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Nova geração reencontra a MPB como linguagem de pertencimento

Milton Nascimento anunciou o futuro  em “renova-se a esperança, nova aurora a cada dia e há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto”, na música de 1983, Coração de Estudante. Homenagem ao acadêmico Édson Luís e ao símbolo da resistência da juventude durante a ditadura, ecoa até hoje, não apenas como memória, mas como inspiração. Aquele cenário de censura e repressão deu origem a letras que denunciavam a violência do governo e reafirmavam o poder da arte como instrumento político. Décadas depois, essas mesmas canções voltam ao cotidiano dos jovens de 18 a 25 anos, a chamada Geração Z.

O consumo da música popular brasileira entre esse público cresceu 64%, segundo levantamento da Billboard Brasil com base em dados do Spotify. O número ajuda a explicar um movimento que vai além das plataformas de streaming: uma redescoberta da MPB que atravessa gerações e se reafirma como parte essencial da identidade brasileira. Outro dado interessante vem da pesquisa TGIndex da Kantar IBOPE Media, que mostra que entre a Geração Z que ouve rádio na Grande São Paulo, o interesse pela MPB cresceu 7,1% entre os que afirmam escolher, gostar e escutar sempre o gênero. Além disso, esse público tem ampliado sua participação tanto no consumo de MPB quanto no tempo médio de escuta de rádio.

Os dados revelam que o que antes era visto como “música de outra época” hoje volta a ocupar espaço na vida dos jovens. Mais do que um gesto nostálgico, há um reencontro com algo que define o próprio país: a canção como espelho da identidade e da memória coletiva. É o que já dizia Cecília Meireles “Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais.”, em Renova-te, poema que fala sobre a necessidade de se refazer e enxergar o mundo com novos olhos. A MPB parece praticar exatamente isso, renascer em cada geração, multiplicar seus olhares, e continuar sendo reflexo de quem somos.

O que se ouve é um reencontro entre gerações. Canções de Djavan, Marisa Monte, Legião Urbana e Seu Jorge convivem com nomes que representam a nova cena da música brasileira. Liniker, Anavitória, Tim Bernardes, Ana Frango Elétrico, Rubel entre outros. Artistas que atualizam o gênero sem medo de experimentar, misturam o eletrônico ao violão, o afeto à crítica, e ajudam a mostrar que a MPB não é coisa do passado: é uma linguagem em transformação.

A socióloga da Universidade Estadual de Campinas, Daniela Vieira, explica que essa relação entre juventude e MPB não é exatamente nova. Desde a bossa nova até o rock nacional dos anos 80, foram os jovens que ditaram o ritmo das mudanças culturais no país.  Segundo ela, “a juventude está sempre aberta a transformações, e as canções brasileiras sempre impactaram, sobretudo, os mais jovens”.

Mas a força da MPB não está só nas melodias. Parte do encanto e da permanência vem do papel político que o gênero desempenhou — e continua desempenhando — ao longo das décadas. De Chico Buarque e Elis Regina às novas vozes que falam sobre identidade, gênero e diversidade, a MPB segue como espaço de expressão e resistência.

“É a legitimidade da MPB, muito focada na orientação política que esse tipo de canção estruturou no nosso país, também na qualidade estética dessa canção. Muito bem feitas, bem produzidas, elaboradas, reflexivas … canções que cantaram aspectos significativos da história da sociedade brasileira. E, em particular, o golpe civil-militar e depois o processo de redemocratização.” reforça a socióloga 

O papel da canção brasileira permanece em contar o país. A música circula com liberdade, no rádio, nas plataformas e continua traduzindo a experiência de ser brasileiro. Talvez esse seja o segredo da permanência. A MPB não está voltando, ela nunca foi embora, e convive como se o tempo tivesse decidido não escolher um só caminho. 

E, no meio de tudo isso, os jovens encontram um som que não fala apenas de ontem, mas também do agora. Como canta Milton Nascimento em Coração de Estudante, “há de se cuidar da vida e cuidar do mundo”, porque a música também é um ato de cuidado. Cuidar da vida, da sociedade, da memória, e do que queremos ser como nação. No fim, talvez a MPB ensine isso: a cada geração, é preciso reinventar o Brasil que se canta e o Brasil que se vive.

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