Conviver com a epilepsia dentro de casa costuma significar viver em alerta. As crises podem aparecer sem aviso, provocar quedas, machucados e deixar familiares e pacientes com medo do próximo episódio. Mas, para uma parte das pessoas, existe um caminho além das trocas constantes de medicamentos: a cirurgia.
Segundo o neurocirurgião Baltazar Leão, ao contrário do que muita gente pensa, a operação não precisa ser encarada apenas como “último recurso”. “Para alguns pacientes, ela é justamente a melhor forma de controlar completamente as crises e recuperar a independência”, afirma. Isso inclui, em muitos casos, retomar atividades do cotidiano com mais segurança, como estudar, trabalhar e até dirigir.
Quando a cirurgia entra no radar
A cirurgia costuma ser considerada quando a epilepsia é “refratária”, isto é, quando as crises continuam mesmo após o uso de dois ou mais medicamentos diferentes, nas doses adequadas. “A cirurgia é indicada para pessoas que têm epilepsia refratária”, explica o médico, destacando que isso pode acontecer com até 30% dos pacientes.
Nessas situações, o problema frequentemente está relacionado a uma área específica do cérebro que gera descargas elétricas anormais. A proposta do tratamento cirúrgico é agir diretamente nessa região para impedir que as crises aconteçam.
Leão ressalta que o procedimento não é feito sem cautela. “Ninguém vai para uma cirurgia sem uma investigação completa”, diz. Antes de qualquer decisão, o paciente passa por exames detalhados para identificar com precisão de onde vêm as crises.
Quais são as técnicas e como elas funcionam
Há diferentes abordagens cirúrgicas, escolhidas conforme o tipo de epilepsia e as características de cada paciente. Entre elas estão:
- · Retirada da área que causa as crises, quando a região responsável pode ser removida com segurança.
- · Desconexões, em que o cirurgião interrompe a comunicação entre a área causadora das crises e o restante do cérebro.
- · Dispositivos de estimulação, com pequenos aparelhos implantados no corpo para ajudar no controle das crises, como a estimulação do nervo vago e a estimulação cerebral profunda.
- · Cirurgia a laser, uma alternativa menos invasiva, guiada por ressonância, para tratar áreas mais profundas com alta precisão.
Para o especialista, o ponto central é que essas técnicas já fazem parte da prática médica há anos e tendem a ter bons resultados quando bem indicadas. “O importante é que todas essas técnicas já são usadas há anos e apresentam ótimos resultados quando bem indicadas”, afirma.

O que pode mudar depois da operação
Os ganhos podem ser expressivos. O médico explica que, em muitos casos, o paciente pode ficar totalmente livre das crises, especialmente em situações como a epilepsia do lobo temporal. E mesmo quando isso não acontece, a redução na frequência e na intensidade já pode transformar a rotina.
No dia a dia, isso pode significar voltar a estudar sem medo, recuperar a independência para sair sozinho, trabalhar com mais segurança, resgatar autoestima, além de observar melhora da memória e da atenção, com menos internações e episódios traumáticos.
Outro benefício, segundo Leão, é a proteção do cérebro contra o desgaste provocado por crises repetidas, algo que muitas famílias só descobrem mais tarde.
Por fim, ele destaca que a decisão não envolve apenas exames e técnica, mas também apoio emocional. “A decisão pela cirurgia envolve diálogo, acolhimento e compreensão”, afirma. Para ele, a presença da família ajuda a enfrentar medos e dúvidas e também fortalece a recuperação, que vai além do pós-operatório físico.
“A epilepsia não define quem a pessoa é – e a cirurgia pode devolver parte importante da vida que a doença tirou”, conclui o médico. Para famílias que convivem com crises frequentes, conversar com um especialista e entender se a cirurgia é indicada pode ser o primeiro passo para uma rotina mais previsível e segura.


