Nem todo infarto é consequência de artérias coronárias “entupidas” por placas de gordura. Uma parcela dos pacientes sofre o evento mesmo sem obstruções relevantes vistas na angiografia, cenário que tem mudado a forma como cardiologistas investigam dor no peito e alterações nos exames.
O cardiologista Carlos Alberto Pastore explica que esse quadro é chamado de MINOCA, sigla em inglês para infarto do miocárdio com artérias coronárias não obstrutivas. Estimativas indicam que cerca de 5% a 10% dos infartos se encaixam nesse perfil.
O desafio, segundo o especialista, é que a ausência de um grande bloqueio nas coronárias pode levar à falsa impressão de que o problema é menor. “Nem sempre o que não aparece nos exames tradicionais significa ausência de doença”, alerta Pastore.
O que pode causar um infarto sem obstrução importante
No MINOCA, o infarto pode acontecer por mecanismos mais sutis, que não se apresentam como uma placa grande bloqueando a passagem do sangue. Entre as possibilidades estão alterações temporárias no calibre das artérias e problemas em vasos muito pequenos, difíceis de visualizar em exames convencionais.
Um dos exemplos é o espasmo coronariano, quando a artéria se contrai de forma transitória e reduz o fluxo sanguíneo para o coração. Outro é a doença microvascular, que afeta os pequenos vasos do músculo cardíaco. “São alterações funcionais ou estruturais mais discretas da circulação coronariana, mas que podem causar isquemia e até morte de parte do músculo”, explica o cardiologista.
Também entram na lista causas como dissecção espontânea da artéria coronária, formação de pequenos trombos e instabilidade de placas que, embora não pareçam significativas do ponto de vista anatômico, podem desencadear o evento.

Por que o quadro é mais visto em mulheres
O infarto com coronárias não obstrutivas aparece com mais frequência em mulheres, especialmente em idades mais jovens ou no período de transição para a menopausa. Ainda assim, pode passar despercebido.
Quando a angiografia não mostra obstruções importantes, existe o risco de o quadro ser interpretado de forma equivocada como menos grave ou até como um problema não cardíaco, o que pode atrasar o diagnóstico e comprometer o tratamento.
Além disso, estudos recentes vêm afastando a ideia de que o MINOCA seria sempre “benigno”. Embora o risco médio possa ser menor do que no infarto clássico, há chance de recorrência e de complicações cardiovasculares.
Investigação e tratamento podem exigir outros exames
O reconhecimento do MINOCA tem levado a uma mudança na prática clínica. A angiografia segue sendo um exame central, mas nem sempre encerra a investigação. Dependendo do caso, a avaliação pode incluir ressonância magnética cardíaca, testes de função coronariana e exames voltados à microcirculação.
Para Pastore, identificar o mecanismo por trás do infarto é decisivo porque o tratamento não é único. “Espasmo coronariano, doença microvascular e dissecção exigem abordagens diferentes”, destaca o especialista.
Ao ampliar o olhar para além das obstruções visíveis, a cardiologia reforça um recado importante: o coração pode sofrer mesmo quando as artérias parecem preservadas à primeira vista, e reconhecer isso pode fazer diferença no cuidado e no acompanhamento do paciente.


