Recentemente, um estilo musical nascido nas décadas de 70 e 80 reapareceu com força – na esteira do TikTok – e passou a ocupar o centro das atenções, atraindo fãs tradicionais do som japonês e também públicos de vários cantos do mundo. Trata-se do city pop.
Aquele som urbano, sofisticado e levemente melancólico do city pop japonês exerce um certo fascínio em muita gente. A mistura de funk, disco, jazz fusion e clima cosmopolita parece ter sido inventada para tocar em avenidas molhadas depois da meia-noite. Muita gente não sabe, mas a própria bossa nova brasileira foi influência direta desse movimento lá no Japão.
Mas será que existe o “City pop Brasil”? Olhando a discografia dos anos 70 e 80, analisando as programações do FM estéreo e as promessas de modernidade da época, é possível afirmar que o país também vivia uma ebulição urbana muito parecida com a das metrópoles do outro lado do mundo.
Produzimos incontáveis canções cheias de groove, arranjos jazzísticos e elegância de cidade grande. Embora a gente não chamava isso de “city pop”. Aqui o rótulo era MPB, black music brasileira, samba-jazz, soul tropical. Mas, ouvindo hoje com atenção, o diálogo com o gênero japonês fica cristalino.
As transformações eram parecidas e as fontes também: jazz, soul, funk e bossa.
A diferença é que fizemos tudo com o nosso suingue inconfundível. Percussão como arquitetura, violão como farol e letras com cheiro de metrópole quente.
Selecionamos vinte faixas que nos ajudam a sustentar essa tese afetiva que criamos por aqui.
Quando Djavan desenha melodias, enxergamos néon refletindo no Guaíba. Quando Marina Lima canta amores elétricos, parece trilha de elevador emocional.
Gonzaguinha trouxe poesia de asfalto e sentimento de apartamento pequeno.
Sandra de Sá transformou o soul em avenida com janela aberta.
Fagner e Fátima Guedes capturaram a solidão acompanhada das capitais.
Nei Lisboa escreveu Porto Alegre como quem descreve Tóquio sem querer.
Zizi Possi deu voz à sofisticação cotidiana. Guilherme Arantes fez do pop um mirante para observar o trânsito da vida. Milton Nascimento levou o jazz para um céu de edifícios humanos.
Percebemos que o Brasil sempre teve sua música urbana e cosmopolita pulsando. A nossa “city vibe” estava nas pistas, nas novelas, nos rádios relógios. Esse repertório prova que rótulos mudam, mas a essência permanece. A música brasileira é caldeirão infinito que absorve e devolve transformado. Hoje podemos batizar de city pop brasileiro sem medo do anacronismo.
O importante é reconhecer que fizemos, e seguimos fazendo, do nosso jeito. E essa verdade urbana, tropical e sofisticada continua imbatível para conquistar a atenção de novos ouvintes.



