O Reino Unido passa por uma crise intensa. A sensação é de que tudo subiu: luz, gás, comida, custo de vida no geral, revela a britânica Gillian East. O sentimento é o mesmo de tantos outros milhões de pessoas em meio à instabilidade do governo de Keir Starmer, que pode até cair.
Gillian é massoterapeuta e se mudou com o marido do centro da capital para os arredores de Londres. Ela também viu a filha se mudar com o companheiro e as netas para a Austrália em busca de mais “estabilidade e segurança” para as crianças.
Por um lado, jovens têm tido dificuldade para terem suas casas em Londres, onde os preços estão nas alturas. Por outro lado, a “queda de empresos devido à IA” e a “guerra” também “não têm ajudado“, revela Gil.
A crise no Reino Unido se resume numa crise de “várias crises juntas“, avalia o professor de Relações Internacionais da ESPM, Demetrius Pereira. Uma mistura de instabilidade política e econômica onde “uma alimenta a outra“. E ainda há o peso da falta de credibilidade ou firmeza por parte de Starmer, que não atende aos anseios da população.
Nas eleições locais, por exemplo, que preenchem as vagas de vereadores e prefeitos, o Partido Trabalhista de Starmer perdeu 1.496 cadeiras nos quatro países que integram o Reino Unido. O que é mais de 50% do que a legenda dispunha. Em contrapartida, a extrema-direita ganhou terreno. A situação levou à renúncia do secretário de saúde britânico, que foi apontado como possível candidato direto contra o atual premiê.
Mas por quê?
Há que se lembrar que há exatos 10 anos, o Reino Unido optou por se retirar da União Europeia, o bloco comercial e político dos países europeus. A decisão do “Brexit” foi inédita, mas atravessada por desinformação e desconfiança.
“A partir daí, começa uma instabilidade muito grande na política britânica”, define, Pereira. Desde então, o Estado britânico passou a enfrentar escassez de mão de obra encarecimento do custo de vida, já que o país deixou de ter acesso livre ao restante da Europa.
Dali em diante, o movimento arriscado do Reino Unido resultou numa sucessão de primeiros-ministros. Foram seis num período de 10 anos, o que em condições normais durariam pelo menos 5 anos cada no governo. A queda mais rápida foi a de Liz Truss, que ficou no cargo por apenas 44 dias.
Além disso, há uma série de fatores e posições dos primeiros-ministros que “não necessariamente estão atendendo a população ou as demandas da população e conseguindo acompanhar os conflitos externos que também influenciam o Reino Unido no geral“, explica o professor.
Instabilidade na Europa
E ainda há a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Gillian relata que os britânicos não estão felizes com o conflito. “Vivemos um dia de cada vez e tentamos não pensar na destruição que está em curso“. A posição reflete parte do posicionamento de Keir Starmer, que se recusou a participar dos ataques contra o Irã assim como outros líderes europeus, mas que ainda defende o fim do programa nuclear iraniano.
Devido ao conflito, o secretário britânico de Energia, Ed Miliband, afirmou, no dia 26 de maio que a escalada no Oriente Médio elevou os custos para as famílias. A partir de julho, os britânicos pagarão 13% mais caro pela energia dentro do Reino Unido.
O aumento também ocorre em demais países do continente, que decidiu não apoiar os norte-americano justamente devido às consequência da guerra e da imprevisibilidade de Trump, que já se mostrou intolerante mesmo com aliados históricos.
Na Europa, o estado de bem-estar social não tem satisfeito a população, que teme a insegurança dos conflitos em curso, mas também do envelhecimento, desemprego e alto custo de vida. É o que teóricos têm definido como “ansiedade de declínio” e “backlash cultural”.
Esses são o combustível para “essa ascensão de partidos especialmente da extrema-direita – assim como no Reino Unido – em vários países europeus“.


