Ele parecia feliz demais me mostrando argentino sofrendo. A Copa acabou, a Argentina perdeu para a Espanha, e minha timeline virou um carnaval anti-Argentina.
A explicação confortável era simples: sou brasileiro.
O algoritmo sabe disso. Deve ter olhado para mim e pensado: “esse aqui aceita mais três vídeos de argentino sendo vaiado”. Mas parecia maior.
Então fiz uma coisa meio ridícula, portanto moderna: pedi para três LLMs diferentes pesquisarem se aquilo era só viés brasileiro ou se a Argentina tinha mesmo virado vilã global da Copa.
Não estou dizendo que três LLMs viraram instituto Gallup. Mas quando três pesquisas diferentes, em fontes diferentes, apontam para a mesma direção, dá para desconfiar que o problema não era meu feed.
A resposta foi parecida: meu algoritmo brasileiro provavelmente aumentava o incêndio.
Mas ele não tinha inventado o fogo. E o algoritmo adora jogar gasolina no fogo.
Ele não pergunta se aquilo é justo, elegante ou verdadeiro. Ele só percebe que está pegando fogo e entrega mais.
A rejeição à Argentina apareceu em várias partes do mundo do futebol: Brasil, México, Espanha, Inglaterra, parte da América Latina e comunidades globais. Com exceções importantes.
Bangladesh, Índia e Indonésia seguem tendo uma relação afetiva enorme com a Argentina. Ali, Maradona e Messi criaram uma Argentina quase local.
Mas fora desses bolsões, a Argentina virou o personagem que muita gente queria ver cair.
Aqui deixa de ser futebol. Vira marketing.
Na economia da atenção, aparecer pelos extremos funciona. Ser amado dá alcance. Ser odiado também. O algoritmo não se importa se você está sendo aplaudido ou vaiado. Ele só mede o barulho.
Só que marca não vive de barulho. Barulho chama gente para a porta. Cria conversa. Gera corte. Alimenta meme. Faz o painel de engajamento parecer uma festa.
Mas ninguém constrói reputação só porque conseguiu irritar gente demais ao mesmo tempo.
Esse é o risco. Muita marca confunde provocação com posicionamento, polarização com coragem, inimigo com comunidade e torcida contra com audiência.
Às vezes funciona. Até começar a funcionar contra ela. A Argentina perdeu a Copa para a Espanha. Mas perdeu parte da narrativa antes, quando muita gente deixou de assistir ao jogo para ver se ela caía.
Essa é a armadilha da atenção negativa. Ela entrega alcance. Entrega presença. Entrega a sensação perigosa de estar no centro da conversa. Mas também pode ensinar o mercado a torcer contra você.
A lição não é evitar provocação. Provocação boa aponta uma verdade. Provocação ruim aponta para o próprio umbigo. Antes de comemorar engajamento, veja se você está construindo público ou organizando torcida contra. No futebol isso vira meme. Em marca, vira perda de confiança.


