Clima, ultraprocessados e poluição: por que as alergias a comida crescem

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O número de pessoas com alergia alimentar vem crescendo em ritmo acelerado. Crianças e adultos reagem a itens antes bem tolerados, e a explicação vai além da herança genética. Para a alergista e imunologista Natasha Rebouças Ferraroni, o problema é fruto de múltiplos fatores. “A medicina já enxerga esse cenário como um fenômeno multifatorial — e um alerta para a necessidade de repensar a relação com o que comemos”, afirma.

Segundo a especialista, o estilo de vida moderno, as mudanças climáticas e a exposição a aditivos químicos alteram a forma como o sistema imunológico responde ao ambiente e, por consequência, aos alimentos.

O que está por trás do aumento

“As chamadas influências epigenéticas — mudanças na expressão dos genes provocadas por fatores externos — ajudam a explicar por que as alergias alimentares vêm aumentando mesmo em pessoas sem histórico familiar.”

Poluição, aquecimento global e contato constante com conservantes, corantes e agrotóxicos desbalanceiam a microbiota intestinal. “Esse desequilíbrio, somado à redução do contato com alimentos naturais e à crescente dependência de ultraprocessados, faz com que o corpo perca sua ‘tolerância imunológica’ a proteínas simples”, diz Ferraroni.

Entre os principais gatilhos hoje estão:

  • leite
  • ovo
  • trigo
  • soja
  • amendoim

“Estudos mostram que a exposição constante a substâncias químicas e à poluição ambiental pode modificar a microbiota intestinal e aumentar a permeabilidade do intestino, facilitando a entrada de proteínas que ativam respostas alérgicas.”

A hiperexposição também atinge as próximas gerações. Como resume a médica, “gestantes e crianças pequenas que convivem com um ambiente altamente processado têm maior probabilidade de desenvolver sensibilidades alimentares”. E alerta: “Trata-se de um ciclo silencioso, mas crescente — um reflexo direto da forma como vivemos e nos alimentamos.”

Como identificar e prevenir sem exageros

O primeiro passo é diferenciar alergias de intolerâncias e sensibilidades. “O diagnóstico correto é essencial para distinguir alergias verdadeiras de intolerâncias ou sensibilidades alimentares.” Segundo ela, “isso deve ser feito por um Alergista/Imunologista, que pode solicitar testes específicos e propor um plano de manejo individualizado”.

O objetivo é tratar sem restringir além do necessário. “Evitar restrições desnecessárias e identificar com precisão o alimento causador são passos fundamentais para evitar deficiências nutricionais e garantir segurança alimentar.”

Na prevenção, a palavra de ordem é simplificar. “Mas, acima de tudo, a prevenção passa por um conceito simples e cada vez mais urgente: voltar às origens.” E completa: “Comer comida de verdade — fresca, natural e com o mínimo de processamento — é a forma mais eficaz de proteger o corpo, preservar a microbiota e restabelecer a tolerância natural aos alimentos.”

Para Ferraroni, esse é um gesto de futuro. “Em um mundo que muda rápido e se torna cada vez mais artificial, recuperar a simplicidade à mesa pode ser o gesto mais moderno que existe. Afinal, fortalecer o sistema imunológico começa onde tudo começa: no prato.”

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