Medicamentos como semaglutida, liraglutida e tirzepatida mudaram o cenário do tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade ao ajudarem a reduzir o apetite, aumentar a saciedade e melhorar o controle da glicose. Com a expansão do uso, uma dúvida passou a ser frequente em consultórios e redes sociais: essas drogas podem causar pancreatite?
Ricardo Cohen, médico e head do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que a preocupação ganhou força após relatos iniciais de casos em pessoas que usavam os chamados análogos de GLP-1, classe que “imita” hormônios do intestino e contribui para a perda de peso e melhora metabólica.
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão que fica atrás do estômago e tem funções essenciais na digestão e na produção de hormônios, como a insulina. Quando inflama, pode provocar dor forte na parte superior do abdome — por vezes irradiando para as costas — além de náuseas e vômitos. Em situações mais graves, pode exigir internação e cuidados hospitalares.
Apesar do temor, a discussão precisa de contexto. As causas mais comuns de pancreatite seguem sendo cálculos na vesícula biliar e consumo excessivo de álcool. Triglicérides muito elevados também podem desencadear o quadro. Além disso, pessoas com obesidade e diabetes, mesmo sem uso de medicamentos, já têm risco aumentado para o problema.

O que as pesquisas encontraram até agora
Nos primeiros anos de popularização dos análogos de GLP-1, a descrição de alguns episódios de pancreatite levou a uma investigação mais rigorosa, com estudos clínicos envolvendo milhares de participantes e grandes análises populacionais para checar uma possível ligação.
Até o momento, essas evidências não apontaram um aumento consistente e significativo do risco de pancreatite associado a essas medicações. Se existir algum risco, ele parece ser raro. Cohen destaca que a vigilância continua: “As autoridades sanitárias seguem monitorando dados de segurança, como acontece com qualquer medicamento que passa a ser amplamente utilizado”.
Isso não significa, porém, que o tema deva ser tratado com descuido. Pessoas que já tiveram pancreatite precisam conversar com seu médico antes de iniciar esse tipo de tratamento, ponderando riscos e benefícios caso a caso.
Durante o uso do medicamento, sinais de alerta exigem atenção. “Dor abdominal forte e persistente, especialmente quando vem acompanhada de náuseas ou vômitos, deve motivar avaliação médica imediata”, alerta Cohen.
Para o especialista, a mensagem é de equilíbrio: os medicamentos representam um avanço relevante no cuidado de uma doença crônica como a obesidade, que pode trazer múltiplas complicações à saúde. Ao mesmo tempo, o uso deve ser acompanhado por profissionais, com orientação adequada e monitoramento.
Em meio a dúvidas e desinformação, a recomendação é evitar tanto o alarmismo quanto a minimização de possíveis efeitos adversos. A decisão de usar essas medicações deve ser individualizada, considerando o perfil do paciente, os benefícios esperados e os riscos potenciais.

