No Brasil, as mulheres vivem, em média, cerca de sete anos a mais do que os homens, segundo dados do IBGE. Essa diferença, no entanto, não se traduz necessariamente em mais anos com saúde. Ao contrário, elas tendem a passar uma parcela maior da vida convivendo com doenças crônicas, limitações funcionais e maior necessidade de cuidados.
Esse fenômeno é conhecido na geriatria como paradoxo da longevidade feminina. “As mulheres vivem mais, mas muitas vezes passam uma parte maior da vida lidando com doenças e perda de autonomia. O desafio hoje não é só aumentar a expectativa de vida, mas melhorar a qualidade desses anos”, afirma a geriatra Julianne Pessequillo.
Por que as mulheres vivem mais
A diferença começa a se desenhar ainda nos primeiros anos de vida. Meninos apresentam maior risco de complicações desde a gestação e na infância, o que impacta a mortalidade ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, fatores genéticos e hormonais ajudam a explicar a maior sobrevida feminina. A presença de dois cromossomos X pode oferecer maior proteção contra algumas doenças hereditárias, enquanto o estrogênio exerce papel relevante na proteção do sistema cardiovascular, dos ossos e da massa muscular durante a vida reprodutiva.
“Antes da menopausa, as mulheres têm menor risco de infarto e AVC em comparação aos homens da mesma idade. Esse efeito protetor ao longo dos anos contribui para que elas vivam mais”, explica a especialista.
Além da biologia, o comportamento também influencia esse cenário. Mulheres, em geral, procuram mais os serviços de saúde, realizam exames preventivos com maior frequência e aderem melhor aos tratamentos. Isso favorece o diagnóstico precoce e o controle de diversas condições. “Esse acompanhamento mais próximo reduz a mortalidade, mas não impede o surgimento de doenças crônicas ao longo do tempo”, diz a geriatra.
Entre os homens, ainda pesam fatores como maior exposição ao tabagismo, consumo de álcool, acidentes e violência, especialmente em fases mais jovens da vida, o que contribui para uma expectativa de vida menor.

Por que adoecem mais na velhice
É na velhice que essa diferença se torna mais evidente. As mulheres tendem a morrer menos de forma súbita, mas acumulam mais anos convivendo com doenças que afetam diretamente a qualidade de vida. Entre as condições mais frequentes estão osteoporose, artrose, dores crônicas, depressão, ansiedade e demências.
“Elas vivem mais tempo com limitações funcionais. Isso significa maior necessidade de acompanhamento, adaptações na rotina e, muitas vezes, apoio de familiares ou cuidadores”, afirma Julianne Pessequillo.
Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que as mulheres vivem mais anos com incapacidade funcional do que os homens, o que reforça a necessidade de estratégias de cuidado ao longo de toda a vida.
Para a especialista, o foco precisa estar na qualidade desses anos adicionais. “Não basta viver mais. É fundamental viver com independência, mobilidade e bem-estar, e isso começa muito antes da velhice”, afirma.
A recomendação inclui prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle de doenças crônicas, atenção à saúde mental e acompanhamento médico contínuo. “Envelhecer bem é um processo construído ao longo dos anos. Pequenas decisões no dia a dia têm impacto direto na autonomia e na qualidade de vida no futuro”, conclui.


