A preocupação com microplásticos deixou de ser apenas ambiental e passou a entrar no radar da saúde. Essas partículas microscópicas, presentes em embalagens, roupas sintéticas e inúmeros produtos do dia a dia, podem ser ingeridas com alimentos e água ou inaladas pelo ar — e, uma vez no organismo, interagem com sistemas biológicos complexos, incluindo o reprodutivo.
Para a ginecologista Dra. Stephanie Majer, o tema chama atenção porque envolve uma exposição constante e difícil de controlar. “Não estamos falando de contato pontual, mas de baixas doses ao longo da vida, o que torna mais complicado medir impacto e estabelecer relações diretas”, afirma.
Entre as maiores preocupações estão compostos ligados ao plástico, como bisfenol A (BPA) e ftalatos. Eles são classificados como disruptores endócrinos — substâncias capazes de interferir na ação dos hormônios, essenciais para processos como ovulação e produção de espermatozoides.
Na prática, esses compostos podem atuar como “imitadores” de hormônios ou bloquear sinais hormonais importantes, desequilibrando mecanismos que sustentam a função reprodutiva. “Como o sistema reprodutivo depende de uma regulação hormonal fina, qualquer interferência pode ter repercussões”, explica a médica.
O que já foi encontrado no corpo humano
Nos últimos anos, pesquisas passaram a detectar microplásticos em diferentes tecidos humanos, incluindo sangue, placenta e também no líquido folicular — o ambiente em que o óvulo se desenvolve antes da ovulação. A presença nesse local ampliou o debate sobre possíveis efeitos na fertilidade feminina.
Estudos experimentais têm levantado hipóteses de associação entre esses contaminantes e alterações na qualidade dos óvulos, no desenvolvimento embrionário e em etapas ligadas à fertilização. Em laboratório, também aparecem sinais de processos como inflamação, estresse oxidativo e alterações na função celular — mecanismos que, em tese, podem prejudicar a saúde reprodutiva.
Ainda assim, especialistas reforçam que o conhecimento está em construção. “Grande parte das evidências vem de estudos iniciais e experimentais; a relação direta entre microplásticos e infertilidade humana ainda está sendo investigada”, destaca Dra. Stephanie Majer.

O que muda para quem está tentando engravidar
Mesmo sem conclusões definitivas, a discussão já influencia a forma como a medicina olha para alguns casos, especialmente quando não há uma causa aparente para a infertilidade ou quando ocorrem falhas repetidas em tratamentos.
Na reprodução assistida, por exemplo, cresce a atenção com o ambiente laboratorial e com a possibilidade de exposição a contaminantes. A ideia é reduzir ao máximo fatores externos que possam interferir em etapas sensíveis, como a manipulação de óvulos e embriões.
No dia a dia, eliminar totalmente a exposição a microplásticos é improvável. Ainda assim, algumas medidas podem ajudar a reduzir o contato, dentro de uma estratégia mais ampla de cuidado com a saúde:
- · evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos;
- · preferir vidro ou inox para armazenar comida e bebidas;
- · reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados;
- · evitar contato frequente com produtos que liberam compostos químicos.
Essas ações não funcionam como garantia de proteção, mas podem contribuir para diminuir a exposição cumulativa. “São escolhas que fazem sentido como prevenção, enquanto a ciência avança para entender o tamanho desse efeito”, afirma a médica.
O impacto dos microplásticos na fertilidade ainda está sendo decifrado. O que já se sabe, porém, é que o ambiente se conecta diretamente ao funcionamento do organismo — e, quando o assunto é reprodução, até fatores invisíveis podem ter relevância


