90 anos de Maysa. Nove décadas de uma das cantoras mais importantes da nossa história, que eternizou a dor de cotovelo na música brasileira e cantou a fossa como ninguém. Para celebrar a cantora – que infelizmente nos deixou em janeiro de 1977, aos 40 anos de idade – trouxemos alguns dos trechos mais emblemáticos de suas canções.
Maysa foi uma artista à frente de seu tempo, que desafiou convenções sociais e estéticas, e deixou uma marca profunda na música popular brasileira. Sua capacidade de interpretar com intensidade e dor moldou uma geração de artistas e abriu espaço para novas formas de expressão feminina na música. Mesmo décadas após sua partida, seu legado permanece vivo e influente.
Mais sobre Maysa
Maysa Figueira Monjardim Matarazzo nasceu no Rio de Janeiro, no dia 6 de junho de 1936, em uma família tradicional e abastada da sociedade, vinda do Espírito Santo.
Desde jovem Maysa demonstrou aptidão para as artes, especialmente a música. Aos 12 anos, já compunha canções (sua primeira composição foi a canção “Adeus“) e tocava violão, embora a família não incentivasse sua carreira artística, desejando que seguisse padrões sociais mais convencionais.
Aos 18 anos, Maysa casou-se com o empresário André Matarazzo Filho, membro de uma das famílias mais influentes de São Paulo. Em 1956, aos 20 anos, a cantora lançou seu primeiro álbum, “Convite para Ouvir Maysa”, que trouxe sucessos de sua autoria, como “Adeus”, “Resposta” e “Tarde Triste”.
Seu estilo vocal, ao mesmo tempo melancólico e sofisticado, a destacou na cena musical brasileira, em um período dominado por intérpretes mais contidas. Maysa emocionava profundamente, abrindo espaço para o chamado “samba-canção” ou, como ficou conhecida popularmente, a “música de fossa” ou “de dor de cotovelo”.

Em 1957, no seu segundo LP – que levou o seu nome – Maysa lançou “Ouça”, um clássico absoluto do samba-canção, que tornou-se uma das músicas mais associadas à artista, destacando-se pela interpretação cheia de sentimento e sofrimento amoroso.
A cantora compôs “Ouça” para falar da dor que sentia com a situação em que seu casamento se encontrava, porque o marido não queria mais que ela atuasse como cantora, pois isto não era bem visto pela sociedade machista e conservadora daquela época.
Já o seu maior sucesso, “Meu Mundo Caiu”, foi lançado em 1958 e virou um verdadeiro hino nacional das desilusões amorosas, consolidando a imagem de Maysa como uma cantora intensa, de personalidade forte e vida pessoal marcada por paixões tumultuadas.
Ela rapidamente tornou-se uma das maiores estrelas do Brasil, com apresentações em programas de rádio e televisão, além de shows em cassinos e teatros.
No fim dos anos 50, rompeu com as convenções da elite paulistana, separou-se do marido – que não apoiava a sua carreira – e partiu em turnês internacionais, apresentando-se em diversos países pelo mundo.
Segundo Maysa, é fato afirmar que após sua separação, explodiu seu impulso criativo. É desta época que nasceram seus maiores clássicos e as composições de maior sucesso de sua carreira.
Durante este período, o tom de suas letras começou a mudar, suas músicas começaram a adquirir um viés cada vez mais dramático, rodeadas sempre pelos mesmos temas que atormentavam a cantora. Maysa se desnudava cada vez mais ao público em cada letra, sua personalidade era transposta nos versos e a mostravam cada vez mais aflita e angustiada.
Ao longo da carreira, Maysa também se aproximou da Bossa Nova, embora sua alma estivesse sempre ligada à melancolia do samba-canção. Sua versão de “O Barquinho”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, é considerada uma das mais delicadas e emocionantes do gênero.
Sua interpretação melancólica e intensa do clássico do belga Jacques Brel, “Ne Me Quitte Pas” tornou-se uma das versões mais marcantes desta canção no Brasil, demonstrando sua conexão também com a música européia.
A vida pessoal de Maysa foi marcada por romances, polêmicas e uma busca incessante por liberdade, o que lhe conferiu o posto de mulher moderna e à frente do seu tempo, mas também a fez sofrer por conta da depressão e do abuso do álcool.
A cantora faleceu tragicamente em um acidente de carro, em 22 de janeiro de 1977, aos 40 anos, deixando um legado incontestável na música brasileira. Sua voz continua a emocionar e influenciar artistas de várias gerações.
Sua trajetória virou tema de livros, filmes e até uma minissérie de televisão, reafirmando seu papel como uma das figuras mais importantes da história da música popular brasileira.
10 versos de Maysa carregados de fossa
1 – “Ouça, vá viver
Sua vida com outro bem
Hoje eu já cansei
De pra você não ser ninguém”
(“Ouça” – 1957)
2 – “Quando a lembrança
Com você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar
Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar”
(Ouça – 1957)
3 – “Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim”
(Meu Mundo Caiu – 1958)
4 – “Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar”
(Meu Mundo Caiu – 1958)
5 – “Por onde andará quem amei
Será que também vive assim
Sofrendo como só eu sei
Pensando um pouquinho em mim
Tarde triste, noite vem, já está descendo
E eu sozinha, sofrendo”
(Tarde Triste – 1956)
6 – “Pouco importa a razão da verdade
Que impede a felicidade
De morar no meu coração
Pouco importa se tudo hoje em dia
Se baseia na diplomacia
Que semeia a desunião”
(Diplomacia – 1958)
7 – “Felicidade, deves ser bem infeliz
Andas sempre tão sozinha
Nunca perto de ninguém
Felicidade, vamos fazer um trato
Mande ao menos teu retrato
Pra que eu veja como você é”
(Felicidade Infeliz – 1958)
8 – “Só tu não estás vendo a minha agonia
Marcada em meu rosto de noite e de dia
Sofrendo calada, chorando sozinha
Trazendo comigo a dor que é só minha”
(Marcada – 1956)
9 – “Maria que é triste
Faz da saudade um brinquedo
Não chore, nem tenha medo
Tenta aprender a fingir
Maria, tristeza é companhia
O mar é que sente alegria
Em ver a gente sofrer”
(Maria que é Triste – 1958)
10 – “Meu verso sempre tão triste
Volta pedindo desculpas
Pelo triste que causou
Meus olhos tantas vezes decantados
Inda mais desencantados
Voltam triste ao que deixou”
(Voltei – 1960)


