Para muitos pais, amar é proteger o tempo todo. Mas, na prática, essa tentativa de evitar qualquer tropeço pode acabar atrapalhando o desenvolvimento emocional da criança. A psicóloga Fernanda Papa de Campos defende que educar para a independência exige um passo difícil: “abrir mão do controle hoje para colher a força emocional amanhã”.
Segundo ela, a frustração tem um papel importante nesse processo. “A frustração, afinal, nada mais é do que o treino para a autonomia”, afirma. Em vez de eliminar obstáculos, a ideia é ajudar o filho a ganhar ferramentas para lidar com eles.
Frustração também ensina
No dia a dia, pequenos contratempos podem virar aprendizados: um “não”, um brinquedo quebrado, uma nota baixa. Fernanda chama atenção para situações em que adultos tentam “resolver num passe de mágica” o que a criança poderia enfrentar com orientação.
“Quando poupamos os filhos das consequências naturais de suas atitudes, roubamos deles o orgulho de dizer: ‘Eu dei conta’”, diz. Para ela, é nesse espaço de tentativa e erro que nasce a autoconfiança: “a frustração se torna o combustível da autoconfiança”.
Quando a proteção vira um recado de desconfiança
A psicóloga observa que a superproteção costuma caminhar junto com um medo silencioso dos próprios pais. Ao controlar tudo, das amizades aos prazos escolares, a mensagem passada pode ser outra: “Eu não acho que você consiga sozinho”.
Esse padrão, segundo Fernanda, pode travar escolhas simples e mais tarde se refletir na vida adulta. “Crianças que não fazem pequenas escolhas hoje serão adultos perdidos diante de decisões comuns, como escolher uma carreira ou até o prato em um restaurante”, afirma. Em alguns casos, ela completa, o que parece ansiedade social pode ser falta de treino emocional: “apenas um ‘músculo emocional’ atrofiado por falta de uso”.

Como incentivar autonomia sem abandonar o cuidado
Na visão da especialista, o caminho está no equilíbrio entre acolher e observar. Isso inclui permitir que a criança lide com conflitos do cotidiano, como brigas com amigos ou tarefas difíceis, sem intervenção imediata.
Ela recomenda que os pais valorizem mais o esforço do que apenas o resultado, deixando claro que errar faz parte. Outra estratégia é trocar a resposta pronta por perguntas que estimulem o raciocínio, como: “Como você acha que isso pode ser resolvido?”.
Também ajuda dar espaço para a criança nomear sentimentos e falar sobre medos sem receio de julgamento. E, quando possível, incentivar experiências fora da zona de conforto, como tarefas em casa e atividades em grupo, para que ela reflita sobre o que aprendeu com cada desafio.
No fim, resume Fernanda, amar não significa segurar com força o tempo todo. “O amor não deve ser um cabo inflexível, mas a mão que solta no momento certo”, afirma. Para ela, priorizar esforço e persistência é o que constrói uma base emocional sólida para o filho reconhecer limites, desenvolver habilidades e aprender a lidar com as próprias fraquezas.


