Entenda o movimento musical conhecido como “Pilantragem”

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Você já ouviu falar de um movimento musical brasileiro que ficou conhecido como “Pilantragem”? Ele foi o responsável por consagrar ainda mais a carreira de Simonal com clássicos como “Carango”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Vesti Azul” e “Nem Vem que Não Tem”.

Hoje, nós vamos te contar tudo sobre a “Pilantragem“.

Contexto histórico-musical

O jovem carioca Wilson Simonal de Castro já havia servido o exército pelo 8º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, quartel famoso pelo seu ativo time de futebol e por sua banda, onde aprendeu a comandar plateias e dominar o público como ninguém, já que era chefe da torcida do time e participava dos bailes como cantor da banda. 

Quando saiu do exército, foi logo formar o seu primeiro conjunto musical: os Dry Boys, chamando a atenção de Carlos Imperial, importante produtor artístico da época, que apresentava o programa “Clube do Rock”, na TV Tupi, onde a banda passou a se apresentar.

Depois disso, Simonal seguiu em carreira solo, com o apoio de Imperial – que contratou-o como seu secretário – e passou a se apresentar como crooner na boate Drink. A exposição como crooner lhe rendeu um contrato com sua primeira gravadora e a gravação de seu primeiro compacto.

Era novembro de 1963 e Simonal lançava o seu primeiro disco: “Tem ‘Algo Mais’”, que lhe deu grande exposição, fazendo com que fosse convidado por Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli para se apresentar, entre os anos de 1964 e 1965, no famoso Beco das Garrafas, travessa do Rio de Janeiro que abrigava as casas noturnas onde se apresentavam os maiores nomes da música brasileira da época.

Em 1965, Simonal lançou o seu segundo álbum, “A Nova Dimensão do Samba”, considerado por muitos como um dos melhores discos da sua carreira. 

O grande sucesso no Beco das Garrafas e das primeiras músicas gravadas trouxeram o interesse da TV Tupi em produzir um programa apresentado por Simonal. Assim, em janeiro de 1965, ele assinou contrato para apresentar o programa “Spotlight” e mudou-se para São Paulo. 

Em 1966, três anos após lançar o seu primeiro disco,  Simonal passou a ser atração fixa no programa de Elis Regina e Jair Rodrigues, “O Fino da Bossa”, na TV Record e também a fazer participações no programa da Jovem Guarda

Ainda em 1966, Simonal estreou o seu programa, “Show em Si… Monal” (que, depois de um tempo – passou a se chamar “Vamos Simbora”), na TV Record. Entre os roteiristas estavam Miele, Bôscoli, Carlos Imperial e Jô Soares.

A turma da “Pilantragem”

A partir de 1966, o pianista César Camargo Mariano tornou-se o principal arranjador das canções de Simonal. César fazia parte da banda que acompanhava Simonal, a Som Três, formada por ele no piano, Toninho na bateria e Sabá no baixo.

Foi então que Simonal, junto com César Camargo Mariano, Carlos Imperial e o cantor, compositor e produtor musical maranhense Nonato Buzar, formaram um movimento batizado de “Pilantragem”

A ideia era misturar bossa nova, samba, a nascente música soul americana, o jazz, a música de protesto e o rock que se já fazia por aqui na época com a Jovem Guarda, sem perder a qualidade, mas fazendo um som que era diferente de tudo isso, que eles definiam como “mais comunicativo” – isto é – que se comunicasse melhor com as massas, que fosse mais popular.

César Camargo Mariano contou mais sobre a ideia do movimento, em depoimento ao jornalista Ricardo Alexandre para o livro  “Nem vem que não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal”, de 2009,

“Algo que mantivesse a qualidade musical dele, a nossa, que estivesse dentro do espírito musical da época, mas que fosse algo evidentemente mais popular. E nem era ‘popular; o termo que a gente usava, era ‘comunicativo’. Isso se transformou em um desejo legítimo nosso. Trabalhávamos o tempo todo em cima desse conceito. Era comum que nos trancássemos os quatro e passássemos dias bolando os arranjos, elaborando cada detalhe do repertório, buscando essa união do bom gosto com a comunicação imediata.”

Ou, nas palavras de Sabá, também em depoimento para o jornalista Ricardo Alexandre:  “Era algo que não era iê-iê-iê, não era bossa-nova, não era canção de protesto, não era jazz, mas era tudo isso e era algo completamente diferente”.

Carlos Imperial definia que a principal característica musical da “Pilantragem” era o samba tocado em compasso 4/4, inspirado no rock e no soul estadunidenses, além da liberdade de fusão de sonoridades estrangeiras com as brasileiras, propondo-se a modernizar a música popular. 

Outro elemento característico era a invocação à participação do espetáculo por parte da platéia. Para fazer o público cantar os artistas do movimento dividiam a plateia em vozes, pediam tons diferentes, contracantos e estendiam uma canção por nove ou dez minutos, como é o caso clássico de Simonal interpretando “Meu Limão, Meu Limoeiro” (Tradicional/Adpt. José Carlos Burle), em um especial da TV Record: 

Foi nessa linha que Simonal – que ficou conhecido como Rei da Pilantragem ou Rei do Swing e gravou outras canções, como: 

  • Carango (de Carlos Imperial e Nonato Buzar)
  • Mamãe Passou Açúcar em Mim (de Carlos Imperial)
  • Nem Vem Que Não Têm (de Carlos Imperial)
  • Vesti Azul (de Nonato Buzar)

Tanto o disco “Show em Si…monal”, de 1967, quando o disco seguinte “Alegria, Alergia”, eram “Pilantragem” pura, principalmente o segundo: com várias cantigas de roda, palmas e muita gente no estúdio durante a gravação.

A fase da “Pilantragem” para Simonal durou até abril de 1969, quando saiu o seu terceiro álbum com o título “Alegria, Alegria”, este com o subtítulo de “Cada um Tem o Disco que Merece”. 

Neste disco, a banda Som Três foi ampliada, passando a contar com o sax, trompete, percussão e contrabaixo elétrico. Os destaques do disco eram os arranjos mais complicados de César Camargo, utilizando vários instrumentos diferenciados para conseguir sons, como fagotes e flugelhorns, saindo da “Pilantragem” em direção a um som cada vez mais soul.

Para além de Simonal

Apostando no movimento, em 1968, Nonato Buzar montou seu próprio grupo: A Turma da Pilantragem – do qual o cantor e compositor Cassiano chegou a fazer parte. O grupo lançou um LP homônimo em 1968: “A Turma da Pilantragem”. E um segundo LP (também homônimo) em 1969, além do álbum  “A Turma da Pilantragem Internacional”. 

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