Letrux nunca foi uma artista interessada em superfícies. Sua obra sempre mergulhou fundo nas contradições humanas: amor e caos, desejo e medo, humor e melancolia, delírio e lucidez. Certamente isso contribuiu para que ela tenha se tornado uma das vozes mais singulares, sofisticadas e emocionalmente honestas da música brasileira contemporânea. Uma artista capaz de transformar vulnerabilidade em linguagem, intensidade em estética e sentimento em palavra — tudo ao mesmo tempo.
Cantora, compositora, escritora, atriz e performer carioca, Letrux construiu uma trajetória marcada por coragem estética e liberdade criativa. Desde os tempos da banda Letuce até sua carreira solo, ela vem criando uma discografia profundamente autoral, na qual o exagero emocional convive com ironia fina, poesia cotidiana e uma teatralidade muito própria. Sua música habita aquele lugar raro entre o pop experimental, a canção confessional e a performance artística.

Agora, em seu novo disco, “Sad Sexy Silly Songs”, Letrux amplia ainda mais esse universo criativo ao mergulhar numa obra que mistura humor, sensualidade, melancolia e delírio afetivo. O próprio título já funciona quase como uma síntese perfeita de sua personalidade artística: canções tristes, sensuais e bobas — porque talvez amar, viver e sobreviver hoje em dia seja exatamente isso.
Um dos assuntos que aparece atravessando essa nova fase é a maternidade. Não a maternidade romantizada das propagandas de margarina, mas a experiência real, intensa, contraditória e por vezes delirante de ter um filho e precisar reorganizar o próprio mundo a partir disso. Um tema que surge na conversa com muita honestidade, humor e sensibilidade.
Aliás, ouvir Letrux falando é quase uma extensão da experiência de ouvir suas músicas. Existe uma inteligência muito viva no modo como ela observa o mundo. Uma capacidade de transformar pequenas cenas cotidianas em reflexões profundas sobre afeto, arte, desejo e existência. E é exatamente isso que acontece em sua participação no Vozes da Vez.
Na conversa que tive com ela no Vozes da Vez desta semana, Letrux fala sobre o processo criativo de “Sad Sexy Silly Songs”, sobre composição, exposição
emocional, maternidade, reinvenção e também sobre o desafio permanente de continuar criando num mundo tão acelerado e anestesiado. É um papo íntimo, divertido, inteligente e absolutamente sem fórmulas — como costuma ser tudo aquilo que ela faz.
Entre risadas, reflexões profundas e histórias deliciosamente caóticas, a artista mostra mais uma vez por que ocupa um lugar tão particular dentro da música brasileira atual. Letrux não parece interessada em entregar respostas prontas ou personagens organizados. Sua arte vive justamente da dúvida, da contradição e do excesso. E talvez seja isso que faça tanta gente se reconhecer nela.
A participação de Letrux no Vozes da Vez é dessas conversas que permanecem ecoando depois do fim. Um encontro entre música, afeto, vulnerabilidade e pensamento. Conversa boa à beça para ouvir, sentir — e depois ouvir tudo de novo.



