Medicamentos como Ozempic e Mounjaro, usados no tratamento da obesidade e do diabetes, passaram a chamar atenção por um efeito que vai além da perda de peso: mudanças na vida sexual. Em consultórios e nas redes sociais, usuários descrevem alterações no desejo, na autoestima e até na dinâmica dos relacionamentos ao longo do tratamento.
O urologista Marcos Tobias Machado explica que a sexualidade costuma refletir uma combinação de fatores físicos e emocionais, e que transformações rápidas no corpo podem repercutir nessa área. “Esses medicamentos não atuam apenas no estômago ou no apetite. Eles também podem ter efeitos relevantes sobre metabolismo, cérebro e sistema de recompensa”, afirma.
Os relatos, porém, não seguem um único padrão. Enquanto algumas pessoas dizem que passaram a ter mais disposição e interesse sexual após emagrecer, outras contam que notaram redução da libido, menos interesse afetivo ou uma sensação de apatia emocional durante o uso.
Quando o emagrecimento pode favorecer a vida sexual
A obesidade está associada a alterações hormonais e metabólicas que podem afetar diretamente a sexualidade. Condições como resistência à insulina, inflamação crônica, hipertensão, diabetes, apneia do sono e problemas cardiovasculares costumam impactar libido, energia e desempenho sexual em homens e mulheres.
Com a perda de peso e a melhora metabólica, parte desses fatores tende a melhorar. De acordo com o especialista, o emagrecimento pode favorecer níveis hormonais, circulação sanguínea, disposição física e autoestima corporal, elementos que influenciam diretamente o desejo e a satisfação sexual.
Nos homens, a redução de gordura visceral pode contribuir para melhora da testosterona e da função erétil. Nas mulheres, a melhora metabólica e a redução da inflamação podem influenciar energia, bem-estar e percepção corporal.
Além disso, a mudança na autoimagem costuma pesar na experiência íntima. “Muitos pacientes relatam aumento da confiança e mais segurança nas relações”, destaca Machado.

Por que alguns pacientes sentem o efeito oposto
Apesar desse cenário, nem todo mundo reage da mesma forma. Há pessoas que descrevem diminuição do desejo sexual ou mudanças emocionais inesperadas durante o tratamento, e a ciência ainda não tem uma resposta definitiva para explicar todos os casos.
Uma das hipóteses envolve o impacto psicológico de uma transformação corporal acelerada. Emagrecer rapidamente pode alterar a autoestima, a percepção da própria identidade e até a dinâmica de um relacionamento, o que pode mexer com o interesse sexual.
Outro ponto é que libido não depende apenas de hormônios. Aspectos emocionais, psicológicos, relacionais e neurológicos também têm forte influência. Nesse contexto, ganha força a discussão sobre possíveis efeitos desses remédios em áreas do cérebro ligadas ao prazer, à motivação e ao sistema de recompensa.
“Os receptores de GLP-1 não estão só no sistema digestivo; eles também aparecem em regiões cerebrais associadas a apetite, prazer e comportamento compulsivo”, explica Machado. Segundo ele, pesquisas vêm investigando se essas medicações poderiam influenciar impulsos além da alimentação, como consumo de álcool, tabagismo e compulsões.
Isso não significa que o tratamento “desligue” automaticamente o desejo sexual, mas sugere que os efeitos podem ser mais amplos do que se imaginava. Ainda assim, faltam estudos robustos focados especificamente na sexualidade humana, e grande parte do que se sabe hoje vem de observações clínicas e relatos de pacientes.
A recomendação, segundo o urologista, é evitar conclusões simplistas. “Cada organismo reage de forma diferente ao emagrecimento e às medicações”, alerta. Para ele, o principal é reconhecer que sexualidade também faz parte da saúde metabólica, emocional e hormonal — e que mudanças importantes no corpo podem se refletir no desejo, no prazer e nas relações.

