As chuvas em Minas Gerais neste mês de fevereiro foram desoladoras. Mais de 60 pessoas morreram e outras 5 mil precisaram sair de casa. O acumulado de chuvas chegou a quase 580 milímetros. Em apenas 12 horas, caiu o que era esperado para semanas e o solo encharcado não resistiu, levando encostas, casas e vidas.
Este evento parece exceção, mas, assim como a enchente do Rio Grande do Sul e as tragédias anuais na região serrana do Rio, tende a ser o novo normal. Quem alerta é o climatologista Carlos Nobre:
“Enquanto a temperatura continuar alta sim, esses eventos todos vão estar quase no nível normal. a ciência está indicando até 2030 1,5 graus vai ser atingido permanentemente. Então, você pode até dizer que nós estamos muito próximos do novo normal de eventos extremos.“
Mas o que explica o imenso volumes de chuvas em Minas Gerais? Não foi apenas “muita chuva”, e sim uma combinação de fatores. O professor exemplifica que com o aquecimento do planeta e mais emissões de gases poluentes, a atmosfera retém mais energia. E isto somado ao desmatamento e despreparo das cidades resulta em tragédia:
“Quando a atmosfera está mais quente e os oceanos ficam mais quentes, eles aumentam muito a evaporação. E quando evapora mais água, aquele vapor da água sobe, num momento ele condensa e libera aquele calor todo“, afirma.
Milhões de brasileiros estão em áreas de risco
A ciência alerta: o fenômeno foi extremo, mas a tragédia tem digital humana: mais emissões de combustíveis fósseis, desmatamento e exploração insustentável da natureza.
Ao mesmo passo, ao longo de três décadas, quase 5 mil pessoas morreram só no Brasil por causa de desastres do clima. Para o cientista, que chefiou o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, e Alto Conselheiro da ONU, o Brasil precisa lidar com as populações que vivem em áreas de risco:
“Tem milhões de brasileiros que não podem continuar nessas áreas de risco, de inundações e de deslizamentos de encosta“, comentou. “Tem que ter uma política de fazer restauração florestal urbana para abaixar a temperatura, ter financiamento para fazer o telhado verde, para baixar a temperatura, e também um financiamento para que essas populações tenham painéis solares“, para assim reduzir o uso de energia não renovável ou não sofrer com apagões.
Minas reduziu as verbas para desastres
Apesar dos alertas e eventos extremos mais frequentes, o governo de Minas reduziu em 96% o orçamento de 2025 destinado ao Programa de suporte às ações de combate e reparos aos danos causados pelas chuvas no estado. Eram R$ 134,8 milhões em 2023, que caíram para menos de R$ 6 milhões dois anos depois.
Em nota, a gestão Romeu Zema alegou que o dado “não era real” e que os investimentos para este fim chegaram a R$ 2 bilhões, mas contando todos os anos dos dois mandatos.
Ainda segundo a gestão Zema, as ações “vão além de prevenção de desastres das chuvas“, o que consta no Portal da Transparência. A reportagem questionou então quais são as demais ações e programas para enfrentamento às mudanças do clima, mas não obteve resposta.
Por fim, segundo o governo mineiro, “a obrigação investimentos em prevenção de desastres é dos municípios“.


