No ano em que completa 78 anos, Arnaldo Baptista tem sua carreira homenageada no projeto “Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas”, que chegou hoje às plataformas de streaming. Reunidas em quatro coletâneas – Cobre, Sunny, Pink e Jeans – e três singles solos, as 56 faixas são assinadas por mais de 60 artistas, como Sandra Sá, Zé Ramalho, Hyldon, Boogarins, Kiko Zambianchi, Leo Jaime, Helio Flanders, Chinaina, Edgard Scandurra & Ema Stoned, Selvagens à Procura da Lei, Rod Krieger, Defalla, Zeca Baleiro, entre muitos outros. Acompanhando as releituras, um programa audiovisual será lançado em breve no canal de Arnaldo no YouTube. Ouça as coletâneas – Cobre, Sunny, Pink e Jeans –, os singles solo aqui.
As demais informações seguem abaixo no texto assinado pelo jornalista e escritor Luiz Cesar Pimentel:
Arnaldo Baptista continua formando artistas. E o projeto 7.8 prova isso. Existem homenagens que olham para o passado. Esta nasceu olhando para o futuro.
Quando começamos a desenhar o projeto Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas, queríamos reunir artistas para celebrar os 78 anos de um dos compositores mais importantes da música brasileira. Em algum momento do percurso, ficou claro o que já sabíamos – que não seria apenas um disco coletivo, ao gosto do mercado. Estávamos registrando um fenômeno que, até então, existia de forma dispersa, espalhado por palcos, estúdios, festivais e conversas entre músicos.
Depois de acompanhar Arnaldo durante tantos anos — como jornalista, pesquisador e admirador de sua obra — poucas coisas ainda conseguem me surpreender. Esta conseguiu.
As gravações começaram a chegar de diferentes lugares e naturezas. Depois vieram outras. Em seguida mais algumas. Quando percebemos, havia 60+ artistas trabalhando ao mesmo tempo sobre o mesmo universo musical. “Se tivéssemos feito o convite publicamente, teríamos perto de 200 aderindo”, apostou todas as suas fichas Sonia Rosa Maia durante a gravação do programa de lançamento do projeto, que inclui entrevista com Arnaldo e participações muito especiais dos artistas. É ela quem assina a direção e coordenação do Arnaldo Baptista 7.8,
encarando de frente o desafio de colocar no mercado do streaming, todo estruturado por diversos engessamentos, um projeto para o qual o sistema não está preparado para abraçar.
O recorte do repertório
Há um detalhe que considero decisivo para entender ainda melhor a dimensão desse projeto: todas as releituras são dedicadas exclusivamente à obra solo de Arnaldo Baptista. Não há uma única composição dos Mutantes. A decisão foi consciente desde o início. A carreira solo de Arnaldo sempre exerceu enorme influência sobre músicos de diferentes gerações, mas nunca foi percebida nessa grandeza. Era chegada a hora de iluminar justamente essa parte de sua trajetória.
Também não havia uma gravadora conduzindo o processo, um grande orçamento de marketing ou contratos obrigando artistas a participar. O movimento aconteceu pelo motivo mais difícil de fabricar: vontade. Músicos quiseram gravar Arnaldo porque reconheceram nele uma referência criativa fundamental para a própria formação. Tenho dificuldade de lembrar de outro caso semelhante.
Não conheço um projeto brasileiro — e sinceramente não me recordo de um internacional — que reúna 60+ artistas lançando, simultaneamente, 56 singles inéditos inspirados na obra de um único compositor. Não estamos falando de participações em um álbum coletivo, nem de uma compilação tradicional. Cada artista escolheu uma canção, construiu sua própria leitura e a lançou como single, preservando sua identidade artística. O elo entre todos continua sendo Arnaldo. Isso diz muito menos sobre o projeto do que sobre Arnaldo.
