


A candidata ao Senado Federal por São Paulo Simone Tebet (PSB) afirmou que o Brasil precisa enfrentar o desequilíbrio das contas públicas, mas dividiu com o Congresso Nacional a responsabilidade pelo aumento dos gastos e pela dificuldade de avançar em medidas de austeridade. Ex-ministra do Planejamento e Orçamento, Tebet disse que o problema brasileiro não está apenas em quanto o Estado gasta, mas também na qualidade desse gasto.
“O Brasil, o pior do que gastar muito, e é ruim gastar muito, é que ele gasta mal”, afirmou durante sabatina realizada nesta quarta-feira (19) no Jornal Novabrasil SP.
A entrevista foi conduzida pelos jornalistas Maira Di Giaimo, Mauro Tagliaferri e Heródoto Barbeiro e integra a série do Portal THMais e Novabrasil com os nomes que disputam as vagas de São Paulo no Senado.
Ao longo de cerca de 25 minutos, Tebet também falou sobre juros, endividamento de empresas e produtores rurais, sua mudança do MDB para o PSB, a ausência de uma candidatura presidencial de centro, reforma política, infraestrutura, segurança e educação.
Tebet responsabiliza Congresso por parte do desequilíbrio fiscal
Um dos momentos mais duros da entrevista ocorreu quando Heródoto Barbeiro questionou a ex-ministra sobre o aumento do déficit durante o período em que ela comandou o Ministério do Planejamento.
Tebet defendeu a atuação da pasta e disse que apresentou propostas de corte e revisão de despesas, embora reconheça que gostaria de ter avançado mais.
“Por mim, a gente tinha que ser mais rigoroso em relação à revisão de gastos”, declarou.
Segundo ela, algumas medidas encaminhadas pelo governo acabaram reduzidas durante a tramitação no Congresso. Tebet citou, entre as possibilidades de ajuste, a revisão de benefícios tributários e de políticas públicas que se sobrepõem.
A candidata afirmou que o país tem perto de R$ 600 bilhões em renúncias fiscais e defendeu uma redução gradual de parte desses benefícios, sem cortar incentivos que considera necessários para setores como pequenas empresas.
“Se a gente fizesse só uma média, 10% no primeiro ano, 20% no segundo ano, 30% no terceiro ano, nós chegaríamos só com esta medida”, explicou.
Ao insistir na responsabilidade do Legislativo, Tebet criticou as chamadas “pautas-bomba” e projetos que ampliam despesas sem indicar a correspondente fonte de recursos.
“O Congresso Nacional faz o contrário. Ele vem com pautas-bomba, ele vem com projetos que aumentam gasto sem dizer de onde vai tirar.”
“Nós já estamos pagando essa conta”
Heródoto voltou ao tema e perguntou diretamente quem pagaria a conta do desequilíbrio fiscal. Desta vez, Tebet respondeu que o impacto já aparece no cotidiano da população.
“Nós já estamos pagando essa conta. Sabe como nós estamos pagando essa conta? Com juros altos, com a inflação, com câmbio brasileiro desvalorizado.”
Ela afirmou que responsabilidade fiscal e justiça social não precisam ser tratadas como conceitos opostos.
Para Tebet, a próxima composição do Congresso será determinante para qualquer governo que pretenda colocar as contas em ordem.
“Não adianta eleger um presidente da República e não ter minimamente uma maioria que entenda de responsabilidade fiscal.”
Juros altos preocupam indústria, comércio e agronegócio
A entrevista começou pela situação financeira das empresas e pelo avanço de recuperações judiciais em diferentes setores.
Tebet diferenciou os problemas enfrentados pelo varejo dos desafios do agronegócio. No comércio, chamou atenção para a concorrência das grandes plataformas digitais e defendeu regras capazes de garantir maior equilíbrio entre os diferentes modelos de negócio.
Já no campo, relacionou o endividamento à combinação entre queda no preço das commodities, financiamentos contratados anteriormente e juros elevados.
“O grande problema hoje do setor produtivo no Brasil são os juros altos.”
