas e mudanças em tecidos que sustentam e envolvem estruturas do organismo.
Monica Schapiro, fisioterapeuta com atuação em dor pélvica, explica que esse olhar ampliado ajuda a entender por que algumas pacientes continuam com dor intensa mesmo quando exames mostram poucas lesões ou quando cirurgias e terapias hormonais parecem ter controlado a doença. “A dor não depende só do tamanho ou da quantidade de lesões; ela também tem relação com o que acontece com os tecidos e com o sistema nervoso ao longo do tempo”, afirma.
Uma das peças centrais nessa discussão é a fáscia, um tecido contínuo que envolve músculos, órgãos, vasos sanguíneos e outras estruturas internas. Pesquisas recentes em áreas como dor pélvica e reabilitação vêm apontando que alterações no sistema fascial podem contribuir para sintomas persistentes e para restrições de movimento.
O que muda nos tecidos e por que isso pode doer
A endometriose ocorre quando células semelhantes às do endométrio passam a crescer fora do útero, desencadeando inflamação e, muitas vezes, aderências. Esse cenário inflamatório contínuo estimula a ação de fibroblastos, células ligadas ao tecido conjuntivo e ao processo de reparo do organismo.
O problema é que, em vez de um reparo “organizado”, essa resposta pode se tornar exagerada. Com o tempo, podem surgir fibroses e aderências que mudam a mecânica da pelve e de áreas próximas, reduzindo a mobilidade natural das estruturas e mantendo uma sensação de tensão constante.
Segundo Schapiro, estudos publicados em periódicos internacionais vêm descrevendo alterações miofasciais em pacientes com endometriose, principalmente em regiões pélvica, abdominal e lombar. “Em muitos casos, o tecido fica mais rígido e sensível, o que ajuda a explicar dores intensas mesmo quando as lesões parecem pequenas”, destaca.
Quando a dor ultrapassa a lesão
A fáscia tem muitas terminações nervosas e participa da percepção corporal e da modulação da dor. Quando há inflamação persistente e perda de mobilidade do tecido, o sistema nervoso pode entrar em um estado de hipersensibilidade, ampliando a experiência dolorosa.
Esse mecanismo contribui para sintomas que vão além da cólica menstrual. Entre as queixas mais relatadas estão:
- · dor pélvica crônica;
- · desconforto ou dor durante relações sexuais;
- · dor lombar;
- · prisão de ventre;
- · sensação de tensão abdominal;
- · limitação de movimentos, inclusive fora do período menstrual.
Em alguns casos, o corpo passa a manter um padrão contínuo de “proteção” muscular, como se defendesse permanentemente a área dolorosa. Isso pode gerar mudanças posturais, compensações musculares e aumento progressivo da dor.
Tratamento: por que a abordagem precisa ser integrada
O manejo da endometriose segue baseado em acompanhamento ginecológico, controle hormonal, mudanças de estilo de vida e, em determinados casos, cirurgia. Ao mesmo tempo, cresce o consenso de que, para muitas pacientes, o cuidado precisa considerar também o impacto da doença na função, no movimento e no sistema nervoso.
É nesse contexto que a fisioterapia pélvica e abordagens voltadas à mobilidade tecidual vêm ganhando espaço, por atuarem em pontos muitas vezes negligenciados: aderências, rigidez, tensão muscular e sensibilização dolorosa.
Dependendo do caso, podem ser indicados recursos como técnicas manuais, exercícios terapêuticos, mobilidade pélvica, trabalho respiratório e estratégias de reeducação corporal. Schapiro ressalta que esses recursos não eliminam a doença, mas podem ajudar no controle dos sintomas. “A abordagem não ‘cura’ a endometriose, mas pode ser uma parte importante de um tratamento multidisciplinar focado em reduzir a dor e melhorar a função”, explica.
Como a endometriose se manifesta de forma diferente em cada pessoa, especialistas reforçam a necessidade de um plano individualizado, com avaliação médica e funcional adequada. A principal mensagem, segundo Schapiro, é que a dor pode não estar apenas onde a lesão aparece. “Muitas vezes, ela se espalha pelos tecidos, pelo movimento e pelo sistema nervoso — e entender essa conexão pode mudar a forma de cuidar dessas pacientes”, afirma.