Durante décadas, acostumamo-nos a definir Arnaldo Baptista como fundador dos Mutantes, um dos pioneiros do rock brasileiro, uma das figuras centrais da Tropicália – segundo o maestro Rogério Duprat –, ou artista cult. Tudo isso continua correto. Apenas deixou de ser suficiente.
Arnaldo continua acontecendo. E essa é sua característica mais extraordinária.
Boa parte das pessoas que frequentaram seus concertos solo de 2011-2018, que hoje acompanham suas exposições ou discutem sua obra nas redes sociais, simplesmente não era nascida quando Arnaldo gravou os discos que entraram para a história da música brasileira. Muitos têm pouco mais de vinte anos. Descobriram Arnaldo ouvindo, desde o berço, músicas que os pais colocavam para tocar. Ou por indicação de amigos, vídeos ou recortes que circulam nas redes. Não chegaram movidos por nostalgia. Chegaram porque encontraram uma liberdade criativa que continua fazendo sentido hoje.
Percebi isso há tempos! Em entrevistas, festivais, bastidores de shows e pesquisas para meus livros, o nome de Arnaldo aparecia repetidamente quando perguntava a músicos quais artistas haviam mudado sua forma de pensar música. A resposta surgia em bandas de rock, artistas experimentais, compositores da MPB, produtores de música eletrônica, gente da cena independente e até artistas visuais.
O projeto apenas tornou visível aquilo que já acontece há anos. Basta ouvir as gravações. Nenhuma delas tenta reproduzir Arnaldo. Essa, para mim, é uma das maiores qualidades do conjunto. Os artistas mergulharam profundamente nas composições, compreenderam sua lógica e, em vez de imitá-la, fizeram exatamente o que aprenderam com ela: produziram algo novo.
As versões acabam revelando tanto sobre quem interpreta quanto sobre quem inspirou essas interpretações. Em muitos momentos tive a impressão de que Arnaldo aparecia justamente onde deixava de ser copiado.
Marcelo Furtado, da Pedra Relógio, resumiu isso muito bem ao contar que passou dias convivendo com Vou Me Afundar na Lingerie. Deixou um caderno aberto ao lado da cama para anotar ideias, manteve a guitarra sempre por perto, sonhou com arranjos e só entrou em estúdio quando encontrou uma versão que preservava o espírito da composição sem abrir mão da identidade da banda.
É essa sensação que atravessa praticamente todas as gravações.
Leo Jaime voltou aos anos 1970 para gravar Cozinho de Noite, composta em parceria com Arnaldo. O Violeta de Outono incorporou trechos do piano original do compositor em Jesus, Come Back to Earth. Rod Krieger trouxe todos os pianos de Arnaldo, suas Gibsons preferidas, valvulados e finalização analógica para sua versão de The Cowboy.
É também notável a influência de Arnaldo ir além da música. O multiartista e ilustrador Rogério Puhl criou, há algum tempo, a arte inspiradora para que a designer Ste Marino desse vida ao conceito visual do projeto. “O que mais me inspira em Arnaldo é justamente essa autenticidade quase visceral. Existe uma liberdade muito rara na maneira como ele mistura som, imagem, poesia e imaginação. Dentro do meu universo, procuro absorver esse olhar inquieto e levar isso para o meu trabalho, buscando criar de forma mais livre, intuitiva e verdadeira”, contou Puhl ao liberar sua arte para o 7.8.
Um retrato da música independente brasileira
Enquanto ouvia esse material, outra evidência foi aparecendo. O Arnaldo Baptista 7.8 acabou se transformando também em um retrato da música independente brasileira.
A palavra “independente” vem sendo usada quase como um sinônimo de “à margem” do mercado. Mas é justamente daí que a inovação artística continua surgindo – exatamente desse território. O projeto Arnaldo Baptista 7.8 reúne
músicos, produtores, artistas visuais, performers e compositores que raramente aparecem nas grandes campanhas promocionais, mas continuam produzindo as obras mais inventivas da música brasileira.
