A passagem pelo Ministério do Meio Ambiente parece ter encerrado um ciclo importante na trajetória de Marina Silva. Em entrevista ao vivo ao Jornal Novabrasil São Paulo e o Portal THMais, nesta segunda-feira (17), a candidata ao Senado por São Paulo afirmou que considera cumprida sua contribuição à pasta e deixou claro que, se eleita, sua preferência é permanecer no Congresso.
Questionada se aceitaria um novo convite para integrar o governo em caso de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marina lembrou as três vezes em que comandou o ministério, agradeceu a confiança do presidente, mas apontou outro caminho para os próximos anos.
“Eu acho que a minha contribuição no Ministério do Meio Ambiente foi dada, principalmente agora com a agenda da reconstrução. Ministério foi pego em frangalho, ele foi reconstruído e agora está apto para que a gente possa colocar novos quadros no Ministério do Meio Ambiente.”
Na sequência, foi ainda mais direta ao Portal ThMais, sobre o futuro que pretende construir:
“Eu quero exercer o mandato de senadora porque é no Senado em que corre o maior risco. Agenda ao ser implementada, os resultados a serem alcançados, eles precisam ter continuidade.”
A fala não representa uma promessa formal de que Marina recusaria qualquer convite futuro para o Executivo. Mas, até aqui, é uma das manifestações mais claras da candidata sobre a intenção de cumprir um eventual mandato no Senado, em vez de retornar ao Ministério do Meio Ambiente.
Meio ambiente como parte da economia
A agenda ambiental apareceu desde o início da entrevista, mas Marina procurou apresentá-la para além da preservação do meio ambiente. Para ela, o tema atravessa desenvolvimento econômico, geração de empregos, indústria e produção de energia.
“A pauta ligada ao meio ambiente, como eu digo, é uma pauta transversal. Ela tá em todos os setores. Mesmo que as pessoas não tenham consciência dela, ela perpassa todos os setores, porque não existe desenvolvimento sem as bases naturais desse desenvolvimento.”
Ao falar especificamente de São Paulo, Marina defendeu que o estado pode ocupar posição estratégica na transição energética e associou esse processo à recuperação do crescimento econômico.
“Então, toda a minha campanha [vai] na direção de um novo ciclo de prosperidade. E para que isso aconteça, a gente tem que ter uma educação de qualidade, segurança, que dá suporte para as pessoas, confiança e, ao mesmo tempo, criar condições para que os investimentos possam vir para o estado de São Paulo.”
Confira a íntegra da sabatina:
Disputa pelo Senado e eleitor de fora da base de Lula
Marina também foi questionada sobre pesquisas eleitorais e sobre sua capacidade de alcançar eleitores que não votam no presidente Lula.
Ela ponderou que a disputa pelo Senado possui uma particularidade neste ano: cada eleitor poderá escolher dois nomes. Na avaliação da candidata, isso abre espaço para votos que não necessariamente reproduzem a divisão entre governo e oposição.
“O eleitor na eleição para o Senado, ele tem a possibilidade dos dois, esse é um manejo complexo, porque na cabeça das pessoas eles acham que tem que escolher entre um e outro.”
Marina também voltou a defender a chapa formada com Simone Tebet e colocou entre as prioridades a ampliação da presença feminina no Congresso e o enfrentamento à violência contra as mulheres.
Marina critica emendas parlamentares
Outro ponto de forte crítica foi o atual modelo de emendas parlamentares. Ao ser questionada sobre a intenção de Lula de enfrentar o peso desses recursos no Orçamento, Marina classificou o mecanismo atual como uma interferência excessiva do Legislativo sobre atribuições do Executivo.
“Para mim, as emendas parlamentares, do jeito que estão, é um sequestro do orçamento do poder executivo, mais de 60 bilhões… e, muitas delas, sem transparência, vai para coisas que não ligam o lé com o cré.”
