


Em entrevista ao Portal Thmais e Jornal Novabrasil, o médico, escritor e candidato à Presidência da República pelo Avante, Augusto Cury, apresentou as principais diretrizes de seu plano de governo e defendeu mudanças estruturais no sistema político brasileiro. Conduzida por Mauro Tagliaferri, Heródoto Barbeiro e Stephanie Alves, em São Paulo, a sabatina abordou temas como sistema de governo, reeleição, funcionamento do Congresso, gestão pública e programas de transferência de renda.
Entre as principais propostas apresentadas por Cury está a mudança do atual presidencialismo para um sistema semipresidencialista. Segundo o candidato, a alteração permitiria dividir de maneira mais clara as responsabilidades entre o presidente da República e um primeiro-ministro. Na avaliação dele, o chefe do Executivo deveria concentrar-se em questões estratégicas, como política externa e Forças Armadas, enquanto o primeiro-ministro ficaria responsável pela administração cotidiana do país.
Cury argumentou que o modelo permitiria uma gestão mais técnica e reduziria os impactos de crises políticas. Como exemplo, citou a possibilidade de o Congresso retirar o primeiro-ministro do cargo caso ele perca apoio político, seja considerado ineficiente ou esteja envolvido em corrupção. Nesse cenário, segundo a proposta, o presidente poderia indicar um novo nome para comandar o governo sem que fosse necessário atravessar uma crise institucional de grandes proporções.
O candidato também defendeu o que chamou de necessidade de um gestor com conhecimento técnico e capacidade administrativa para ocupar a função de primeiro-ministro. Durante a entrevista, mencionou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como uma referência de perfil que poderia exercer esse tipo de função.
Confira abaixo a íntegra da sabatina:
Cury critica populismo e promete reduzir espaço para promessas eleitorais
Outro ponto de destaque da entrevista foi a crítica ao populismo na política brasileira. Para Cury, parte do problema está na distância entre as promessas feitas durante as campanhas eleitorais e a capacidade real de executá-las depois que o candidato chega ao poder.
Na avaliação do escritor, os governantes deveriam ser tratados como gestores contratados pela sociedade por meio do voto e submetidos a metas e prazos definidos. Ele defendeu que os programas de governo tenham objetivos claros, permitindo que a população acompanhe e cobre os resultados alcançados.
Ao falar sobre promessas eleitorais, Cury citou a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a possibilidade de os brasileiros voltarem a consumir picanha como exemplo de uma promessa que, segundo ele, não teria considerado adequadamente as dimensões econômicas envolvidas. Para o candidato, a crítica não deve ser direcionada apenas a um grupo político, mas ao próprio comportamento da classe política. “Prometer é muito fácil, mas é uma irresponsabilidade”, afirmou durante a sabatina.
Cury também fez críticas à polarização política. Segundo ele, o ambiente político brasileiro e internacional teria se tornado excessivamente conflituoso, dificultando a construção de consensos e a implementação de projetos de longo prazo.
Fim da reeleição está entre as propostas
A reeleição também foi alvo de críticas durante a entrevista. Cury afirmou ser favorável ao fim da possibilidade de um governante permanecer no cargo por meio de uma nova disputa eleitoral.
Na visão do candidato, a possibilidade de reeleição pode fazer com que o governante concentre parte de sua atuação na própria permanência no poder, em vez de priorizar políticas públicas de longo prazo.
Ele defendeu ainda mudanças nos mandatos do Legislativo. Para deputados, propôs um limite de dois mandatos, enquanto para senadores defendeu que o período de oito anos seja suficiente, sem possibilidade de renovação consecutiva.
A ideia, segundo Cury, seria estabelecer um modelo no qual os políticos tenham um período determinado para cumprir um programa de governo e sejam avaliados pelos resultados apresentados à sociedade.

Programas de transferência de renda e incentivo ao trabalho
Outro eixo mencionado na apresentação das propostas de governo envolve os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Cury defende ajustes nesse tipo de política para que, além de garantir proteção social, os programas também funcionem como mecanismos de estímulo ao empreendedorismo e à entrada dos beneficiários no mercado de trabalho.
A proposta parte da ideia de que a transferência de renda deve estar associada a oportunidades de geração de renda e autonomia financeira. O objetivo, segundo a linha defendida pelo candidato, seria criar condições para que os beneficiários possam deixar gradualmente a dependência dos programas sociais.
O tema se relaciona à defesa de Cury por uma gestão pública que combine, nas palavras dele, uma “mente capitalista” com um “coração social”. A ideia apresentada durante a entrevista é unir estímulo à atividade econômica e ao empreendedorismo com políticas voltadas à proteção das parcelas mais vulneráveis da população.
Candidato diz não estar ligado à política tradicional
Ao longo da sabatina, Cury também procurou reforçar a imagem de candidato de fora da política tradicional. Médico e escritor, ele afirmou que não depende de cargos públicos e que sua trajetória profissional lhe permitiria buscar especialistas de diferentes correntes políticas para compor uma eventual administração.
Cury disse que pretende reunir profissionais com experiência em suas respectivas áreas, independentemente de alinhamento ideológico. Durante a entrevista, citou nomes ligados a diferentes setores da política brasileira com os quais afirma ter mantido relações pessoais ou profissionais.
A proposta, segundo ele, seria formar uma equipe técnica e evitar que a escolha de ministros fosse determinada exclusivamente por interesses partidários.
Telemedicina é apresentada como alternativa para desafogar o SUS
Na área da saúde, Cury defendeu o uso mais amplo da telemedicina como ferramenta para ampliar o acesso da população aos serviços médicos. Ele afirmou que o recurso poderia ser especialmente importante para pessoas que vivem em regiões periféricas ou rurais.
Como exemplo, mencionou situações de emergência envolvendo crianças durante a madrugada, quando o acesso imediato a um médico pode ser mais difícil. Na avaliação apresentada durante a entrevista, uma estrutura de atendimento remoto poderia permitir uma primeira avaliação médica rápida e evitar deslocamentos desnecessários.
Cury afirmou que a telemedicina poderia ajudar a resolver grande parte dos problemas de saúde sem a necessidade de atendimento presencial imediato e, consequentemente, contribuir para reduzir a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).
A proposta faz parte de uma visão mais ampla de gestão baseada em tecnologia e eficiência. Para o candidato, a utilização de ferramentas digitais poderia ampliar o alcance dos serviços públicos e reduzir o tempo de espera da população.