Esta é outra herança silenciosa de Arnaldo Baptista. Ele nunca ensinou uma fórmula. Ensinou que a liberdade criativa sempre vale mais do que a conveniência do mercado. Também por isso decidimos abandonar o modelo tradicional de lançamento.
Seria um contrassenso reunir 60+ artistas para depois concentrar toda a comunicação em um único perfil ou em um único canal. O projeto nasceu coletivo-colaborativo, e sua divulgação precisava seguir a mesma lógica. Em vez de uma campanha centralizada, optamos por construir uma arquitetura de rede orgânica. Cada artista passa a ser também um difusor do projeto, permitindo que públicos diferentes conversem entre si.
Foi esse espírito, também, que guiou a curadoria desde o início.
Desde fevereiro deste ano de 2026, ouvimos gravações, acompanhamos mixes, sugerimos caminhos e conversamos diariamente com artistas, formando um grupo que acabou funcionando menos como uma comissão e mais como uma roda permanente de criação. A curadoria foi conduzida por Arnaldo Baptista, Lucinha Barbosa, Luiz Cesar Pimentel, Lu Lima, Márcio Lomiranda, Marcos Lauro/Orfeu Digital, Rod Krieger, Sonia Rosa Maia e Thais Pimenta/Café 8. Cada um trouxe um olhar diferente para o 7.8, e talvez também por isso o projeto nunca perdeu sua diversidade.
Foi dessa convivência que surgiu mais um momento simbólico dessa trajetória.
Já estávamos praticamente encerrando os trabalhos quando Arnaldo e Lucinha verbalizaram que ninguém havia escolhido Sr. Empresário, uma das favoritas de ambos da obra solo de Arnaldo. A música, escrita na época do Patrulha do Espaço, continua impressionantemente atual. Passaram-se décadas, mudaram governos, tecnologias, modelos de negócio e a indústria da música praticamente foi reinventada. Ainda assim, a ironia e a crítica presentes na composição permanecem intactas. E essa é a deixa para dizer o mesmo de toda a obra solo revisitada no Arnaldo Baptista 7.8.
A solução mais simples para a entrada de Sr. Empresário seria convidar mais um artista. Mas preferimos fazer outra coisa. Montamos uma banda para a regravação e a chamamos Renomado. E podes crer: enquanto você vivencia este projeto, algum artista, alguma banda, está nascendo sob a influência marcante de Arnaldo – aqui, pelo Planeta e no infinito do espaço sideral.
Para mim, entrar em estúdio para gravar uma canção de Arnaldo Baptista foi uma experiência completamente diferente. Não tinha mais a distância confortável do jornalista. Eu também fazia parte daquela história. Foi aí que percebi uma coisa que talvez explique melhor esse projeto do que qualquer número. Ninguém aceitou o convite apenas para homenagear Arnaldo. As canções reunidas aqui não nasceram de uma convocação. Nasceram de uma influência.
O Arnaldo Baptista 7.8 não tenta preservar uma memória. Ele registra um legado em movimento. As 56 gravações mostram que a obra de Arnaldo continua circulando, sendo reinterpretada, provocando novas ideias e formando artistas que pertencem a gerações diferentes daquela que o viu surgir.
No fim das contas, essa sempre foi a maior medida da importância de um criador. Não é a quantidade de discos vendidos. Nem o número de prêmios. Muito menos o tamanho da biografia. Um artista se torna realmente grande quando sua obra deixa de lhe pertencer e passa a fazer parte da imaginação criativa de outras pessoas. Poucos compositores brasileiros conseguiram isso de maneira tão profunda quanto Arnaldo Baptista.
O Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas existe porque, mais de meio século depois, suas canções continuam encontrando novos intérpretes. E isso diz muito mais sobre Arnaldo do que sobre qualquer homenagem que se possa prestar a ele.

