Paulinho da Viola é a personificação da elegância e da memória do samba. Sua música não grita, não disputa atenção, não se impõe pelo excesso. Ela flui. Assim como um rio, sua obra atravessa gerações de forma contínua, profunda e essencial. Foi um rio que passou em minha vida é mais do que uma canção: é uma metáfora sobre pertencimento e identidade.
Paulinho construiu uma carreira baseada no respeito à tradição do samba e à história do povo negro. Ele nunca tratou o gênero como produto descartável, mas como herança ancestral, fruto da resistência cultural de comunidades que transformaram exclusão em arte. Seu compromisso sempre foi com a memória.
Em um país que frequentemente apaga sua própria história, Paulinho insiste em lembrar. Ele canta os mestres, as rodas, as escolas de samba, os saberes que não estão nos livros, mas vivem na oralidade e na música. Sua obra é um arquivo vivo da cultura negra brasileira.
Além disso, Paulinho ensina que sofisticação não está ligada à elitização, mas ao cuidado com a palavra, o silêncio e o tempo. Ele representa uma forma de existência negra que não precisa se justificar, apenas seguir seu curso — como um rio que continua correndo, mesmo quando tentam represá-lo.