Ela argumentou que parlamentares não deveriam utilizar recursos públicos com finalidade eleitoral e defendeu que o eleitor também responsabilize nas urnas quem atua dessa forma.
“Eu acho que esse é o momento que a gente tem a chance de convencer o eleitor, não vote naqueles pares que querem continuar sequestrando o dinheiro do executivo, que em vez de ir pra saúde, ir pra educação, pra segurança pública, tá indo para outras coisas, só para ganhar um novo mandato.”
Estado necessário e cobrança sobre gasto público
Heródoto Barbeiro questionou Marina sobre o tamanho da arrecadação brasileira e o déficit das contas públicas. A candidata reconheceu que gastar mais do que se arrecada é um problema, mas direcionou a resposta para a eficiência do gasto e para o papel que, em sua visão, o poder público deve exercer.
“O estado não se tem que entrar nessa discussão se ele é máximo ou se ele é mínimo. Ele tem que ser, às pessoas que estão nos acompanhando, o estado necessário.”
Marina rejeitou tanto a ideia de um Estado que concentre todas as atividades quanto a de um governo dedicado apenas à regulação. Como exemplo, criticou a privatização da Sabesp e defendeu parcerias com a iniciativa privada submetidas a planejamento e regras públicas.
Quando Heródoto insistiu em saber de onde sairia o dinheiro para cobrir a diferença entre arrecadação e despesas, Marina voltou a apostar no aumento da eficiência e da produtividade.
“A conta fecha no momento em que você dá mais eficiência, o estado produz mais.”
Ela argumentou que investimentos em educação, infraestrutura e adaptação a eventos climáticos também devem ser considerados pela capacidade de evitar prejuízos futuros.
Eleição, democracia e soberania
A campanha presidencial também entrou na conversa. Perguntada se 2026 repetiria a narrativa de defesa da democracia utilizada quatro anos antes, Marina respondeu que considera o cenário atual ainda mais grave.
“Não dá para repetir a mesma narrativa, porque eu acho que o problema se agravou.”
A candidata relacionou o debate democrático à soberania nacional e fez críticas ao grupo político ligado à família Bolsonaro. Também defendeu uma frente política ampla em torno desses dois temas.
“Se tivermos que fazer uma frente ampla pela democracia interna do nosso país, agora, nesse contexto geopolítico, nós temos que fazer uma aliança mais ampla ainda para salvar a democracia e a soberania.”
Para Marina, democracia não deve ser entendida apenas como funcionamento das instituições ou realização de eleições. Ela associou o conceito também ao acesso à educação, segurança pública, serviços e condições dignas de vida.
Liberdade de imprensa, Supremo e papel do Senado
Um dos momentos mais duros da entrevista veio novamente em pergunta de Heródoto Barbeiro. O jornalista citou decisões judiciais que atingiram o sigilo de fonte e questionou o silêncio do Senado diante de possíveis excessos do Supremo Tribunal Federal.
Marina afirmou que a liberdade de imprensa e o direito ao sigilo da fonte são garantias fundamentais.
“A liberdade de imprensa, ela é sagrada, deve ser respeitada. O direito à fonte e isso tudo é o que tá na nossa Constituição.”
Ao mesmo tempo, rejeitou a ideia de que o Senado deva atuar politicamente contra ministros do STF por divergências ideológicas.
“O papel do Senado não é de intervir em cima de um poder. Isso tá errado também diante da Constituição, porque tem gente aí que tá querendo se eleger para caçar ministros do Supremo em função de ideologia. Isso também é errado.”
Para ela, eventuais abusos devem ser enfrentados pelos mecanismos institucionais de controle e correção.
“Se tem excessos dentro do judiciário, existem mecanismos que podem ser acionados e o Senado tem a obrigação de zelar por eles. É isso que eu vou fazer.”
Marina encerrou a entrevista voltando à representatividade feminina. Ela lembrou que as mulheres continuam sendo minoria no Congresso e apresentou a chapa com Simone Tebet como uma tentativa de diminuir essa diferença.