Produtora de soja e cana, Tebet disse ser favorável à autonomia do Banco Central, mas defendeu que a instituição também leve em consideração os efeitos da política monetária sobre a economia real.
Do MDB ao PSB
Maira Di Giaimo questionou Tebet sobre a mudança partidária após mais de três décadas no MDB. A jornalista lembrou que o PSB tem origem histórica na esquerda, enquanto Tebet continua se apresentando como uma política de centro.
A candidata respondeu que não considera que ela ou o partido tenham necessariamente mudado. Para Tebet, o próprio sistema partidário brasileiro perdeu parte de sua identidade ideológica.
“Os partidos políticos deixaram há muito de ser ideológicos.”
Ela disse ter ingressado no PSB pelas mãos do vice-presidente Geraldo Alckmin e afirmou compartilhar com a legenda valores relacionados à democracia e à soberania, mesmo mantendo posições diferentes em outras áreas.
“Eu não me encaixo no PT porque eu não sou de esquerda e não me encaixo no PL porque não sou de extrema direita.”
Tebet aproveitou o assunto para defender uma reforma política que discuta, entre outros pontos, o financiamento eleitoral, o fundo partidário, as emendas parlamentares, a reeleição para cargos do Executivo e até mudanças no Judiciário.
Entre as propostas mencionadas está o fim da vitaliciedade para ministros do Supremo Tribunal Federal.
Tebet lamenta ausência de uma alternativa de centro
A discussão partidária levou a outro tema: o desaparecimento de uma candidatura presidencial competitiva de centro.
Tebet, que disputou a Presidência em 2022 e terminou em terceiro lugar, reconheceu que o espaço político que tentou ocupar há quatro anos não encontrou um nome equivalente nesta eleição.
“Lamentavelmente, você não tem centro, você não tem uma terceira via hoje. Isso é ruim para a democracia.”
Segundo ela, existe uma diferença importante entre as duas eleições. Em 2022, a população estava mais fortemente dividida entre os polos políticos. Agora, na avaliação da candidata, parte do eleitorado demonstra desgaste com a polarização, mas não encontra uma alternativa organizada no centro.
Tebet voltou a justificar o apoio a Lula pela defesa da democracia e afirmou que pretende representar uma voz de “equilíbrio” e “moderação” no Senado.
Por que disputar o Senado por São Paulo?
A trajetória política construída em Mato Grosso do Sul também entrou na sabatina. Tebet foi prefeita de Três Lagoas, vice-governadora e senadora pelo estado antes de transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo.
Questionada sobre como pretende representar os paulistas, respondeu que o tamanho da economia estadual exige parlamentares capazes de defender os interesses de São Paulo em Brasília.
“Se São Paulo vai mal, ele puxa o Brasil para baixo.”
Tebet citou como prioridades a modernização de marcos regulatórios, o apoio ao setor produtivo, investimentos em infraestrutura e logística e recursos federais para melhorar a mobilidade urbana da Região Metropolitana.
Ela também mencionou a necessidade de eletrificação da frota de ônibus e apontou o combate às facções criminosas como uma preocupação que ultrapassa a capital e já atinge municípios de médio e pequeno porte.
Educação aparece como prioridade
Professora de formação, Tebet deixou a educação para o fim da resposta sobre São Paulo, mas a classificou como um dos principais temas de um eventual mandato.
Ela criticou o desempenho da rede estadual nos indicadores educacionais e afirmou que um estado com a capacidade econômica de São Paulo deveria ocupar posição de liderança na qualidade do ensino.
“A qualidade do ensino do estado de São Paulo tem que ser de excelência. Ele tem que puxar, ele tem que capitanear a qualidade do ensino no Brasil.”
A sabatina de Simone Tebet integra a série do Jornal Novabrasil SP com os candidatos ao Senado Federal por São Paulo. A Novabrasil informou que os demais nomes na disputa também foram convidados para entrevistas ao longo da campanha.
A íntegra da conversa pode ser acompanhada no canal Jornalismo Novabrasil no YouTube e Portal ThMais


