A busca por “fazer todos os exames” logo na primeira consulta e a peregrinação por vários especialistas ao mesmo tempo têm pesado no bolso de quem depende de plano de saúde no Brasil. Essas práticas elevam os custos do sistema e ajudam a explicar reajustes mais altos nas mensalidades, especialmente em contratos coletivos.
Para o médico Eduardo de Souza Meirelles, reumatologista e geriatra, parte da população passou a associar qualidade a volume de solicitações. “Muita gente valoriza e até incentiva que o médico peça o maior número de exames possível, principalmente na primeira consulta”, afirma.
No mesmo movimento, ele aponta que beneficiários de planos de saúde tendem a procurar diversos especialistas em paralelo, em vez de ter um acompanhamento centralizado por um clínico geral ou médico generalista. A consequência, na prática, é o aumento de consultas e de exames repetidos, além de tratamentos que nem sempre se conectam entre si.
Hoje, apenas cerca de 25% dos brasileiros têm plano de saúde, segundo o especialista, mas os efeitos do aumento de custos se espalham pelo setor: operadoras repassam parte do gasto aos usuários, principalmente por meio de reajustes anuais.
Meirelles também chama atenção para a responsabilidade compartilhada na escalada de pedidos e procedimentos sem necessidade clara. “Há médicos coniventes com essas práticas”, alerta, ao comentar que a formação profissional pode influenciar a qualidade das decisões clínicas.
Por que isso vira reajuste na mensalidade
Na visão do médico, um dos motores do encarecimento é o desperdício: exames e procedimentos desnecessários ou feitos em duplicidade elevam a chamada sinistralidade, indicador que mede a relação entre o que as operadoras arrecadam e o que gastam com atendimentos.
Quando esse índice sobe, os planos — sobretudo os coletivos, como familiares, empresariais e por categoria — tendem a repassar o aumento aos beneficiários. O especialista cita casos de reajustes que chegaram a 30% em uma operadora, em um cenário regulado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

O que outros países têm feito para conter custos
Em sistemas públicos e privados de países com alto custo em saúde, uma resposta tem sido reforçar a atenção primária — a porta de entrada do cuidado — e valorizar o médico generalista. Além disso, a adoção de estudos de custo-efetividade para incorporar novas tecnologias e mudanças no modelo de remuneração vêm ganhando espaço como forma de controlar gastos sem perder qualidade.
Esse debate leva a um conceito que cresce no mundo: o cuidado em saúde baseado em valor. A ideia é sair de modelos que pagam principalmente por volume — como a remuneração por serviço — e caminhar para formatos que premiem resultados relevantes para o paciente.
“A diferença é que esses modelos incentivam e premiam metas de qualidade, com foco em desfechos clínicos relevantes”, destaca Meirelles. Na prática, entram no radar indicadores como melhora funcional, controle de sintomas, redução de complicações e uma jornada de cuidado mais organizada — e não apenas a quantidade de consultas, exames e procedimentos.
Apesar de promissor, o caminho não é simples. O especialista ressalta que a mudança exige transformação cultural de pacientes, médicos, operadoras e prestadores, além de negociações para que eventuais ganhos sejam distribuídos de forma equilibrada. “Na teoria, faz todo sentido; na prática, depende de mudanças de comportamento e de acordos do tipo ganha-ganha”, conclui.

